Desde que começaram a atuar também como correspondentes bancários, as agências dos Correios passaram a atrair a atenção de criminosos. A avaliação é do Sindicato dos Empregados da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos de Bauru e Região (Sindecteb). Na visão da entidade, os ladrões se aproveitam da ausência de detector de metais e de seguranças armados, entram no estabelecimento e rapidamente subjugam os funcionários, levando o dinheiro. No ano passado, somente uma agência dos Correios de Bauru foi assaltada três vezes.
Dados do sindicato mostram que no ano passado, a regional de Bauru registrou 30 pedidos de afastamento de funcionários que foram vítimas de criminosos , em todos os 203 municípios que fazem parte da regional. O número é o dobro do atingido em 2008. A entidade aguarda votação de lei que determina adoção de medias de segurança nas agências.
O principal inimigo dos carteiros costuma ser o cachorro. O ataque de animais sempre encabeçou a lista dos pedidos de afastamento, ao lado de acidentes externos. Porém, em 2009 o número afastamento de funcionários vítimas de roubo dobrou, colocando o motivo como líder na estatística do sindicato. De acordo com o divulgado pelo Sindecteb, o trauma do assalto leva ao estresse e, muitas vezes, à depressão. O último episódio foi em Iacanga, onde os ladrões roubaram cartões telefônicos e R$ 1.180,00.
A entidade ressalta que em casos de assalto ou ataque de animais, os funcionários são afastados das funções automaticamente por 15 dias, mas se for necessário prorrogar o prazo, tanto o salário quanto os benefícios trabalhistas passam a ser de responsabilidade do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS).
Porém, Luiz Alberto Bataiola, vice-presidente do sindicato, destaca que muitos funcionários que recebem alta do INSS ainda não estão bem para voltar à suas atribuições. Ele cita como exemplo uma trabalhadora da região de Araçatuba, que por conta da violência, não consegue voltar ao seu posto. “Ela desenvolveu uma síndrome do pânico e não consegue mais trabalhar, principalmente em cidades pequenas, onde a segurança nas agências é ainda menor”, pontua.
De acordo com o sindicato, ao voltar ao posto de trabalho nos Correios, o funcionário costuma ser afastado novamente para ficar em casa se recuperando. Neste período, não recebe nem salário nem benefícios, inclusive do INSS. Na maioria dos casos, os trabalhadores resistem a se afastar das funções para não perder os ganhos.
Bataiola lembra que o sindicato luta para aumentar a segurança nos estabelecimentos. “Nas cidades pequenas, a vigilância é menor. Os Correios instalaram câmeras, mas isso não impede a ação de assaltantes. E depois que as agências passaram a trabalhar como correspondentes bancários, passou a ter mais dinheiro em caixa. E isso é uma tentação para a criminalidade”, avalia.
O sindicalista explica que já houve tentativas para que os Correios adotassem medidas, como portas giratórias com detectores de metal, mas por não serem considerados agências bancárias, os postos dos Correios não são obrigados a dispor do sistema. Por isso, Bataiola conta que a briga passou a ser política e cita como exemplo um projeto de lei do deputado federal Vicentinho (PT-SP). Pela proposta, Correios e lotéricas teriam que adotar medidas mais severas para garantir a segurança de seus funcionários. O projeto de lei ainda será submetido à votação.
Correios
O JC tentou entrar em contato com funcionários da agência que foi assaltada três vezes no ano passado, em Bauru, mas eles não se manifestaram. Já a assessoria de comunicação dos Correios Diretoria Regional São Paulo Interior enviou nota informando que busca dotar suas unidades com equipamentos de segurança e manter contato permanente com os departamentos de Polícia Judiciária de São Paulo Interior (Deinters) e o Comando da Polícia Militar com o objetivo de contribuir com a tranquilidade de seus empregados e clientes. Também alegou que por motivos de segurança, a empresa não revela mais dados sobre o assunto.
____________________
Casos em 2009
No ano passado foram registrados quatro assaltos a agências dos Correios em Bauru. A primeira ocorrência foi no dia 4 de fevereiro, quando uma dupla armada entrou na agência do Núcleo Mary Dota, levando R$ 1,7 mil em cartões telefônicos e dinheiro. Dois dias depois, uma agência do Jardim Carolina foi vítima da ação de criminosos.
Dois homens armados de revólver, usando capacete e óculos escuros, entraram na agência e gritaram para todos que estavam no local deitarem-se no chão e que não queriam ferir ninguém. Os bandidos ressaltaram que só queriam dinheiro. A dupla roubou 362 cartões telefônicos, 97 telessenas, aproximadamente R$ 8,4 mil - R$ 4,4 mil em cheques e dinheiro que estavam no cofre.
Em junho, novamente na agência do Mary Dotta, um ladrão armado de revólver roubou R$ 1,5 mil em dinheiro de dois caixas da agência. Usando capacete preto, entrou na agência e, mostrando a arma, anunciou o assalto. Assim que pegou o dinheiro, saiu da agência e fugiu numa moto Honda, com uma outra pessoa na direção, que o esperava na porta.
E no dia 11 de setembro do ano passado, a mesma agência foi alvo de novo assalto. Armado, um homem levou R$ 1,2 mil do estabelecimento. Logo após o crime, policiais da Base Comunitária Leste da Polícia Militar faziam patrulhamento pelo local para identificar o suspeito e ele foi preso.
____________________
Ataque de animais ainda preocupa
O ataque de cães continua sendo um dos principais causadores de afastamento de funcionários dos Correios do trabalho. De acordo com dados do Sindicato dos Empregados da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos de Bauru e Região (Sindecteb), somente no ano passado, 28 cateiros na região foram mordidos por cães.
Para Luiz Alberto Bataiola, vice-presidente da entidade, é difícil um funcionário passar toda a carreira sem ser agredido por um animal. “Eu trabalhei mais de 20 anos na rua e colecionei sete mordidas. Desde um cachorrinho que eu não vi e abocanhou meu calcanhar, até um dobermann que me fez levar sete pontos por uma mordida”, conta. Ele destaca que os proprietários deveriam cuidar melhor de seus animais.
O carteiro motorizado Sérgio Paulo dos Anjos Domingues, responsável pela coleta e distribuição da agência dos Correios de Areiópolis, foi vítima de um ataque de um cão vira-lata que a proprietária deixou solto na rua. O caso aconteceu em fevereiro de 2010, no bairro CDHU 3, na periferia de Pardinho. Ele sofreu uma mordida na perna direita e logo se dirigiu a um hospital local para cuidar do ferimento, onde foi instruído a tomar soro e vacina antirrábica.
“Fiquei apenas um dia afastado do serviço, porque meu caso não teve tanta gravidade”, conta Domingues, que já foi atacado por cães duas vezes durante 16 anos de trabalho como carteiro.