08 de julho de 2026
Geral

PM começa a mapear crack em Bauru

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 6 min

Está em andamento um trabalho da Polícia Militar de Bauru para mapeamento dos pontos de consumo e venda de crack na cidade. Com esses dados em mãos, a ideia é reunir vários setores da sociedade para pelo menos dificultar a ação de usuários e traficantes.

Entre os locais mais procurados por esse público estão as margens da ferrovia, em seu trecho urbano, e algumas ruas do Centro velho da cidade, especialmente onde existem prédios abandonados. É por esse motivo que a polícia quer a colaboração de outros setores. Se for preciso intervir nesses prédios abandonados, por exemplo, a ação teria de ser feita pelos respectivos proprietários.

De acordo com o capitão Flávio Kitazume, o problema envolvendo o crack em Bauru está crescendo e pode trazer graves consequências para a sociedade. Mais do que já tem causado.

O capitão lembra que as crises de abstinência do crack podem deixar os usuários transtornados e levá-los a cometer crimes violentos em busca de dinheiro. “É uma droga que vicia rápido e a síndrome de abstinência força os dependentes a procurar um jeito de conseguir o dinheiro para comprar mais pedras”, diz.

Segundo o militar, de uns tempos para cá, aumentou a frequência dos delitos e isso pode estar diretamente relacionado ao consumo cada vez maior do crack. De acordo com Kitazume, os pontos de venda da droga estão espalhados por toda a cidade, mas há uma concentração maior nos pontos citados no início da matéria, onde justamente também ocorre o consumo.

O capitão conta que muitos dependentes consomem a droga no mesmo local da compra porque não aguentam esperar até chegar em casa ou em outro local distante dali.

Ele revela que os usuários se reúnem em grupos de 15 a 20 pessoas para consumir a droga dentro de ambientes degradados e promíscuos, onde é potencializado o risco de outras doenças. “São pessoas que perderam a auto-estima e se expõem mais aos riscos”, comenta Kitazume.

Vagas insuficientes

Bauru tem cerca de 370 mil habitantes e irrisórias 50 vagas para internação de dependentes químicos. São 25 vagas no Esquadrão da Vida e outras 25 na Comunidade Bom Pastor. Hoje, todas estão ocupadas e há fila de espera. No Esquadrão da Vida tem dependente esperando vaga desde fevereiro.

A secretária Darlene Tendolo, da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), diz que há uma preocupação do município em ampliar o número de vagas para internação. Segundo ela, existem reuniões marcadas para esta semana com esse propósito.

“Estamos intensificando bastante os trabalhos porque o crack tem avançado muito e a busca por tratamento também”, informa. Darlene diz que o município está prestes a formalizar convênio com a entidade Vida e Paz para atender mulheres dependentes.

Ela destaca também a importância dos trabalhos preventivos, que precisam ser feitos nas escolas e dentro de casa. “Saber onde os filhos vão, com quem estão e o que estão fazendo é essencial. Impor limites e responsabilidades também. Se a família não consegue fazer isso, ninguém mais vai conseguir”, afirma.

Para ter direito à internação, o primeiro passo é procurar o Centro de Referência Especializado à Assistência Social (Creas). É o órgão que vai encaminhar os dependentes para uma das duas entidades que oferecem internação.

Antes de iniciar o tratamento, o paciente passa por uma entrevista com o assistente social e a psicóloga da casa para um melhor conhecimento do novo membro. Depois da conversa, o próximo passo é providenciar o enxoval para a internação.

No caso das pessoas que estão na fila de espera, elas são chamadas quando algum interno termina o tratamento ou quando surge alguma desistência.

Para a assistente social do Esquadrão da Vida, Eugênia Maria Sellmann Chaves, a internação é quase obrigatória para o dependente de crack. “Eles não conseguem manter o tratamento andando livremente pelas ruas. Uma grande parcela tem dificuldades para se manter longe das drogas”, diz.

No caso dos adolescentes dependentes, Bauru tem convênio com uma entidade de Votorantim, na região de Sorocaba, para internação. O encaminhamento dos menores é feito por determinação da Vara da Infância e Juventude.

Além do serviço de internação, Bauru conta ainda com grupos de apoio aos dependentes e às famílias dos mesmos, como o Centro de Atenção Psicossocial/Álcool e Drogas (Caps/AD) e os Narcóticos Anônimos.

• Serviço

Caps-Infantil (para menores de 18 anos). Telefone: (14) 3227-2574

Caps-Adulto. Telefone: (14) 3227-5022.

Esquadrão da Vida. Telefone (14) 3214-9072.

Comunidade Bom Pastor. Telefone (14) 3011-0601 ou 3281-6510

Narcóticos Anônimos - Igreja Nossa Senhora Aparecida (Praça Washington Luís, s/n) e Rua Araújo Leite, 15-39 - Centro.

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Desespero de mãe

Uma mãe de 58 anos, moradora do bairro Pousada da Esperança 2, sabe o quanto é difícil conseguir uma vaga para tratamento em Bauru. Por isso, lamentou profundamente quando o filho de 26 anos teve de abandonar as sessões porque não tinha dinheiro para pagar o ônibus até o Centro de Atenção Psicossocial/Álcool e Drogas (Caps/AD).

Desesperada, ela não sabe mais a quem recorrer. Segundo ela, o filho “é um menino trabalhador”, um servente de pedreiro “dos bons”, mas caiu na armadilha do crack e não consegue mais sair dela.

“Ele quer sair, mas não consegue”, conta a mãe. “Ele é tudo o que eu tenho na vida. Por isso, eu peço, encarecidamente, que me ajudem a salvar meu filho”, implora entre lágrimas.

Ela conta que o filho deixou o emprego porque não tem forças para trabalhar. Ele não se alimenta direito e também não consegue dormir. “Ele anda pela casa e pelo quintal a noite toda. Já chegou a tomar calmante dos mais fortes para dormir, mas não adiantou. Ele está se acabando e eu junto com ele”, lamenta.

A mãe conta que tem uma sobrinha que passou pelo mesmo problema. Ela foi internada e conseguiu superar a dependência e hoje está bem. O fato de saber que há uma saída para o problema vivido pelo filho, mas que não consegue chegar até ela, aumenta ainda mais o desespero da mãe.

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Com ajuda da família, cura chega a 80%

Quando a família participa do processo de recuperação do dependente de crack, o índice de cura chega aos 80%. É o que garante a psicóloga Elizabete Kurozawa, da Comunidade Bom Pastor. Por isso, ela ressalta a importância da família estar presente no restabelecimento do dependente, tanto durante o tratamento quanto, e especialmente, depois que o paciente vai para casa.

Elizabete comenta que normalmente os problemas com o usuário de crack ocorrem dentro de casa, com a família. Segundo ela, entre os amigos e na vida fora de casa o dependente não tem muitas dificuldades. “A família tem uma importância muito grande na vida das pessoas”, afirma.

A psicóloga diz que nem sempre o dependente químico conta com o apoio de toda a família, mas se tiver uma pessoa dentro da casa que dá esse apoio, as chances de sucesso são grandes.

Para Elizabete, é um grande erro pensar que a dependência é uma doença única, ou seja, que se justifica por si só. Segundo a psicóloga, geralmente ela está associada a algum outro tipo de problema, a chamada comorbidade. São transtornos que influenciam na busca pelas drogas.

Quando essas comorbidades são englobadas no tratamento, as chances da dependência se estabilizar são muito grandes. “Mas é preciso se cuidar”, avisa. Segundo ela, existem pessoas que terminaram o tratamento há seis anos e, desde então, não registraram nenhuma recaída.

De acordo com o delegado seccional de polícia de Bauru, Benedito Antônio Valencise, a dependência é uma doença como o diabetes e a hipertensão. “Ela não tem cura. A pessoa vai carregar para o resto da vida, mas é possível mantê-la sob controle”, compara.