11 de julho de 2026
Articulistas

‘Bendito maldito’ em Bauru: aos que virão depois de nós

Oswaldo Mendes
| Tempo de leitura: 4 min

Chego de Bauru, ainda embalado pelo encontro na Jalovi na noite de terça-feira (dia 4 de maio), e vou participar de um debate na PUC - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, no II Congresso de Jornalismo Cultural, na manhã de quinta-feira. Um estudante da Unesp me procura para agendar um depoimento para o trabalho da sua turma de jornalismo. De onde você é? Pergunto. De Bauru. Era a coincidência que me faltava para tentar traduzir o que ficou da experiência do Jornalismo Cultural ao Vivo, que o Jornal da Cidade promoveu no lançamento de “Bendito maldito - Uma biografia de Plínio Marcos”.

As presenças de Zarcillo Barbosa e de Paulo Neves na Jalovi me deram uma certeza. A da importância de se ter referências na vida. Não falo de gurus, nem de sacerdotes fanáticos, nem de modelos idealizados numa redoma. Falo de referências. São elas que nos estimulam a caminhar. Na redação do Correio de Marília, onde aprendi as primeiras fundamentais lições de jornalismo, o diretor Anselmo Scarano já me falava de um garoto que, como eu, começara naquele jornal e então já se destacava na imprensa de Bauru. Seu nome, Zarcillo Barbosa, jamais me saiu da cabeça. Eu o encontrei raras vezes, nenhuma tão demorada e tão próxima quanto na noite de terça-feira passada. Zarcillo, ele talvez nem saiba, foi sempre a minha referência de alguém que traçou o seu objetivo e foi atrás, mesmo que isso o levasse a trocar definitivamente de cidade. Quase na mesma época, meados dos anos de 1960, fazendo teatro amador (por que não existe mais teatro amador, alguém pode me explicar?), eu conheci em Bauru uma senhora que aliava à sua missão de educadora a paixão pelo teatro. Paixão que ela conseguia inocular em nossas veias juvenis como um vírus incandescente e vital. Seu nome, Celina Alves Neves. Também com ela foram raros os meus encontros. Mas o seu exemplo de obstinação, de não desistir nunca de seus objetivos, ficou marcado em mim, como o exemplo de Zarcillo. Creio que Paulo Neves não soubesse disso e eu o confesso aqui.

Temo que possam faltar, às novas gerações, referências tão fortes como essas duas e outras que me acompanharam vida afora. Talvez o meu temor seja o de quem vê excesso de ruídos nos dias que correm, excesso de estímulos inúteis, excesso de falsas facilidades que a tecnologia coloca à disposição dos nossos sentidos e raramente da nossa inteligência e da nossa sensibilidade. Então eu penso em quem está vindo e nos que virão depois de nós. Penso no jovem da Unesp de Bauru que me procurou na PUC para falar de jornalismo. Penso no Ravi, sobrinho-neto que ao ouvir tantas palavras na noite na Jalovi, abriu o Bendito maldito e imitou a minha pose na fotografia impressa na orelha do livro, cruzando os braços e fazendo uma cara muito séria para os seus dois anos de idade. Queiram os deuses houvesse uma crítica a mim e ao meu palavrório naquela sua reação teatral de criança! Não o quero adormecido, domesticado, imbecilizado. Por isso, prefiro crer que, à sua maneira, ele debochasse do tio-avô, rindo de um jeito crítico e só dele da minha solene seriedade. Assim então eu poderei lhe dizer - e ao estudante da Unesp - o que não disse na terça-feira e que o Plínio Marcos repetia aos quatro ventos: siga a sua vocação. Um ser “vocacionado” é feliz, porque cumpre o seu caminho. Ao fazer escolhas, não pense apenas em uma profissão, nem em um emprego seguro. Pense na sua vocação. Ela é que fará a vida valer a pena. Não confie no seu talento, confie no seu trabalho, na obstinação de ser eterno aprendiz, eterno estudante.

Plínio Marcos, o Bendito Maldito, acreditou nisso. Para cumprir a sua vocação, levou e deu porrada. Não arredou pé. Acreditou que a beleza da vida, como a natureza ensina, está na diversidade e no respeito às diferenças. Ao escrever a sua biografia alimentei a esperança de apresentar, a quem não o conheceu, um amigo no qual eu admirava (e invejava) a coragem pessoal. Espero que essa coragem sirva de referência. Por isso me comoveu a reação da Luciana Gonçalves, que agitou com Jair Marangoni, Jabbour, Rufino e tantos amigos a minha ida a Bauru. Ela começou a ler o livro e me enviou uma mensagem que, sem consultá-la, eu reproduzo: “Sinto saudade de um tempo que não vivi e de um cara que não conheci”. Foi isso que me levou a registrar a trajetória do Plínio. Como o poeta Bertolt Brecht dizia, que ela permita aos que chegarem depois de nós saber dos tempos difíceis que vivemos e, assim, possam nos olhar com compreensão, mesmo que tenhamos deixado o chão para ser arado e as casas ainda destelhadas. Que os que estão chegando completem as tarefas que não pudemos concluir, de lhes deixar um mundo habitável, em que as pessoas não se tratem como concorrentes ou algozes, mas como amigas.

O autor, Oswaldo Mendes, é jornalista e escritor