No início da década passada, os guardadores de carros da cidade chegaram a ser cadastrados, numa tentativa das polícias de ao menos monitorar a atividade na cidade. Na época, o cadastro foi incentivado pelo então titular do 3º Distrito Policial, delegado Marcelo Haddad, que catalogou guardadores entre 13 e 66 anos, a maioria concentrada nos arredores das avenidas Duque de Caxias, Getúlio Vargas, Nações Unidas, além da região central.
O objetivo do levantamento, destaca Haddad, atualmente na função de assistente da Delegacia Seccional de Bauru, era facilitar a identificação em casos de delitos cometidos. Na mesma época, frisa o advogado Olavo Pelegrina Júnior, presidente do Conselho Municipal de Segurança (Conseg) das regiões Centro e Sul da cidade, a Polícia Militar também intensificou a vigilância e chegou a retirar de circulação alguns infratores que se aproveitavam da atividade para cometer delitos.
“Na época foram retirados de circulação os que tinham passagem pela polícia”, lembra o advogado, que, assegura, levantará a questão na próxima reunião ordinária do grupo colegiado. Para ele, o tema é pertinente porque os maus guardadores voltaram à ativa depois que a fiscalização incisiva e específica cessou.
“A Polícia Militar supriu temporariamente essa lacuna e o cadastro feito naquela época foi muito bom. Quem estava com má intenção, nessa época, sumiu”, credita. “O problema voltou porque a fiscalização seria de atributo do município”, diz.
De acordo com a assessoria de imprensa da Prefeitura de Bauru, a cidade não possui nenhuma legislação ou programa específico voltado aos guardadores, apesar de iniciativas direcionadas a famílias de baixa renda empreendidas pela Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes).
Contudo, também conforme a assessoria da administração municipal, ações fiscalizatórias caberiam à Polícia Militar, que por sua vez, atribui a função ao município. “A alternativa é o cadastramento”, defende o presidente do Conseg.
Para o presidente da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), Antônio Mondelli Júnior, o Nico, a solução ideal seria o cadastramento dos guardadores com idoneidade comprovada e a criação de uma associação da categoria. “Devidamente cooperados, eles poderiam até mesmo se tornar microempreendedores, através d programa Microempreendedores Individuais (MEI) do Sebrae”, sugere.
Queridos ou odiados, os guardadores também mostram eficiência. Ontem, numa esquina próxima a um dos bares mais movimentados da cidade, um vigia informal impediu, na hora exata, que um ladrão arrombasse um veículo estacionado sob seus olhares.
“Quando me viu, ele correu. Ele estava pronto para abrir o carro, com um ferro na mão”, comenta o guardador, atribuindo a ação frustrada a sentenciados que não retornam à cadeia após a famigerada saidinha. “Está cheio desse pessoal na rua”, lamenta.
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‘Batalha’ pelos pontos
A carência de uma legislação específica gera conflitos entre os que fazem da rua local de trabalho e outros que utilizam o mesmo espaço para fins não tão nobres. Recentemente, testemunha o comerciante Ricardo Amaral, dono de um bar na Rodrigues Alves, região do Cemitério da Saudade, guardadores e mendigos protagonizaram uma verdadeira “batalha” pelo ponto, cercado de agências bancárias.
“Nossa região está cheia”, diz o comerciante, sobre guardadores e mendigos. “Por mais que eu conheça as pessoas, sempre pinta alguém diferente”, comenta. “A briga foi por causa de droga, durante a manhã, e envolveu guardadores e andarilhos”, aponta o comerciante, que sugere a criação de um posto policial em frente ao cemitério e agências bancárias.
“O posto seria criado numa antiga floricultura. A área restante poderia ser transformada em estacionamento 45 graus. Clientes dos bancos e comerciantes precisam muito”, atenta. “Nem que o guarda fosse terceirizado. Nós, comerciantes, arcaríamos com a despesa”, prontifica-se.
Amaral diz que essa convivência conturbada entre guardadores - honestos e desonestos -, catadores de entulho, mendigos e pessoas que se prostituem naquela região, durante à noite, atrapalha e muito o comércio e clientes dos caixas eletrônicos.
“Espanta fregueses, claro. Eu mesmo gostaria de trabalhar a noite, até umas 22h, que é o horário de funcionamento dos caixas eletrônicos, mas nenhum cliente meu vai querer parar o carro aqui, nessa escuridão, principalmente nas ruas laterais. Já tive três amigos assaltados”, relata.
Apesar de um dos guardadores afirmar que a renda obtida com a atividade não passa dos R$ 500,00 ou R$ 600,00 mensais, o comerciante da Rodrigues Alves atesta que os vencimentos são maiores. “Faturam, em média, R$ 40,00 a R$ 60,00 por dia. Tinha um guardador que vinha aqui direto e gastava, em média, R$ 12,00, todos os dias com salgado, cerveja e pinga”, detalha.