Na fase de pré-campanha eleitoral à Presidência da República, o Partido Verde (PV) é responsável, com o nome de Marina Silva, pela principal alternativa à polarização criada em torno de Dilma Rousseff e José Serra. No Estado de São Paulo, também. O partido anunciou que terá candidato próprio, o ex-secretário Fábio Feldmann, com o desafio de ganhar uma das posições hoje ocupadas nas pesquisas por Geraldo Alckmin (PSDB) e Aloizio Mercadante (PT). Esse voo solo tem sido a tônica do partido, desde a sua criação. O que não o impede de, passadas as eleições, se associar à corrente de outros partidos. Acredita que isso é mais vantajoso para seus projetos e crescimento do que a obscuridade de pequeno partido.
Na Assembleia Legislativa, essa opção se expressou no atual governo pela adesão fiel e total à base governista. Os seis parlamentares de sua bancada somaram-se ao PSDB, DEM e partidos com representação ainda menor para garantir a maioria e a tranquilidade nas votações de interesse do governo estadual. Neste ano eleitoral, em que o PV buscará crescer o seu espaço na disputa contra os grandes partidos, o líder de sua bancada na Assembleia é o deputado estadual Edson de Oliveira Giriboni, natural de Itapetininga e eleito com pouco mais de 47 mil votos.
Cursou a Faculdade de Engenharia Civil da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e administração de empresas na Associação de Ensino de Itapetininga. Trabalhou como engenheiro ferroviário na Ferrovia Paulista S/A (Fepasa) entre 1977 e 1999. Presidiu a Associação dos Engenheiros da Região de Itapetininga e foi vice-prefeito desse município em dois mandatos (1988-92 e 2000-2004). Nesta entrevista à APJ, ele fala dos planos do partido em São Paulo.
Associação Paulista de Jornais - Qual a prioridade do PV este ano?
Edson Giriboni - O PV se preocupa com o desenvolvimento do Estado de São Paulo com responsabilidade ambiental. É preciso pensar nas questões ambientais de forma que possam caminhar juntos desenvolvimento e geração de renda e de empregos mas com as devidas cautelas na questão ambiental. Um exemplo típico foi o projeto de mudanças climáticas no Estado de São Paulo que o governador José Serra levou a Copenhague. O projeto chegou à Assembleia sem uma meta. Uma emenda da bancada do Partido Verde, subscrita pelos seis deputados, fixou percentual de redução dos gases do efeito estufa até 2020 em 20% em relação a 2005. Serviu de exemplo ao mundo. Foi um dos projetos mais ousados da conferência. Diferentemente do governo federal, que não ofereceu garantias da redução. O projeto de São Paulo prevê uma garantia de redução.
APJ - Qual a bandeira ambiental deste ano?
Giriboni - Aprovar vários projetos com avanços no desenvolvimento respeitando a nossa natureza.
APJ - E na área política?
Giriboni - O PV deve oficializar a candidatura da senadora Marina Silva à Presidência da República e Fábio Feldmann, ex-secretário do Meio Ambiente na gestão de Mário Covas, ao governo do Estado. As duas candidaturas vão colocar as questões ambientais no foco das discussões.
APJ - Qual a mensagem do partido para o Interior de São Paulo?
Giriboni - Temos que chamar a consciência de todos de que a responsabilidade ambiental não é só dos poderes públicos. É do cidadão também, começa em nossas casas ao diminuir os gastos de energia desnecessária. O cidadão que joga papel e lixo nas ruas e vias públicas. Outro dia eu ouvi uma palestra da senadora Marina Silva e ela fez uma colocação que faz a gente pensar. Em Sorocaba estavam gastando dezenas de milhões de reais para despoluir o rio Sorocaba, para que volte a ter peixe. Há 60 ou 70 anos, o rio não era poluído, tinha peixes e era bonito. O que o homem fez? Estragou a natureza e agora temos que gastar milhões e milhões de reais para voltar o que era antes. Se lá atrás tivesse havido essa consciência ambiental, se o poder público tivesse tomado a cautela necessária para que a cidade crescesse e a indústria também, mas tomando as precauções que a natureza exige, hoje estaríamos numa condição melhor. A grande questão que o PV vai colocar é a conscientização da grande responsabilidade que temos na questão do desenvolvimento com respeito ao nosso meio ambiente.
APJ - Como se posiciona o PV em relação ao governo do Estado?
Giriboni - Na Assembléia o partido é base do governo, faz parte dela, é um dos partidos que mais ajudou o Executivo estadual e este reconhece. Serra foi eleito já no primeiro turno e antes mesmo de sua posse fez uma proposta de parceria na Assembleia. Propôs que o PV fosse base do governo e em contrapartida teríamos acesso ao governo, as nossas emendas e o mesmo tratamento dos partidos que o apoiaram na eleição. Cumprimos o nosso compromisso e o governador cumpriu o que assumiu conosco.
APJ - Pode haver uma desistência da candidatura do PV ao governo do Estado?
Giriboni - Não, como há candidato à Presidência, é importante ter candidatos aos governos dos principais Estados.
APJ - Como está o PV no Estado de São Paulo?
Giriboni - Terá um crescimento grande nas eleições. Muitos diretórios novos foram constituídos e muitos municípios que não tinham o PV passaram a ter. Temos 24 ou 25 prefeitos no Estado. As chapas de candidatos a deputado estadual federal estão sendo altamente concorridas. Tem mais candidatos do que vagas e isso mostra a proximidade do PV com a sociedade.
APJ - O PV elegeu oito deputados nesta legislatura e agora a bancada se resume a seis. O que ocorreu?
Giriboni - Quando fomos convidados pelo governador Serra a fazer parte da base do governo, houve votação na bancada. Sete votaram favoráveis à proposta do governador e um, o major Olimpio (Olimpio Gomes, PDT) tomou posição de ser oposição, por uma questão da campanha dele, que sempre criticou o PSDB e não tinha condições de ser deputado da base. Era uma voz isolada. Mais recentemente, a deputada Vanessa Damo (PMDB) teve um desentendimento localizado em Mauá, na região do ABC, sua base eleitoral. Houve incompatibilidade entre ela e as lideranças do PV local.
APJ - Qual a análise que o sr. faz do governador Serra?
Giriboni - Foi muito competente e criativo em dosar o Estado de uma alta capacidade de investimento sem elevar a carga tributária. Houve até diminuição da carga tributária em alguns setores da economia, redução de alíquotas e devolução de impostos por meio da Nota Fiscal Paulista o que no fundo é uma redução da carga tributária. Foi democrático na execução do orçamento, deu uma autonomia muito grande aos seus secretários de Estado para a liberação de recursos e também prestigiou a Assembléia na execução do orçamento, pelas emendas dos deputados, inclusive deputados da oposição tiveram emendas liberadas. A região sudeste do Estado, que eu represento, recebeu recursos e investimentos que nunca haviam ocorrido na história de São Paulo.
APJ - E o presidente Lula?
Giriboni - Vejo ele com grande sensibilidade social até pela sua história de vida. Perdeu algumas oportunidade de fazer com que o País tivesse maior crescimento se tivesse sido mais austero nas contas públicas e em relação ao inchaço da máquina. Talvez aproveitando o momento favorável na conjuntura internacional, afrouxou um pouco a questão econômica.
APJ - Marina Silva tem chances de ir para o segundo turno?
Giriboni - É uma boa candidata, tem uma história de vida invejável, é esforçada e um exemplo para o Brasil. Estamos ainda no início da campanha eleitoral. Por onde passa, cativa as pessoas, é muito coerente em suas posições e na defesa de suas ideias. Terá pouco tempo de televisão. A TV tem um papel importante nas candidaturas majoritárias. O PV tem uma estrutura partidária pequena. É como um jogo de futebol. A Dilma e o Serra entram como os grandes favoritos e a Marina corre por fora e tem potencial de crescimento grande.
APJ - E em São Paulo?
Giriboni - A mesma coisa. Temos duas candidaturas muito fortes em termos de máquina, de tempo de televisão. Temos uma estrutura partidária pequena. Teremos um programa de televisão muito bem feito. O tempo é pequeno, pouco mais de um minuto, teremos que ter uma estratégia de televisão muito eficiente para compensar. Falar e chegar no coração das pessoas em um minuto enquanto os outros terão 15, 20 minutos. Vamos insitir na coerência e responsabilidade ambiental como diferencial em relação aos demais.
APJ - Em relação ao meio ambiente, o que importa mais, o aquecimento global ou os efeitos locais e regionais?
Giriboni - Temos que ter visão global, mas a conseqüência global é resultado de nossa ação local. Por exemplo, na região metropolitana de São Paulo, temos uma carência muito grande de transporte público sobre trilhos e metrô. No Estado, temos uma malha ferroviária pequena e subutilizada. Isso faz com que tenhamos muitas cargas transportadas por caminhão com maior dano ambiental. Temos que avançar também nos municípios para que cumpram uma agenda ambiental. Muito tem que ser feito, ainda. Temos municípios sem tratamento de esgoto, poluindo córregos e nascentes, e muitos com lixões sem o devido tratamento. Temos que fazer essa lição de casa. Esse é um grande ponto para o Partido Verde - chamar a todos para a agenda ambiental.