Eles não são naturais de Bauru. Vieram de outras cidades, Estados e até mesmos países em busca de estudos, emprego, melhores condições de vida ao lado da família e, até mesmo, de aventura. Elegeram Bauru como município e aqui estabeleceram residência. Alguns justificam a escolha dizendo que se apaixonaram pela cidade. Outros, permaneceram porque se sentem co-responsáveis pelo futuro bauruense. Há também quem tenha adotado Bauru como cidade por falta de opção.
Independente dos motivos, entre 2000 e 2007 os migrantes representaram 49,8% do crescimento populacional da cidade, de acordo com a pesquisa “Regiões Metropolitanas e Polos Econômicos do Estado de São Paulo: desigualdades e indicadores para as Políticas Sociais”, desenvolvida pelo Núcleo de Estudos de População (Nepo), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O número vem apresentando crescimento significativo desde 1970.
Um dos apontamentos que justificam este crescimento migratório, segundo a pesquisa, é a atração que a cidade desperta sobre pessoas que buscam melhores condições de trabalho. A advogada Patricia Maria Gonçalves, 30 anos, é uma das migrantes que deixaram a terra natal em busca de estudos e emprego em Bauru.
“A cidade de Passos (MG), onde eu morava, tinha apenas 100 mil habitantes. Vivendo lá, eu não enxergava perspectiva para meu futuro profissional, por isso vim para Bauru”, justifica Patricia.
Quem também correu grandes riscos em busca de uma vida melhor foi Shozu Nakamine, 62 anos. Ao lado dos pais e dos irmãos, ele deixou a cidade de Wakayama, no Japão, para tentar a vida no Brasil. “Meus pais achavam que aqui em Bauru era possível enriquecer. Naquela época, no Japão, acreditava-se que existiam diamantes na terra da cidade”, conta.
Além do fator econômico-profissional, a questão familiar permeia o cenário dos migrantes na região. Muitos se estabelecem em Bauru com a intenção de manterem-se próximos da família. É o caso do casal Ademar José Pavani, 65 anos, e Daucira Rufato Pavani, 57 anos, que veio para a cidade acompanhando os filhos. “Eu até gostava de Cascavel (PR), mas como a família toda veio para Bauru, acompanhamos. Lá estávamos nos sentindo muito sozinhos”, argumenta.
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Muitas diferenças
Saudade. Palavra existente somente no Brasil, mas que pessoas vindas de outros países não custam a entender seu significado. Foi assim com Riad Elia Said, natural de Ebel El Saqi, no Líbano. Após concluir a faculdade de arquitetura em Beirute, Riad deixou sua terra natal com direção a São Paulo, para cursar pós-graduação na Universidade de São Paulo (USP). No Líbano, deixou língua, costumes e culinária.
“Foi tudo muito diferente. Eu falava e escrevia árabe, era muito difícil me comunicar. A sorte é que eu também falava francês. A comunicação foi minha principal barreira. Além disso, a comida é muito diferente. Além dos brasileiros comerem arroz e feijão a semana toda, temperam muito os alimentos”, compara ele, que também sofreu com a organização dos municípios. “No Líbano não existem quadras e as ruas acompanham as curvas de nível das montanhas, diferente daqui, que as cidades surgem a partir de igrejas ou praças.”
Sua relação com Bauru teve início logo que veio para o Brasil. Seus irmãos já moravam na cidade e o enviavam fotos do município. Foi por conta delas que Riad se apaixonou pela Cidade sem Limites.
“Eu era fã de Bauru antes mesmo de conhecê-la. Enquanto estudava na USP, vinha a cada 15 dias para cá. Depois que concluí minha pesquisa, adotei o município. Agora não saio mais daqui. Vou ao Líbano a cada dois ou três anos, só como visitante. Moro em Bauru há 25 anos e me orgulho de ser cidadão bauruense”, explica.
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Mudança exige adaptação
Embora os migrantes entrevistados pela reportagem do Jornal da Cidade afirmem que Bauru é uma cidade acolhedora, o clima de boa vizinhança nem sempre é suficiente para mantê-los no município. Isto porque, como toda mudança, a troca de cidade, Estado ou país exige uma grande adaptação.
De acordo com a pesquisa desenvolvida pelo Núcleo de Estudos de População (Nepo), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os migrantes nacionais são maioria dentre os ‘estrangeiros’ que vivem em Bauru. O Censo Demográfico de 2000 revela que a região Sul do País foi responsável por 34,3% das migrações para a região de Bauru. Na sequência estão as regiões Nordeste e Centro-Oeste, com 26,1% e 18,6%, respectivamente. Já o Sudeste, com exceção de São Paulo, responde por 15,2% e o Norte por 3,3%.
Para quem veio de outros Estados do Brasil, a situação parece ser um pouco mais simples. Mas, sem a barreira comunicacional, os migrantes têm de enfrentar questões culturais, climáticas e geográficas.
“Foi difícil me adaptar. Em Minas Gerais eu tinha muitos amigos e aqui foi difícil restabelecer minha rede de contatos sociais. Sem ter a família por perto, desanimei e quase desisti”, lembra Patricia Maria Gonçalves, 30 anos, advogada.
Já para a professora universitária Ana Bia Andrade, 42 anos, a maior dificuldade ficou por conta da localização. “A cidade do Rio de Janeiro é bem maior e mais populosa que Bauru, contudo, é aqui que eu me perco. O formato das ruas são bem diferentes, é complicado se locomover por aqui. No começo me senti sem liberdade”, salienta Ana Bia.
Se para quem já morava no Brasil migrar para outra cidade é sinônimo de mudanças e adaptações, para quem veio de outro país as readequações são bem mais radicais. O libanês Riad Elia Said sentiu na pele a dificuldade de se comunicar. Ele veio para o Brasil com 25 anos e custou a aprender português.
“É tudo muito diferente. Quem vem de outro país para cá só permanece em Bauru se gostar de verdade da cidade. Isto porque quase nada se assemelha aos outros países. No meu caso tive de me readequar à língua, aos costumes, à culinária e à arquitetura da cidade ”, enumera.