10 de julho de 2026
Articulistas

A política do Big Stick

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Quando presidente dos Estados Unidos (1901), Theodore Roosevelt implantou uma política intervencionista e imperialista para assegurar a hegemonia norte-americana no mundo. Teddy ascendeu à presidência após o assassinato de McKinley e foi reeleito em 1904. Aplicou uma doutrina de coerção sobre as Filipinas, Panamá, São Domingos e Cuba, lugares de onde expulsou os espanhóis para ampliar sua zona de influência. “Doutrina” é o ensinamento dos doutos, muito aplicado em direito. Magister dixit. Não admite contestação. Teddy fazia a seguinte recomendação ao seu Departamento de Estado: “Speaky softly and carry a big stick, and you will go far” (“Fale macio e carregue um grande porrete; assim você irá longe”). Este foi o Roosevelt que esteve no Brasil em 1914 e participou de uma expedição na Selva Amazônica com o então coronel Cândido Rondon. Suspeita-se que veio para conferir a possibilidade de uma futura “internacionalização do território” (leia Through the Brazilian Wilderness, pelo próprio). Desde então, a política do “big stick” se institucionalizou nos Estados Unidos. O bloqueio econômico contra Cuba completa 50 anos e Fidel Castro continua firme no poder, mesmo alquebrado pela doença. Na Coréia do Norte o mesmo acontece desde 1953, o que não impediu a pequena nação de chegar à bomba atômica. A intervenção militar no Iraque aconteceu sob a desculpa de que Saddam Hussein possuía um arsenal de bombas de extermínio em massa, que jamais foi encontrado. A guerra no Afeganistão é sustentada sob a justificativa de tratar-se do ninho do terrorismo internacional. É o esconderijo de Osama Bin Laden. Os bombardeios dos mariners e da Usaf transformaram o território afegão num queijo suíço, de tantas crateras abertas. Bin Laden, se ainda está vivo, é mais provável que hoje viva homiziado no Brooklin, de barba raspada, boné, jeans e têni

s.

Estamos no século 21 e os Estados Unidos continuam uma grande potência. Mas não é mais determinante como no tempo da palmatória. Hoje, nenhum país pode ficar contra gestões diplomáticas para desarmar uma crise internacional, com tendências a se agravar. Persistentes, os governos do Brasil e da Turquia superaram o ceticismo geral e fecharam um acordo nuclear com o Irã. Agora, revela-se a existência de uma carta do presidente Obama ao presidente Lula, pedindo sua intervenção junto a Ahmadinejad. Nela, o presidente que ganhou o Nobel da Paz delineia os princípios de um acordo razoável com o Irã. O teor da correspondência norteou os entendimentos do Brasil e da Turquia com o Ahmadinejad. Aceito nos seus termos abriu-se a porta da esperança. O sentido do acordo, também proposto pela Agência Internacional de Energia Atômica era retirar do Irã uma quantidade tal de urânio que não deixasse no país o suficiente para que, com enriquecimento de 90%, pudesse ser utilizado para fins militares.

Surpresa: a Casa Branca considerou o acordo vago, pouco convincente e disse que o Irã segue violando resoluções da ONU, motivo pelo qual quer sanções econômicas. É uma volta à política do porrete. O Brasil também já foi acusado de desenvolver armas nucleares e submetido a inspeção. Quem tem bomba não quer que outro país a tenha. Eles se consideram os guardiões do Planeta. Mas, os fatos são os fatos. No final da primeira década deste novo século vamos, dia a dia, descobrindo um mundo novo. Não há mais polaridades como a que vimos durante os anos da Guerra Fria. Os sete países mais ricos do mundo vão aos poucos percebendo que não são mais onipotentes. A poderosa Zona do Euro enfrenta problemas, não mais de fronteiras geográficas e sim, de fronteiras econômicas. Os anos Bush lançaram o mundo de volta à era das armas, das invasões, da força da democracia à bala. É surpreendente que um presidente-operário apareça neste cenário de estadistas para dar o exemplo de que a “a paz é alcançável”. Que somente o diálogo leva ao entendimento. Os iranianos veem os Estados Unidos como beligerantes, hipócritas, ateus, imorais, materialistas, calculistas. Os EUA enxergam seus oponentes como evasivos, falsos, fanáticos, violentos e incompreensíveis. Essas reações rabugentas têm que ser intermediadas num chamado das partes à razão. E ainda chamam Lula de presidente ingênuo de um país periférico. Alguém tem que erguer o ramo de oliveira. Por que não Lula? Perdemos o complexo de vira-latas na expressão de Nelson Rodrigues. Também temos credenciais para nos meter em briga de potências, mesmo sem bomba. Somos todos cidadãos do mundo e nos interessa o que se passa no Oriente Médio, na América Latina ou na Papua Ocidental. Ou será que Estados Unidos, Rússia, China, França, Israel e União Européia querem a crise? Em caso positivo, que o Brasil pare de atrapalhar a ordem natural das coisas: a crise deve existir, sempre, pois ela é muito lucrativa. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC )