09 de julho de 2026
Internacional

Acordo com Irã não convence potências


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Teerã - Após acordo, EUA insistem em sanções. O acordo nuclear anunciado ontem por Brasil, Turquia e Irã não bastou para convencer os EUA das intenções pacíficas do programa atômico iraniano. A Casa Branca afirmou que seguirá pressionando por novas sanções do Conselho de Segurança da ONU a Teerã.

“Dadas as repetidas vezes em que o Irã falhou em cumprir suas promessas e a necessidade de lidar com questões fundamentais relacionadas ao programa nuclear iraniano, os EUA e a comunidade internacional continuam a ter sérias preocupações”, afirmou Robert Gibbs, porta-voz da Casa Branca, ecoando reações semelhantes de outros membros permanentes do conselho.

Para o governo americano, o entendimento anunciado é “vago sobre a disposição do Irã de se reunir com os países do P5 + 1 (EUA, Reino Unido, França, Rússia, China e Alemanha) para lidar com as preocupações internacionais acerca de seu programa nuclear”.

No acordo mediado pelos governos brasileiro e turco, o Irã se comprometeu ontem a entregar seu estoque de urânio pouco enriquecido para a Turquia no prazo de um mês após a aceitação do trato pela AIEA (agência atômica da ONU).

O documento foi assinado ontem em Teerã na presença dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Mahmoud Ahmadinejad e do premiê turco, Recep Tayyip Erdogan.

O acordo tem como base a proposta apresentada pela AIEA em outubro, que prevê o envio de 1.200 quilos de urânio do Irã para o exterior em troca do elemento enriquecido em nível adequado para abastecer um reator nuclear de Teerã usado em pesquisa médica.

Mas o texto assinado ontem inclui alterações significativas que levaram o Irã a aceitá-lo.

A principal mudança é que a Turquia, e não a França ou a Rússia, seja depositária do urânio iraniano, o que responde à preocupação iraniana de que os estoque não fosse devolvido.

O Irã também abriu mão da exigência de que a troca seja simultânea. Pelo documento, o urânio será devolvido a Teerã num prazo de “até um ano”.

Enriquecimento

O acordo deixa no ar alguns pontos obscuros. Não está clara, por exemplo, qual a quantidade real de estoque de urânio de Teerã - não se sabe se 1.200 quilos representam dois terços do estoque total, como era estimado em outubro, ou pouco mais de metade.

O texto também não impede que o Irã continue enriquecendo o resto do estoque - ontem mesmo um porta-voz da Chancelaria iraniana anunciou que o país seguirá enriquecendo urânio a 20% dentro do país.

Esse anúncio foi citado pelos EUA como um motivo para desconfiar da eficácia do acordo Brasil/Turquia/Irã. “Embora seja um passo positivo para o Irã transferir o urânio pouco enriquecido para fora do país, como concordara em fazer em outubro, o país disse que continuará o enriquecimento de 20%, o que é uma violação direta das resoluções do Conselho de Segurança da ONU”, disse o porta-voz Gibbs.

Ele acrescentou reconhecer “os esforços que foram feitos pela Turquia e pelo Brasil”, mas insistiu que é preciso que o acordo seja apresentado de maneira clara à AIEA antes que possa ser considerado.

“Os EUA continuarão a trabalhar com nossos parceiros internacionais, e por meio do Conselho de Segurança, para deixar claro para o governo iraniano que precisa demonstrar com ações - e não só palavras - a sua disposição de cumprir suas obrigações ou encarar as consequências, incluindo sanções”, disse o porta-voz.

O porta-voz do Departamento de Estado, Phillip Crowley, disse que os EUA estão prontos para um acordo com o Irã, “em qualquer hora e qualquer lugar’’, desde que o país esteja preparado para lidar com as preocupações internacionais.

“Foi o Irã que falhou em fazer isso nos últimos muitos meses”, completou Crowley, reforçando que os EUA continuam a buscar as sanções.

Visão do Brasil

As preocupações americanas não encontram eco na diplomacia brasileira.

“Aquelas garantias que [as potências ocidentais] desejam para poder começar uma conversação séria e para deixar de lado o caminho das sanções estão totalmente preenchidas’’, disse o chanceler Celso Amorim, afirmando que o acordo serve para “criar confiança”.

“Não vemos razão para que (as potências ocidentais) não aceitem (retomar o diálogo), a não ser que elas estejam mais interessadas nas sanções pelas sanções”, disse Amorim.

A mesma posição foi defendida por Ahmadinejad. “É hora de iniciar diálogo com o Irã com base na honestidade, justiça e respeito mutuo.’’ O presidente Lula não falou com a imprensa ontem, mas, em seu programa semanal de rádio, afirmou que o acordo foi uma “coisa extraordinária”.