No sábado, 15/05/2010, acordei com o telefonema do meu filho Daniel que, entre lágrimas, me noticiou que um incêndio no laboratório do Instituto Butantan havia destruído toda a coleção de répteis. Ele estava inconsolável: nenhum bicho havia sobrado. A distância (ele é professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro) me impediu de secar suas lágrimas, então só me restou chorar junto. Ao acompanhar a breve reportagem na televisão vislumbrei o professor doutor Francisco Franco, nosso querido Kiko, com o olhar de desespero.
Ele, curador dessa inestimável coleção de 80 mil exemplares, a maior do mundo, demonstrava que a perda foi irreparável e a humanidade, com certeza, herdou o dano maior: perdeu a história desses bichos. Esse cientista brilhante, aguerrido, incansável nos estudos, busca e preservação desses exemplares, foi o responsável por transformar meu filho, o jovem que entregamos a ele há quase vinte anos atrás, assim como fez com tantos outros, em professor – a mais nobre das profissões – e em cientista pesquisador. Todo o trabalho de 100 anos de pesquisa queimou naquele incêndio.
O mundo perdeu, provavelmente, o maior patrimônio científico de répteis tombados para pesquisas e essa conta será debitado ao nosso país. Há muitos anos o laboratório de pesquisas de répteis do Butantan está abandonado. Não são realizados concursos públicos para contratação de professores, pesquisadores, assistentes, auxiliares. As condições de trabalho são precárias e os equipamentos obsoletos. Nesse ponto pergunto: será que o preço para a construção de câmaras apropriadas para o acondicionamento dessas espécies, a prova de fogo, seria mais alto do que a perda científica ocorrida? Infelizmente somente quando uma tragédia dessa magnitude ocorre é que o mundo descobre que a comunidade científica no Brasil está sofrendo. O desespero do curador da coleção, o nosso Kiko, é porque perdeu-se o trabalho árduo de biólogos que, no decorrer de 100 anos, dedicaram suas vidas à coleta, catalogação, estudo, criação e preservação dessa coleção ímpar, mas é também temor pelo que está a frente. A recuperação é impossível. A perda é irreparável. O trabalho deverá ser iniciado do zero.
Os amantes do Butantan com certeza ombrearão com o Kiko, arregaçarão as mangas e trabalharão. Eu pergunto: nessa época em que descobrimos que a ciência é essencial à preservação da vida e do planeta, os grandes empresários, os bancos, os centros de pesquisas, as ONGs, o governo, se mobilizarão para que o laboratório de répteis do Butantan renasça das cinzas? Essa pergunta, verdadeiro apelo, não é da mãe de um biólogo, nem da advogada que sou, mas é da cidadã do Brasil e do mundo. Houve uma tragédia e não nos enganemos: o trabalho de muitas vidas e para toda a humanidade se desapareceu ali; mais de 100 mil animais se perderam no incêndio. Eles não tinham vozes para bradar e, por isso, devemos gritar por eles: Como e quando a ajuda necessária, apropriada e pertinente chegará? Incêndio no laboratório de répteis do Instituto Butantan: a comunidade científica mundial está de luto e cada cidadão brasileiro deveria estar também. (Yeda Costa Fernandes da Silva, advogada, cidadã brasileira, OAB-SP 117.114)