09 de julho de 2026
Bairros

Bauru, uma cidade sob muitos olhares

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 8 min

Lugar de oportunidades

Para alguns, Bauru é um município com oportunidades profissionais saturadas. Para outros, o grande número de universitários despejados anualmente no mercado de trabalho pelas universidades da cidade é um fator que acirra ainda mais a disputa por um bom emprego. Mas, para a advogada Patricia Maria Gonçalves, 30 anos, Bauru é sinônimo de crescimento intelectual e profissional.

Há oito anos, ela deixou a cidade de Passos (MG), que tem cerca de 100 mil habitantes, onde morou por 22 anos, e veio para Bauru, em busca de um rumo novo para sua vida.

“Eu precisava sair de Passos porque não enxergava nenhuma perspectiva caso continuasse morando lá. Vim para Bauru a convite de uma prima e acabei ficando. Aqui cursei minha faculdade de direito e hoje exerço a função de advogada. A mudança só me trouxe benefícios”, analisa.

Mas, durante sua estadia na cidade, nem tudo foi motivo de comemoração. Patricia custou a conseguir estabelecer uma vida social e a saudade da família quase a fez desistir do seu sonho.

“As pessoas daqui são bem menos acolhedoras que em Minas. Quando estava na faculdade sofri muito com isso. Estava acostumada a fazer reuniões com os amigos para estudar e jogar conversa fora, aqui não era assim. Houve uma época em que pensei até em voltar para Passos. Isso só mudou quando comecei a trabalhar”, aponta.

Atualmente, Patrícia mora na Vila Brasil, visita a família esporadicamente e não faz planos de voltar para sua terra natal. “Só se for para ir para uma cidade ainda maior”, afirma.

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Contribuição cultural

Depois de 46 anos vivendo em Havana, Capital de Cuba, Rosa Maria Tolon, 56 anos, se mudou para Bauru. Ela é pianista e veio para a cidade a convite da Universidade do Sagrado Coração (USC) para ministrar aulas no curso de música.

“Quando cheguei na cidade, tive uma boa impressão. Achei as ruas calmas e as pessoas receptivas. Meu interesse aumentou ainda mais quando conheci os alunos para quem ministraria minhas aulas: eram jovens muito talentosos”, lembra.

Mas logo a primeira (e boa) impressão concorreria com muitos desafios. A diferença de costumes, de língua e cultura tiveram de ser superadas para que Rosa pudesse permanecer na cidade.

“À medida que fui conhecendo a cidade, me dei conta de muitas disparidades entre Bauru e Havana. O exemplo mais lamentável é a pobreza cultural que existe aqui. Na verdade, permaneci em Bauru porque sei que, nesta questão, posso dar minha contribuição. Os jovens daqui são muito talentosos, merecem uma cidade que respire cultura”, defende ela, que diz que só deixa a cidade quando suas tentativas se esgotarem.

Além do aspecto cultural, Rosa avalia que os bauruenses têm um ritmo muito lento. “Todo mundo deixa tudo pra última hora. Meu filho e minha sobrinha, que moram comigo, adoram os costumes daqui. Parece que são bauruenses. Amam churrasco e futebol”, brinca.

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A terra prometida

Aos 10 anos, Shozu Nakamine, 62 anos, teve de enfrentar 45 dias de viagem de navio quando seus pais decidiram sair da cidade de Wakayama, no Japão, para vir morar em Bauru. Motivo para tanta disposição, segundo ele, era a esperança de encontrar no Brasil um lugar melhor para se viver.

“Viemos eu, meu pai e mais seis irmãos. Na época, eles contavam uma história para a gente lá, diziam que aqui era possível encontrar muitos diamantes na terra. Quando chegamos aqui, achamos a cidade muito bonita, mas descobrimos que os tão falados diamantes eram café e que quem enriquecia era somente os fazendeiros”, lembra.

Sem dinheiro para voltar, Shozu e a família tiveram de permanecer na cidade, trabalhando com baixos salários em fazendas da cidade. Driblar os costumes foi apenas mais uma dificuldade enfrentada pela família.

“Eu era criança e não conseguia fazer amigos porque não falava nada em português, foi uma fase muito difícil. Também me lembro que passava mal toda vez que provava de alguma comida brasileira, era muito forte. Para minimizar as dificuldades, passamos a nos unir a outros japoneses e formamos uma colônia”, afirma.

Outra grande diferença salientada por ele é o atraso tecnológico do Brasil em relação ao Japão. A família, que estava acostumada às benesses da energia elétrica, teve de retroceder à iluminação com fogo. “O Brasil ainda precisa melhorar muita coisa para se equiparar ao Japão. Os políticos, por exemplo, deveriam trabalhar mais e roubar menos. Mas a gente se acostuma. Meu coração ficou metade japonês, metade brasileiro”, resume.

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Bauruense por destino

Era uma vez uma mulher que tinha quatro filhos e que morava em Recife (PE), 2.606 quilômetros distante de Bauru. Um belo dia, ela e seu marido receberam um convite, via rádio PX, de um homem desconhecido que propunha ajudar a família a estabelecer residência na cidade de Garça, Interior de São Paulo, onde, segundo ele, teriam uma vida melhor. Esta mulher e sua família aceitaram o desafio. Alguns anos depois, se mudaram para Bauru, onde vivem até hoje com a promessa de serem felizes para sempre.

A história de Lourdes Maria Gomes de Siqueira, 62 anos, no mínimo se parece com um conto de fadas, no máximo, inusitada, mas foi exatamente o que aconteceu. “Não tive medo, não! Sou nordestina corajosa. Se não desse certo, a gente dava um jeito e voltava. Mas, graças a Deus, tudo correu bem. Depois de alguns anos viemos de Garça para Bauru, cidade pela qual me encantei e só saio daqui se meus filhos saírem também”, conta.

Da terra natal, Lourdes sente falta da comida típica e das praias, problema que é rapidamente solucionado com as visitas que faz durante o ano. “Agora, Recife é destino de descanso. Aprendi a gostar de Bauru e já me considero bauruense há 22 anos. Acho que aqui as pessoas são mais reservadas, mas nunca fui de ficar o dia todo em casa de vizinho, além disso minha família é meu amor, e eles vivem em Bauru, o que torna a cidade ainda mais especial”, ressalta.

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Trocas culturais

Nos primeiros dias de janeiro, a professora universitária Ana Bia Andrade, 42 anos, natural do Rio de Janeiro (RJ), era só reclamações a respeito de seu novo domicílio, em Bauru. As opções de lazer existentes na cidade, o trânsito e os costumes bauruenses estavam na lista dos itens que mais a incomodavam. Passados quase cinco meses, a forma como ela enxerga a cidade mudou. Os defeitos constatados inicialmente saíram de cena e deram lugar a um mundo novo de descobertas.

“Já sou bauruense, noroestina-flamenguista de coração. Sou fã do sanduíche Bauru e dos moradores daqui, que me acolheram e mostraram uma outra cidade, até então encoberta pelas dificuldades iniciais de uma ‘estrangeira’ com sotaque carioca”, aponta.

Ana Bia se mudou para Bauru no final de dezembro, após ser aprovada em um concurso para professora do curso de desenho industrial, da Universidade Estadual Paulista (Unesp). De mala e cuia, a carioca deixou sua cidade natal sem pensar duas vezes, em busca de realizar aquilo que sempre foi seu maior sonho: dar aulas em uma universidade pública.

“Achei que a adaptação fosse ser fácil. Para mim, por exemplo, era impossível alguém que morou no Rio de Janeiro se perder em uma cidade do Interior de São Paulo, pois esta foi minha principal dificuldade. Hoje já estou mais acostumada, graças ao GPS que comprei, embora, não raras vezes, me perco dentro da própria Unesp. Além disso, sinto falta de calçadas em Bauru. Os bairros não têm um espaço decente para caminhar e as ruas são tomadas por carros”, reclama.

Com o tempo, Ana Bia aprendeu a apreciar a tranquilidade e a segurança que a cidade lhe passa, e tem planos de ficar no município por muito tempo. “Acho que Bauru é um bom lugar para se viver. Gosto do clima do Parque Vitória Régia e da estrada que leva ao aeroporto. Já defendo bravamente o patrimônio histórico-cultural da cidade e penso que posso contribuir para muitas melhorias. Além disso, já fiz muitos amigos e ganhei até um namorado”, brinca.

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Clima positivo

Ademar José Pavani, 65 anos, e Daucira Rufato Pavani, 57 anos, nasceram em Bauru, mas foi morando no Paraná que se conheceram. Ela permaneceu no Sul do País por 46 anos, ele por 42 anos. Mas, no ano de 2000, deixaram o frio e os cafés coloniais da cidade de Cascavel para retornar à terra natal, de onde saíram quando ainda eram crianças.

“Fui para o Paraná acompanhando meu pai, depois conheci a Daucira, casamos e moramos por lá muitos anos. Nossos filhos cresceram e resolveram vir morar em Bauru, em busca de estudos e empregos melhores. Como nos sentimos muito sozinhos, não tivemos dúvidas, reativamos nossos laços com a cidade”, lembra Ademar.

Morando em Bauru há dez anos, Ademar e Daucira sabem bem apontar os prós e os contras da troca. “Lá o trânsito da cidade era mais organizado, as festas eram muito boas e a cidade muito limpa. Aqui não temos isso, mas, em compensação, o clima aqui é muito bom, as pessoas são mais receptivas, temos mais acesso ao comércio e, de quebra, estamos em família”, enumera Daucira.

“Acho que a melhor explicação é que temos raízes aqui”, completa Ademar.