08 de julho de 2026
Geral

Mudar a rotina pode ser modo mais fácil

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 5 min

Você quer parar de fumar? Então, faça tudo diferente do que você fazia quando fumava. Se tinha o costume de fumar após o café, troque o café por um suco de laranja ou frutas. Se tinha o costume de levar o maço no bolso da camisa, saia com uma camisa que não tem bolso. Da mesma forma, mude o ambiente de trabalho, o local que almoça. Enfim, faça tudo diferente. Mude sua rotina.

Essa é a recomendação do pneumologista Lindolfo Cruz Pinheiro. Segundo ele, mudar a rotina é o segundo passo para abandonar o cigarro definitivamente. O primeiro é querer parar. “Se a pessoa continuar fazendo tudo igual, é mais difícil parar. Vai ficar parecendo que está faltando algo para completar a rotina. Quem fuma sabe disso”, alega.

O psicólogo Cláudio Márcio Salviano segue o mesmo raciocínio. De acordo com ele, muitos fumantes querem deixar o vício de lado mas não conseguem por causa do ritual que envolve o simples ato de acender um cigarro.

Primeiro tira-se o cigarro do bolso, bate o cigarro em cima do dedo, cheira o cigarro, pega o isqueiro, desliza o dedo sobre o tambor que provoca o atrito que produz fogo e possibilita a tragada inicial. “Todo esse ritual leva ao consumo. Às vezes, a pessoa nem quer fumar, mas acende o cigarro em um movimento automático”, argumenta.

Lindolfo defende uma visão que lhe foi passada na época da faculdade e que ele acredita ser a pura verdade. Ele concorda com a tese de que o tabagismo não é um vício, mas um hábito.

De acordo com o pneumologista, o vício cria dependência orgânica porque a substância passa a fazer parte do metabolismo. Quando a pessoa não consome, passa por uma síndrome de abstinência severa. Por outro lado, o hábito causa uma dependência psíquica. A diferença, segundo Lindolfo, é que, nesse caso, a pessoa para quando quer, sem grandes dificuldades.

O médico cita como exemplo as gestantes. Quando descobrem que estão grávidas, param de fumar na mesma hora e encaram isso com muita naturalidade, porque a saúde do filho é mais importante do que o cigarro. O cigarro, na verdade, não faz falta.

De acordo com o pneumologista, o mesmo não ocorre com a gestante alcoólatra ou usuária de outras drogas, como o crack, por exemplo. Para elas deixarem o consumo precisam ser internadas e passar por um processo de desintoxicação. Esse seria o vício.

Para o psicólogo Salviano, o tabagismo é considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) a principal causa de morte evitável em todo o mundo. A OMS estima que um terço da população mundial adulta, isto é, 1,2 bilhão de pessoas, entre as quais 200 milhões de mulheres, seja formada por fumantes.

Ainda segundo a OMS, atualmente, a utilização do tabaco causa 5 milhões de mortes a cada ano e a expectativa, se nada mudar, é que esse número em 2030 alcance 8 milhões, principalmente concentrados nos países em desenvolvimento.

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‘Levanto de madrugada várias vezes para fumar’

A vendedora Valéria Pereira dos Santos tem 29 anos e fuma desde os 14. Ela tem plena consciência dos males provocados pelo cigarro, mas não pensa em parar, pois se diz feliz com a escolha. Ela faz parte dos 13% de brasileiras que aderiram ao tabagismo e está na mira da Organização Mundial de Saúde (OMS), que procura conter o avanço do cigarro entre as mulheres.

Assim como acontece com a maioria, Valéria começou a fumar por curiosidade. Ela via as amigas e amigos fumando na escola e ficou com vontade de experimentar. Desde então, o hábito só tem aumentado. Nem marido, nem filho, nem mãe conseguem convencê-la a parar. É uma fumante determinada.

Valéria viu seu casamento chegar ao fim, após seis anos de convivência, por causa do cigarro, segundo o ex-marido, mas nem por isso cogitou a possibilidade de parar. Ela também não acredita que pode influenciar o filho de 5 anos a querer fumar.

“Não quero parar. Me sinto bem fumando”, afirma. Segundo a vendedora, o cigarro é um calmante para ela. No entanto, ela não fuma apenas quando está nervosa. Valéria fuma quando está com os amigos, quando bebe cerveja, quando toma café, depois que almoça, depois do jantar, quando passeia e até quando dorme.

Ela conta que levanta diversas vezes durante a madrugada para fumar. Em média, são seis cigarros, ou seja, ela acorda seis vezes na noite para fumar. Valéria consome dois maços (40 cigarros) por dia, sendo que um evapora das 18h até o outro dia de manhã. Nos fins de semana, o consumo pode chegar a três maços em um prazo de cinco horas, quando está bebendo com os amigos.

Rosemiro Gonçalves de Oliveira, 32 anos, já fumou no mesmo ritmo de Valéria. Ele conta que era comum acender um cigarro na bituca do outro, ou seja, na sequência. Atualmente, está mais comedido. São cerca de seis por dia.

Ao contrário de Valéria, ele quer parar com o tabaco, mas sente que isso está cada vez mais difícil. Rosemiro parou duas vezes. Na primeira, a abstinência durou um ano. Na segunda tentativa foram cinco anos, motivados pelo matrimônio.

No segundo dia da vida de casado, ele notou que a então esposa ficou decepcionada ao ver que o marido havia preferido fumar um cigarro antes de sentar-se com ela à mesa para tomar café. Depois disso, decidiu parar e não colocou um cigarro na boca durante cinco anos. Mas no dia seguinte de sua separação, após cinco anos de casamento, voltou a fumar.

Rosemiro acredita que depois de ter voltado por duas vezes, parar uma terceira vez vai ser mais difícil. Apesar de toda campanha contra o tabagismo e da “implicância” das pessoas que estão ao redor, ele não se sente discriminado por fumar. O fumante acredita que essa convivência pacífica deve-se, principalmente, ao fato de não fumar perto de outras pessoas que não têm o hábito. “Procuro não incomodar”, garante.