08 de julho de 2026
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Melhoria Contínua


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Empresários apressados

Ver empresário sessentão ansioso e apressado levanta todo tipo de suspeita. Dá-se a impressão, à primeira vista, de situação de improviso. Ao meu ver foi mais ou menos isso o que aconteceu no caso da associação entre Casas Bahia e Pão de Açúcar.

Em menos de cinco meses após assinar contrato da associação das duas organizações, a Casas Bahia solicitou revisão do negócio fechado, um contrato de 29 páginas assinado na madrugada do dia 4 de dezembro de 2009.

Está aí provavelmente o primeiro erro: já era madrugada e todos os envolvidos deveriam estar com suas respectivas mentes cansadas. Segundo a revista Exame de 5 de maio de 2010, as contas da equipe da Casas Bahia apontam uma diferença de critérios no acordo, que redundam em prejuízo de cerca de R$ 2 bilhões à família Klein, proprietária da grande rede varejista de eletrodomésticos, além de uma série de termos acertados verbalmente que não apareceram na versão final do documento.

Um dos fatos que chama atenção é que, a princípio, o negócio não seria anunciado naquele dia 4 de dezembro, mas foi antecipado devido a um pedido de explicações da Bovespa, no início daquele mês, considerando que os papéis do Ponto Frio, do Grupo Pão de Açúcar, dispararam na Bolsa, denotando vazamento de informações.

Uma outra versão defendida pelo lado da Casas Bahia diz que Abílio Diniz, do Pão de Açúcar, estava voando para a França para comunicar a transação a seus sócios da rede Casino, voltou e pediu aos Klein que assinassem o contrato que tinham em mãos, mesmo que estivesse inacabado e imperfeito, prometendo corrigi-lo depois. Posteriormente, Abílio Diniz relutou em cumprir a promessa, desencadeando, então, o desentendimento.

Seja qual for a verdade, de qualquer forma houve precipitação. Houve pressa.

Isso me faz lembrar os americanos temerosos com o avanço japonês, no final da década de 1980, quando adotaram como estratégia a velocidade para fazer frente à qualidade máxima nipônica. Na época, os gurus da administração daquele país enfatizavam que não era mais o grande que engolia o pequeno e sim o mais veloz que vencia o lento.

A velocidade ganhava espaço nas maiores empresas norte-americanas. Era comum naqueles anos, naquela cultura empresarial, o slogan “faça rápido, mesmo com alguns erros”. Atrás dessa estratégia estava a otimização dos processos organizacionais nas empresas de maneira drástica, de tal forma a eliminar atividades que não agregavam valor, bem como otimizar as etapas do fluxo de trabalho, reduzir níveis hierárquicos e outras iniciativas nesse sentido visando eliminar desperdícios – principalmente de tempo - e ganhar velocidade.

Mas junto com essas mudanças veio também a prática de comportamento acelerado no ambiente empresarial. Como consequência disso vieram alguns estragos, como os grandes prejuízos provocados pelas empresas “ponto com”, que priorizavam a contratação de jovens recém-formados extremamente ágeis e sem experiências. Na minha opinião, parte da origem da crise financeira de 2008 tem resquício dessa herança cultural de máxima velocidade.

O mundo dos negócios, de maneira geral, sob influência principalmente dos americanos, de lá para cá, ficou mais acelerado. É muito comum hoje encontrar empresários brasileiros acelerados continuamente e exigindo aceleração de sua equipe em tudo que fazem.

Concordo, sim, que algumas atividades devem ser realizadas de forma veloz, mas não são todas. Como na vida pessoal não podemos descansar, mastigar, ler e namorar de forma rápida, na empresa também não tem sentido negociar, planejar, resolver conflitos, analisar contrato, controlar e auditar apressadamente. Com o tempo percebe-se que o apressado não saiu do lugar.

Tenho um cliente que o considero um dos melhores negociadores que já conheci. Ele se diz amigo do tempo e afirma que em uma negociação a pressa atrai ingenuidade, pois não se consegue pensar o suficiente. No caso Casas Bahia e Pão de Açúcar, o que vimos foram pessoas experientes e apressadas se comportando como jovens ingênuos. Não podemos brincar com leis. A pressa não respeita experiência e sempre será inimiga da perfeição.

Davison de Lucas é diretor da M.Davison & Associados, consultor organizacional e palestrante. Site

www.mdavison.com.br. Telefone (14) 3234-6684.