09 de julho de 2026
Articulistas

Negócios chineses

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

As exportações brasileiras para os países da África estão perdendo terreno e atribui-se essa queda principalmente à concorrência de produtos chineses. No geral, as vendas brasileiras em 2009 foram 15% mais fracas que em 2008 e isso apesar do esforço oficial para ampliar as relações com os países do Continente. Não é novidade o fato que as exportações chinesas vêm ocupando espaços de produtos brasileiros no mercado mundial e isso não se limita aos países africanos.

A China tem uma política de exportações e câmbio favorecido e o Brasil mantém um câmbio perverso, sem uma política agressiva de exportações há 25 anos. Basta lembrar: no período 1980/84 , as vendas chinesas representaram 1,2% das exportações mundiais, o Brasil 1,2% e a Coréia do Sul, idem. No ano passado, o Brasil tinha praticamente a mesma participação, com 1,3% das exportações mundiais, a China passava de 10% e a pequenina Coréia representava quase 3%. A realidade é que nós deixamos o caminho livre aos nossos concorrentes no mercado mundial.

A agressividade chinesa não se resume, atualmente, na conquista de mercados para suas exportações. É um país que vive uma expansão econômica enorme, acumulou reservas da ordem de 2.4 trilhões de dólares. Neste montante estão 800 milhões de dólares investidos em papéis dos Estados Unidos. Eles estão claramente procurando uma diversificação deste portfólio, saindo de aplicações financeiras em busca de coisas físicas. A China tem hoje uma presença externa semelhante à dos europeus nos “bons tempos” coloniais: ela “invadiu” praticamente o continente africano. Seus empreendimentos na África adquiriram tal dimensão que eu suspeito que daqui 20 anos haverá problemas de ordem política nesses investimentos. Mas ela vai prosseguir com a política colonial porque precisa resolver o seu problema interno. É um país altamente produtivo, com uma população gigantesca de 1.3 bilhões de habitantes (oito vezes a do Brasil), um território imenso mas com terras degradadas em 5.000 anos de exploração, com uma falta de água muito importante (é por isso que não pode abrir mão do Tibet), com dificuldades e carências de abastecimento muito sérias e portanto para manter a sua sociedade funcionando precisa suprir-se de minerais, de alimentos e de energia, onde puder buscá-los.

No Brasil, operadoras chinesas tem procurado entrar no etanol e em participar da exploração de petróleo. Em princípio não teria maior problema, nestes ou em outros ramos, se se tratasse de negócios entre entes privados e sem as exigências (compra de equipamento chinês, etc...) como habitualmente se apresentam.

Recentemente, porém, essa presença chinesa vem suscitando questões que precisam ser observadas com muito cuidado: o Brasil não deve admitir (e eu creio mesmo que há impedimento constitucional para que isso aconteça) que empresas estatais da China comprem nossas jazidas de ferro, manganês, ou o que seja e passarem a abastecer de minério as suas siderúrgicas; da mesma forma a aquisição de enormes porções de terras por empresas do Estado para a produção de alimentos, com a construção de ferrovia até os portos de exportação para a China ! É o mesmo que está acontecendo em diversos países africanos. Isso envolve questões de cessão de território a um poder estatal estrangeiro e não tenho dúvida que se for permitido vamos ter problemas de soberania entre os dois países nos próximos anos.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor Emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento - contatodelfimnetto@terra.com.br