08 de julho de 2026
Mulher

Abrindo o caminho


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O Supremo Tribunal de Justiça levou 20 anos para ter uma mulher no seu quadro de ministros: Eliana Calmon, que ocupa o posto há 11 anos e tem a humildade de dizer que não é diferente das outras mulheres, só chegou na frente. Como muitas outras pioneiras, enfrentou percalços por ter tomado a dianteira, mas carrega a glória de ter aberto caminho. Hoje, há cinco mulheres no STJ, por onde já passaram 79 ministros.

Eliana foi também a primeira mulher promotora da República, em 1976, no Estado de Pernambuco. “As pessoas estranharam. É um cargo muito espinhoso. Tinha de lidar com tráfico de drogas, crimes tributários, contrabando.”

Seu primeiro obstáculo profissional foi na Procuradoria Geral da República, em Brasília, durante a ditadura militar, quando decidiu deixar o cargo. “Não poderia exercer a atividade de forma livre.” Mas não desistiu. Prestou concurso para juiz federal e voltou para sua terra natal, a Bahia, onde ficou por dez anos.

Quando retornou à Brasília, ganhou jurisdição em 14 Estados, criou o Núcleo de Preparação e Aperfeiçoamento para Magistrados, e foi secretária da Escola Nacional de Magistratura. Até que lhe sugeriram candidatar-se para o cargo de ministro. Achou que não poderia, por ser uma pessoa irreverente, mas já tem uma década no STJ.

Como curiosidade, recorda-se que, quando trabalhou no Tribunal Regional Federal, não havia banheiro feminino. Só em seu gabinete. O drama era durante as sessões, quando tinha de usar o dos homens. Esperava todos se acomodarem na sala e corria para lá, pois, assim, havia menor risco de cruzar com algum colega. “Era um horror”, resume, aos risos.

Durante uma festa em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, no STJ, Eliana surpreendeu os colegas com o livro “Receitas da mulher moderna” (sim, de culinária!), assinado por ela. “Estavam esperando um livro sobre processos. Todo mundo riu e todas as mulheres compraram.” Mas basta uma pergunta sobre os processos penais que seu tom de voz muda. “Não é nada agradável prender alguém, mas o País não pode ter impunidade.”

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Força física

Quem escuta sua voz mansa não imagina que um dia a delicada Cecília Bússolo foi guarda-costas de um presidente do Brasil - no caso, José Sarney. Quando chegou, teve algumas regalias, afinal, era a primeira mulher da história do País a fazer parte do corpo de seguranças presidencial. “Não perdia para ninguém por ser mulher”, garante. Quando chegou, passou, também, a acompanhar a primeira-dama em locais proibidos para homens.

Apesar de ter sido bem recebida, o começo foi difícil. Passou por um treinamento árduo, embora já tivesse formação na Polícia Militar. “Não afrouxavam porque era mulher.” Era a única moça entre 30 homens. E tinha a melhor pontaria.

O engraçado é que, quando chegou, as pessoas achavam que ela era espiã. “Só soube disso depois.” Nunca testemunhou nenhum atentado. “Quando saía na rua era tenso. A gente nunca sabe o que pode acontecer”, lembra.

Acabou deixando de lado essa adrenalina. Casou-se, teve dois filhos, formou-se em administração. Hoje, vive em Brasília com a família e trabalha na área administrativa do Ministério do Desenvolvimento.

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Planejar

A Universidade de São Paulo (USP) demorou 71 anos para dar a uma mulher seu cargo máximo. Segundo a ex-reitora da USP Suely Vilela, apenas 8% dos reitores das 180 universidades do Brasil são mulheres. “Elas não se colocam frente a esse desafio”, diz, lembrando que foi eleita em primeira votação, fato inédito, por 75% do colegiado - que era formado por homens, diga-se. Para ela, isso mostrou que a universidade não tinha preconceito. Ideia que sustentava, aliás, até ocupar o cargo.

No ano passado, Suely Vilela cumpriu o quarto e último ano de mandato. Um dos seus legados foi o livro “USP 2034”, com um planejamento para o futuro da instituição. Diz que este trabalho é fruto da preocupação feminina de introduzir a cultura do planejamento a longo prazo. “A mulher trabalha o planejamento, algo que a universidade precisa”, ressalta.