Nas prateleiras dos supermercados, pratos prontos, de fácil preparo e distribuídos em kits ou pequenas porções dividem espaço com produtos light e diet, com sabores diferentes, inspirados em culinárias regionais ou exóticas ou produzidos de forma orgânica. O que hoje é uma tendência, dentro de 10 anos se tornará presente na grande maioria dos lares brasileiros. É o que aponta a pesquisa “Brasil Food Trends 2020” (em português, tendências alimentares brasileiras).
O levantamento, realizado pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), a pedido do Departamento do Agronegócio (Deagro), órgão vinculado à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), e o Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo, foi apresentado na última terça-feira em São Paulo.
A pesquisa confirma cinco tendências de alimentação já apontadas em oito grandes estudos mundiais: os consumidores querem produtos que proporcionem sensorialidade e prazer; saudabilidade e bem-estar; conveniência e praticidade; qualidade e confiabilidade; e sustentabilidade e ética.
No caso do Brasil, hoje 34% dos consumidores entrevistados pela pesquisa prezam a praticidade e a conveniência na hora de escolher os alimentos que colocarão à mesa. Essa necessidade de rapidez, segundo a pesquisa, é atendida pela preferência por comida congelada e enlatados.
Apesar disso, os brasileiros não perdem o hábito de consumir o conhecido combinado arroz-com-feijão. “Enquanto nossos avós plantavam o feijão e nossas mães compravam, hoje a gente leva para casa quase pronto”, ilustra a nutricionista Rita Cristina Chaim, coordenadora do curso de Nutrição da Universidade do Sagrado Coração (USC), em Bauru.
O exemplo de Rita confirma o que está por trás dessas tendências alimentares: a crescente urbanização. Até a década de 50, por exemplo, o Brasil era um país eminentemente agrário. Com a chegada de Juscelino Kubitscheck ao poder federal e a adoção de um modelo econômico calcado na busca da industrialização, muitas pessoas começaram a migrar das áreas rurais para as cidades (êxodo). Em 2000, data do último Censo Demográfico realizado pelo IBGE, por exemplo, 81,2% da população brasileira moravam nas cidades.
E com a urbanização vem a correria, acompanhada por menos tempo para passar na cozinha. Daí o desenvolvimento e oferta de produtos adequados para diferentes lugares e situações (inclusive em meio ao trânsito), para consumo de forma individual ou porções chamadas de “finger foods” (comida para os dedos, em português).
Fatores determinantes
Ao lado da urbanização, outros fatores têm determinado nas últimas décadas as tendências da alimentação, como aponta “Brasil Food Trends 2020”: o aumento da população, o acesso à educação e à informação, a distribuição das pessoas por faixas etárias e a renda.
Isso significa que, diferente de décadas passadas, hoje há mais pessoas no País, com maior expectativa de vida, com mais dinheiro para consumir e com informações sobre benefícios e malefícios de determinada vitamina, mineral ou outro ingrediente para o organismo.
Razão pelo que a conveniência não está ligada obrigatoriamente à falta de qualidade, não apenas do produto em si, mas da própria alime
ntação. O traço é indicado pela pesquisa: 21% dos entrevistados preocupam-se com os itens saudabilidade e bem-estar. “Hoje também já há a busca pelo alimento gostoso, mas que também possua caráter funcional”, explica Luís Fernando Madi, diretor do Ital.
Essa característica mais exigente do consumidor, afirma, se dá pelo aumento do poder aquisitivo da sociedade, em modos gerais. “Há 10 ou 20 anos, muita gente não comia carne”, ilustra Madi. “O poder aquisitivo da sociedade está aumentando. Se vai comprar um suco, o consumidor busca o produto o mais próximo do natural. A exigência está maior”, conceitua.
Essa tendência explica o porquê do consumidor encontrar cada vez mais produtos benéficos ao desempenho físico e mental, às saúdes cardiovascular e gastrointestinal, com aditivos e ingredientes naturais e de alto valor nutritivo agregado e isentos ou com teores reduzidos de sal, açúcar e gorduras.
E a lista não para por aí, já que as tendências em alimentação também indicam interesses crescentes do consumidor por produtos com selos de qualidade de sociedades médicas ou de segurança, com rotulagem informativa e tecnologia de ponta.
Se isso tudo estiver em embalagens de fácil abertura, fechamento e descarte e design diferenciado e inteligente, a possibilidade de ir para o carrinho de compras se torna maior ainda hoje e mais ainda dentro de dez anos. Se as tendências se confirmarem, em 2020, gastaremos bem mais com alimentação. Afinal, tecnologia custa caro.
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Comida caseira é a ‘cara’ do almoço
Mesmo com a tendência estipulada para um período estimado em dez anos, as mudanças na alimentação, observa o diretor do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), Luís Fernando Madi, já estão presentes no cotidiano do consumidor brasileiro. “É uma tendência que já está se consolidando”, considera. “No passado, o grande fator era a qualidade, quando as pessoas iam às compras para buscar os produtos a granel”, compara.
Isto porque o estudo “Brasil Food Trends 2020” também levou em conta os hábitos do brasileiro durante as refeições. A correria no cotidiano é responsável por uma mudança significativa na rotina alimentar nacional, com os almoços realizados, em sua maioria, longe da mesa da cozinha caseira.
A refeição fora do ambiente doméstico é feita, ao menos uma vez por semana, por 53% das pessoas nos grandes centros ouvidas pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), a pedido do Departamento do Agronegócio (Deagro), órgão vinculado à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), e o Ital, da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo.
O levantamento detalha que é no almoço que se busca maior proximidade com a comida caseira, na predileção por itens mais substanciosos, entre eles o tradicional arroz e feijão.
Já o jantar é a refeição que mais ocorre em casa, com 65% dos entrevistados que, apesar disso, não comem, necessariamente, à mesa, mas também ao redor do aparelho de TV: 12% dos entrevistados dizem não jantar.
O café da manhã é feito por 59% dos ouvidos pelo levantamento, que ainda aponta que 27% das refeições feitas fora de casa ocorrem em restaurantes por quilo. Os fast foods recebem 19% de quem come fora. O Ibope ouviu 1.512 pessoas, maiores de 16 anos, moradoras de nove capitais.