09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

CRACK, UM PROBLEMA DE TODOS


| Tempo de leitura: 4 min

O crack é uma droga devastadora da sociedade, do ser humano, das famílias e da vida. É um problema de todos nós e quanto antes nos conscientizarmos disso melhor, pois a qualquer hora o crack pode “bater” à sua porta, seja viciando um membro de sua família ou te fazendo vítima da violência urbana. Meu irmão de 27 anos é dependente químico desde os 14 anos de idade, ele é um adicto, um doente escravizado pelo crack, necessita de tratamento que o reabilite. Aos 25 anos ele conseguiu parar de usar a droga e ficou sem usá-la por dois anos, e, livre da droga, conseguiu voltar ao mercado de trabalho, voltou a estudar, inclusive um curso profissionalizante e obteve o certificado. Porém, há pouco mais de dois meses ele teve uma recaída e voltou a usar o crack, nesses poucos meses o crack fez um estrago terrível na vida dele e da minha mãe, já que ele é solteiro e mora com ela.

O crack o fez perder o emprego e todo o dinheiro do acerto da rescisão do contrato de trabalho e mais o FGTS dele foram destinados à compra da droga, ou seja, o dinheiro serviu para sustentar os traficantes da droga. Assim que o dinheiro acabou, ele passou a levar todos os objetos, móveis e mantimentos da casa da minha mãe para trocar pela droga. Deixou a casa praticamente vazia, nem ao supermercado ela vai mais, pois sabe que os alimentos serão destinados ao sustento dos traficantes da droga. Ele passou a ter crises de abstinência, alucinações e agressividade. Ele passa a noite inteira sem dormir e minha mãe fica acordada junto a ele, pois chora muito e minha mãe fica lendo salmos da Bíblia para ele na madrugada até ele conseguir dormir. Ele chora, grita "meu Deus, mãe me ajuda!!". É uma situação desesperadora. A vida dele está cada vez mais comprometida, ele já não tem saúde física nem mental. Ele era um rapaz bonito, amoroso, ótimo filho e saudável, mas o crack fez dele um rapaz esquelético, perturbado, escravo e um perigo para ele próprio e para a sociedade.

Tentei diversas vezes interná-lo para tratamento de espontânea vontade, mas ele não aceita, afinal, o adicto raramente aceita a internação e nem tem condição de tomar tal decisão, principalmente no caso do meu irmão, que já sofre com alucinações. Procurei um advogado para requerer ao juiz a internação compulsória dele, mas o processo é muito burocrático, pois o juiz pede um laudo médico psiquiátrico para comprovar a necessidade de tratamento de desintoxicação em regime de internação. Um absurdo, pois se a família já chegou ao ponto de ter que pedir a internação compulsória é porque o doente não está em condições de responder por ele. Meu irmão foge alucinado e agressivo, nós não conseguimos levá-lo ao psiquiatra para obter o laudo que o juiz requer.

O juiz deveria saber que é difícil lidar com o dependente químico, principalmente nos casos em que o doente já está agredindo a própria família. O resultado: dificilmente conseguiremos interná-lo para desintoxicação e posterior reabilitação. A sociedade sofrerá as conseqüências, pois agora que ele não tem mais nada em casa para trocar pela droga, fatalmente passará a roubar para obter a droga. A justiça prefere dificultar a internação do adicto e deixá-lo livre para cometer crimes para obter a droga, prefere que o adicto roube e mate cidadãos inocentes ao invés de tratá-lo em regime de internação e recuperá-lo para viver em sociedade, prefere que o adicto seja mais um preso no sistema carcerário falido e superlotado do Brasil. É hora de a sociedade exigir do governo atenção à problemática das drogas, pois é um problema social grave.

O crack aumenta a criminalidade e a violência nas cidades, lota presídios, destrói famílias, não escolhe classe social e nem sexo. Nossa Bauru, chamada cidade sem limites, não possui hospital especializado no tratamento de dependentes químicos com incapacidade de tratamento ambulatorial, apenas conta com o CAPS AD que não trata em regime de internação. Os adictos de Bauru que necessitam de internação são encaminhados ao hospital psiquiátrico Thereza Perlatti, na cidade de Jaú, mas a fila de espera por vaga é imensa, além disso, o hospital deve priorizar o atendimento aos pacientes psiquiátricos. Hospitais e clínicas particulares na região cobram em médica R$ 3.000,00 por mês para tratar o dependente químico em regime de internação. Agora estou confiando na justiça Divina.

Nota da redação: Para não invadirmos a privacidade da família, excepcionalmente não publicaremos o nome de quem escreveu esta carta dramática, porém, preservamos a mensagem da mesma, por a considerarmos importante demais