09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

O Homem Triste


| Tempo de leitura: 2 min

Bonito ele não é, mas a cor dos cabelos que lhe restaram, seus olhos e sua pele, mesmo que já meio cansada, não passariam despercebidos por uma mulher de meia-idade atenta a procurar um possível futuro amor.

Seu andar é firme, tanto firme que parece meio grosseiro, pois certa leveza daria mais graça e elegância a ele. Mas sempre andou assim, como mudar agora com seus quase sessenta anos de idade? Seu humor está sufocado. Reprimiu tanto uma boa risada que hoje sente um pouco de vergonha em se deixar relaxar os músculos da face e em mostrar bem os dentes. Os dentes não são todinhos seus, teve que pagar um bom profissional para devolver-lhes o que o tempo e os maus tratos lhe roubaram. Talvez seja difícil para ele lembrar que ninguém o impede de rir e continua sem achar graça das coisas tolas e sem sentido.

Já foi um pouco mais entusiasmado, mas descobriu que entusiasmado perde um pouco o controle e fala demais, come demais, desagrada demais. Então o homem triste encontrou um jeito de resolver seus mal-estares decorrentes: resolveu não se entusiasmar mais.

Antes, procurava agradar quem ele achava que gostava, mas cada vez que isso acontecia percebia que exagerava. Aumentava seu tom de voz sem controle, esticava demais cada assunto, em vez de dialogar, passava a explicar. Isso o aborrecia muito. Então passou a ler cada vez mais, ler e ler, pois assim acontecia um diálogo silencioso: o texto dava seu recado e ele articulava seus pensamentos e ideias sozinho. Pobre homem triste. Antes gostava do erótico, mas se sentindo sem graça para a coisa, passou a desprezar as questões de sexo também. Hoje tem uma preocupação maior com sua espiritualidade. Talvez tenha sido o caminho mais fácil que encontrou para chegar à tal felicidade.

Sandra de Cássia Ribeiro - docente