11 de julho de 2026
Geral

Por necessidade ou por prazer,legião coleciona pós-graduação

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 4 min

Até há pouco tempo ter o diploma do ensino médio completo e dominar a datilografia eram suficientes para abrir portas para um bom emprego. O título de graduação era um tremendo diferencial. Hoje, nada disso garante sucesso na vida profissional.

Seja por necessidade, por prazer ou pelas duas coisas juntas, existe uma turma que nunca para de estudar para atender as novas exigências do mercado de trabalho. São pessoas que veem a vida passar através das janelas da universidade.

Entra ano e sai ano e lá estão elas, sentadas no banco da escola, engrossando o currículo com cursos de pós-graduação, que englobam mestrado, doutorado e pós-doutorado.

Estamos falando de pessoas como Leda Francischone, coordenadora geral dos cursos de mestrado e doutorado da Universidade do Sagrado Coração (USC). Depois de ter ingressado no ensino fundamental (antigo primário), a escola passou a ser sua segunda casa. Em alguns momentos, poderia até ser considerada a primeira.

Ela tem em seu currículo, além da graduação em odontologia, uma especialização em odontopediatria, dois mestrados e um doutorado. Era aluna durante o dia e professora à noite, ou vice-versa. Passou tanto tempo dentro da sala de aula que o desgaste na vida pessoal foi inevitável. Não sobrava tempo para assuntos extraclasse.

Atualmente, não está matriculada em nenhum curso e divide o tempo entre a função de coordenadora, professora, com a clínica de odontologia e o atendimento de saúde bucal aos detentos da Penitenciária 1 de Bauru. Leda é funcionária pública concursada e a análise de currículo foi fundamental para sua aprovação.

“Faço tudo isso por necessidade e por prazer, na mesma proporção”, afirma. Leda conta que o cargo que ela ocupa hoje na USC é fruto também de sua extensa experiência acadêmica. Por esse motivo, garante com toda convicção que, na hora de procurar emprego, o candidato que tem cursos de pós-graduação sai na frente.

João Alfredo Carrara é outro colecionador de pós e faz isso também por prazer e necessidade. Na opinião dele, é um ritmo puxado, cansativo, mas que compensa. “É algo que ajuda não apenas na vida profissional, mas também na vida pessoal”, diz.

Segundo ele, a vida dentro de uma universidade ajuda a formar cidadãos, a enxergar a vida com olhos mais críticos, a ponderar melhor o que ocorre na sociedade e dentro da própria família.

Carrara tem duas graduações, ambas na área de biologia, fez mestrado em zoologia, depois um curso de especialização em hotelaria, com o objetivo de trabalhar com ecoturismo. Algum tempo depois, partiu para o doutorado em biologia geral e aplicada, ao mesmo tempo que fazia um curso de especialização em gestão escolar. Além de professor, Carrara é diretor de escola e coordenador de cursos universitários na Faculdade Anhanguera. É uma jornada de trabalho de 76 horas semanais.

Apesar da rotina extenuante, ele não pretende parar com os estudos. “Eu não quero parar, não posso parar. Em qualquer profissão, o que é uma verdade hoje não será mais amanhã. Coisas novas surgem a todo momento”, justifica.

Segundo ele, o mercado exige profissionais atualizados, por isso a formação continuada é mais do que uma mera decisão pessoal. É, essencialmente, uma questão de sobrevivência.

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‘Tem gente que esconde título para aumentar chance de ser contratado’

O mercado de trabalho exige profissionais bem preparados, atualizados, com muito conhecimento em sua área de atuação, mas nem sempre está disposto a pagar por isso, principalmente se o empregador é a iniciativa privada.

No setor público, a alta titulação pode ser o diferencial em um concurso público. A presença de doutores no ensino universitário, por exemplo, é grande. Já na iniciativa privada, o espaço para esses profissionais é mais reduzido. Trata-se de uma mão de obra altamente valorizada e nem todas as empresas estão dispostas a pagar por ela. Muitas optam por profissionais que possuem especialização ou, no máximo, mestrado.

“Tem gente que esconde título como forma de aumentar suas chances de ser contratado”, revela o professor João Alfredo Carrara. A tática é confirmada pela psicóloga organizacional e consultora empresarial Rosana Amador Ramos.

Ela própria diz ter sido vítima dessa preferência do mercado de trabalho. Rosana foi dispensada do emprego, junto com outros colegas, por possuir o título de mestre. “O mercado, hoje, está difícil para esses profissionais. Há uma preferência por candidatos que tenham apenas especialização. Quem tem muita titulação encontra dificuldade porque se torna um profissional caro. Colegas meus que têm doutorado estão sendo demitidos”, comenta.

Para corroborar seu ponto de vista, Rosana conta que foi substituída no emprego por uma aluna dela. Por causa dessa dificuldade, ela diz ter desistido, por ora, do doutorado. Ela iniciou o curso, mas decidiu parar para se dedicar exclusivamente a palestras, cursos, treinamentos, recrutamento e seleção.

Segundo a psicóloga, o caminho mais comum para quem pretende levar adiante seus planos de fazer mestrado, doutorado e pós-doutorado é tentar aprovação em concurso público ou abrir negócio próprio e trabalhar oferecendo consultoria empresarial ou educacional, entre outras opções.

Rosana lembra que as universidades particulares são obrigadas pelo Ministério da Educação (MEC) a manter em seu quadro de funcionários professores doutores, mas o número é reduzido. O percentual, neste caso, acaba sendo cumprido por meio da manutenção desses profissionais em setores ligados à administração e coordenação de cursos.