Que o assunto é polêmico não se discute. Muitos são a favor e outros tantos contra. Os dois grupos têm certa razão e, de certa maneira, não tem razão nenhuma. Quem é contra argumenta que a educação dos filhos é dever dos pais e que o poder público não pode interferir desta maneira no núcleo familiar. Também alegam que restringe de maneira constitucional o direito à liberdade e que os números apresentados indicando diminuição da criminalidade envolvendo crianças e adolescentes em cidades que já implantaram o toque de acolher não correspondem com a realidade.
Alegam também que a solução seria outra, o poder público deveria proporcionar e facilitar acesso à atividades culturais, esportivas e de lazer. Atividades que integrem esses jovens de forma positiva e que, de fato, contribuam para um crescimento sadio e desenvolvimento correto de valores.
Quem é a favor alega que é um ato de proteção. Que busca afastar e proteger as crianças e adolescentes de situações de riscos envolvendo criminalidade e o uso e tráfico de drogas. Que é dever constitucional da família, da sociedade e do Estado proteger esse público e que até mesmo o Estatuto da Criança e do Adolescente em seu artigo dezesseis prevê a possibilidade da intervenção do estado nesta questão. Alegam que, pelo fato de chegar em casa mais cedo e dormir, ajudam no rendimento escolar. Dizem também que essa medida melhora o relacionamento familiar, já que pais e filhos passam mais tempo juntos. Os resultados apresentados pelas cidades que já implantaram essa medida em mais de sete estados brasileiro são animadores. Até mesmo com depoimentos positivos dos próprios adolescentes. Pesquisa realizada por um grande jornal da capital aponta que oitenta e seis por cento da população é a favor da implantação do toque de acolher.
Quem tem razão, realmente não sei, o que sei, baseado em mais de oito anos trabalhando com recuperação de dependentes químicos e suas famílias, é que alguma coisa precisa ser feita de maneira urgente. Penso que não basta ficar em discussões sem fim só pra saber quem está com a razão. É preciso fazer alguma coisa urgente e se alguém esta propondo a fazer algo é preciso apoio e não só críticas.
Corta-me o coração cada vez que um pai ou uma mãe me procura dizendo que o filho, ainda uma criança, está usando drogas, roubando em casa e na rua, “metido” com tráfico ou que faz três noites que não dorme em casa. Me corta ainda mais o coração ter que dizer que não temos na nossa região uma só comunidade terapêutica para recuperação desses menino e meninas. O desespero e o sentimento de incapacidade estampado nos olhos desses pais correspondem diretamente ao panorama que temos na cidade se sairmos à noite para um passeio. Centenas de jovens e adolescentes sem fazer nada, bebendo e fumando nas ruas e praças.
Outra coisa que sei é que nossas crianças e adolescentes, não são como nós éramos quando crianças e adolescentes. O acesso facilitado a informação e ao conhecimento sem estar atrelado a um bom acompanhamento educacional (da família, da escola, da sociedade e do estado) acaba gerando valores deturpados. O hedonismo e o consumismo pregados pela sociedade levam ao entendimento que é muito mais importante TER do que SER. O TER passa a ser sinônimo de sucesso, poder e felicidade. Essa falta de valores tem destruído nossas famílias pois semeia o sentimento de competitividade e leva ao rompimento dos laços afetivos. Fica, mesmo que de maneira inconsciente, o entendimento de que é muito mais difícil ter sucesso “arrastando” o marido, a esposa, os filhos ou os pais e ainda mais arrastando os avós, velhos e incapacitados.
A necessidade econômica junto à falta de remuneração decente faz com que os pais tenham que trabalhar cada mais para prover o mínimo necessário. O pouco tempo que sobra para passar com a família gera muitas vezes o sentimento de culpa e com isso a mendicância do amor de seus filhos. Compra-se carinho e respeito com presentes e concessões. A imposição ou desenvolvimento de limites não tem espaço nesse cenário. E, assim, nossas crianças e adolescentes, crescem soltos, com liberdade e incentivo à criatividade, como dizem alguns, mas também sem respeito à sociedade, à família, aos professores e à coisa alguma, prepotentes e super-heróis.
Toque de recolher ou de acolher eu não sei, só sei que é preciso fazer algo urgente e peço encarecidamente, tanto para quem é contra como para quem é a favor, que façam realmente algo. A discussão é importante e necessária, mas precisamos sair do “achismo” e transformar nossas opiniões em ação. E, por favor, não se esqueçam das famílias, tanto no sentido de dar o apoio necessário como também de cobrar suas responsabilidades e deveres. Precisamos resgatar e salvar nossas famílias.
José Luiz Prata - coordenador da Pastoral da Sobriedade