09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana: Luciana Pires

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 10 min

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Mais um talento de Bauru para o Brasil

Com a voz doce e o jeito quase tímido, em apenas um ano de carreira a cantora e compositora Luciana Pires conquistou um belo espaço de destaque na cena musical bauruense. Agora, depois de lançar o primeiro álbum, assinou contrato com uma gravadora e terá seu próximo trabalho distribuído em todo o País pela Sony Music. Uma trajetória meteórica que envolveu ingredientes de extremo talento, dedicação e uma pitada de sorte.

Já mais madura, mais ainda uma menina de 19 anos, Luciana teve de aprender, muito rapidamente, a reorganizar sua vida que, até o ano passado, era de uma jovem comum. Com os compromissos profissionais, se desdobra para dar sequência ao segundo ano da faculdade de jornalismo e não faltar às aulas do Conservatório de Música da Universidade do Sagrado Coração, onde faz canto popular.

Nesta entrevista concedida ao JC, a cantora conta detalhes de sua vida profissional e pessoal, como o fato de já ter realizado ensaios pela In-ternet com os músicos de sua banda, o incentivo que recebeu da avó, de quem ganhou seu primeiro violão, a relação com o avô famoso, o jornalista e historiador Luciano Dias Pires, de sua aproximação cada vez mais intensa com o jazz e dos projetos para os próximos anos.

JC - Você começou a tocar violão ainda criança. Desde aquela época já sabia que queria ser cantora?

Luciana - Pois é, eu cantava desde criança e meus pais tinham que me aguentar, não tinha ninguém na família que fosse músico. Com 8 anos, ganhei um violão da minha avó, que tinha o sonho de ser cantora. Ela deu violões para todos os netos, mas todos acabaram desistindo de tocar. Eu continuei a fazer aulas e comecei a compor, ainda com 8 anos. Mas era coisa de criança, escrevia mais por diversão.

JC - E só decidiu assumir a música profissionalmente aos 18 anos. Por que tanto tempo de espera?

Luciana - Então, no ano passado eu estava na casa de uns amigos e um deles, que hoje se tornou meu empresário, começou a prestar atenção. Ele era de São Paulo e, na semana seguinte, me ligou, me chamando para ir para lá, porque já tinha acertado um estúdio para eu gravar minhas músicas. Era um sonho que eu nunca tinha imaginado que tomaria essa proporção e que aconteceria tão rápido.

JC - Foi um projeto independente?

Luciana - Sim. Eu gravei uma demo em Bauru e levei para os produtores do estúdio em São Paulo. Foi uma expectativa grande, mas eles gostaram e selecionaram os músicos que iriam tocar comigo, entre eles um baixista que já tinha tocado com o Ivan Lins. Eles gravaram os instrumentos e depois voltei para colocar a voz.

JC - Como ocorre o seu processo de composição musical?

Luciana - Flui tudo junto. Escrevo um pedaço da letra, vou encaixando a melodia no violão, sempre com um gravador por perto, para não esquecer depois. Eu moro em uma chácara e, de vez em quando, sento na varanda com o violão, ou então à noite, no meu quarto. E a música simplesmente vem.

JC - Suas músicas falam muito de amor. Você se considera uma pessoa romântica?

Luciana - Muito. Brinco que eu vivo num mundo de princesas e castelos e, mesmo quando tomo alguns tombos, continuo acreditando nele. O amor é a maior inspiração para compor, não tem sentimento maior e mais universal que este. É legal porque as pessoas se identificam e vêm contar que a minha música conta um pouco da história delas também.

JC - Existe um ‘muso inspirador’ por trás das suas composições?

Luciana - Sim. Mas, necessariamente, não preciso estar com alguém para ter inspiração. É algo que vai além, está relacionado ao seu estado emocional de forma mais ampla. Mas não dá para negar que a música, quando a gente está apaixonada ou sofrendo pelo fim de uma relação, tem outra cara. A composição sai melhor pela mistura de emoções que a gente está sentindo naquele momento.

JC - Quais são suas principais influencias musicais?

Luciana - A bossa nova sempre esteve presente nos meus shows, mesmo no início, quando eu fazia uma coisa mais pop. Canto muito Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Ivan Lins, Elis Regina, música de boa qualidade que eu escuto desde criança. Também gosto de Michael Bublé, Diana Krall, Julie London, Frank Sinatra. São os clássicos.

JC - Você ainda consegue ter uma vida de uma jovem normal da sua idade? O que você gosta de fazer?

Luciana - Consigo. Gosto de ir a barzinhos, ao cinema, sair com os amigos e com o namorado. Já curti bastante balada, mas estou mais sossegada. Também adoro tocar violão na casa de amigos ou mesmo na faculdade, durante o intervalo.

JC - E como tem sido conciliar tempo para a família, amigos e estudos diante dessa nova rotina?

Luciana - Foi tudo muito rápido. Eu tinha uma vida de adolescente normal, ia para a faculdade, saía com os amigos. E, de repente, tenho que começar a fazer viagens constantes e estudar, além do jornalismo, também música. Tenho conseguido administrar tudo de maneira ainda tranquila, mas, às vezes, as coisas se misturam. Dia desses, por exemplo, estava na aula de geopolítica e veio uma certa inspiração para compor. Isso acontece com frequência e meu caderno de faculdade está cheio de anotações e trechos de letras de músicas novas.

JC - Como você avalia a cena musical bauruense? A impressão é de que os artistas que optam pela MPB parecem estar cada vez mais perdendo espaço para outros estilos musicais, como o sertanejo. Acredita que esta seja mais um obstáculo para quem está iniciando a carreira?

Luciana - Assim como eu tive certa dificuldade para conquistar meu espaço, a grande maioria deles também tem. Mas acho que tem muito espaço para a MPB ainda, como os barzinhos e o Sesc, que são sempre movimentados. Tem muito artista bom em Bauru e eles, mesmo escondidos, continuam trabalhando. Mas, com os recursos da Internet, fica mais fácil conquistar público. A pessoa pode, sozinha, produzir vídeos e postar no Youtube, por exemplo. É algo que eu também tenho feito no meu site, através de ferramentas do Facebook, Orkut e MySpace. Muita gente tem conseguido ficar conhecida desta forma.

JC - Você costuma se apresentar em que lugares?

Luciana - Mais em eventos fechados, geralmente com alguém no violão ou no piano me acompanhando. Bar eu nunca fiz, porque é uma rotina difícil de conciliar, já que eu estudo à noite. E faço shows mais em São Paulo, por causa da banda, que fica toda lá. Para não atrapalhar a faculdade, procuro marcar compromissos só nos finais de semana. Além das apresentações, também gravo jingles (canções para publicidade) e já fiz dublagem de desenho animado.

JC - E como conseguem ensaiar, estando você em Bauru?

Luciana - Quando não tem jeito, a gente ensaia até por skype (programa de computador que permite comunicação via voz). Uma vez tive que fazer um dueto com o (cantor) Fernando Cursino e eu não tinha como ir para São Paulo porque estava cheia de provas e trabalhos da faculdade, mas a gente tinha que ensaiar. E deu certíssimo esse ensaio à distância.

JC - Já tem planos para gravar um segundo álbum?

Luciana - Eu acabei de assinar um contrato com a gravadora Kuarup, que está relançando trabalhos de vários artistas e vai relançar o meu CD. A Sony Music vai se encarregar de fazer a distribuição desse material para o Brasil inteiro. Mas, no meu caso, como “Fim de Tarde” só tinha sete canções, vamos aproveitar para incluir novas composições minhas e mais duas ou três músicas de outros artistas. O produtor desse novo álbum também é da Sony e já produziu artistas como Legião Urbana e Paralamas do Sucesso. No final de junho, vou para o Rio de Janeiro conversar com ele para definir repertório e quando as gravações serão realizadas. Em breve, também vou gravar um CD com a pianista de jazz Eliane Pellegrini, com músicas conhecidas, mas com outra releitura. Só estamos esperando a data para entrar no estúdio.

JC - E quantas músicas você compôs depois desse primeiro CD?

Luciana - As sete primeiras que eu compus entraram no primeiro CD, em que eu seguia um estilo meio MPB, meio pop romântico. Agora, estou voltada mais para o jazz e bossa. Desde então, já fiz mais de 40 canções. Durante a gravação do “Fim de Tarde”, eu não parava de compor. Mas já tenho algumas selecionadas para este novo CD, músicas que eu já venho cantando nas minhas apresentações.

JC - Com isso, já está pensando em se mudar para grandes centros urbanos como São Paulo ou Rio de Janeiro?

Luciana - Agora que a minha vida tomou esse rumo, quero levar a carreira adiante. Ainda estou caminhando devagarinho, mas acredito que, a partir do momento em que eu lançar meu CD com a Sony, surgirão as turnês, os eventos e os shows irão aumentar e não terei mais como ficar aqui em Bauru. Não faço ideia de quando isso irá acontecer, pode ser até no ano que vem. Sei que em São Paulo terei mais oportunidades e essa mudança será inevitável. Vou levar a faculdade até onde der e, se for o caso, transfiro o curso para lá. Não quero me afastar do jornalismo, porque ele também é uma paixão que tenho.

JC - Por que escolheu estudar jornalismo e não música? É uma forma de garantir uma segunda alternativa, caso desistir de ser cantora?

Luciana - Comecei a cursar jornalismo no ano passado, antes de começar a cantar profissionalmente. Escolhi o curso porque sempre gostei de televisão e pensava em trabalhar na área, na frente das câmeras. E queria ficar em Bauru, perto da minha família. Eu fiz um projeto na TV USC em que eu fui apresentadora e me senti muito à vontade. A timidez que eu tenho no dia-a-dia desaparece. É como se eu encarnasse um personagem.

JC - E isso acontece também quando você sobe no palco para cantar?

Luciana - Na primeira vez em que eu me apresentei, em maio do ano passado, antes de subir no palco eu estava tremendo, realmente muito nervosa. Eu cheguei a pensar que não ia conseguir cantar. Mas quando coloquei o pé no palco, todo o medo e insegurança desapareceram e foi engraçado porque fiquei surpresa com a minha própria reação. Mas nesse dia tive certeza de que era aquilo que eu queria fazer para o resto da vida.

JC - Você é neta do jornalista e historiador Luciano Dias Pires? Ele já está sendo chamado na rua de avô da cantora Luciana Pires?

Luciana - Ainda não. Mas todo mundo sempre relaciona meu nome ao nome do meu avô. E eu gosto disso, porque a minha relação com ele é a melhor possível. Como moro em chácara, sempre que venho para o Centro passo na casa dele. A ligação é bem forte mesmo.

JC - A família te apoia nesse caminho que você está trilhando?

Luciana - Eu sou muito apegada à família. Sempre que eu vou para São Paulo, minha mãe está junto. No começo, meus pais tinham um pouco de receio, não botavam muita fé, mesmo porque, até então eu levava essa brincadeira de cantora de maneira leve. Mas, a partir do momento que eu gravei o CD, deram total apoio. Minha mãe acaba sendo minha assessora, mas meu pai também é muito coruja.

JC - Nessa sua ainda curta trajetória profissional, qual considera ter sido o momento marcante?

Luciana - Fiz shows em lugares bem legais em São Paulo, como o Bar Des Arts, onde eu estreei como cantora, e o Cantaloup, que foi o mais recente. Em abril, também participei de um tributo a Tom Jobim, no Círculo Militar, em São Paulo, e foi muito gostoso poder homenagear um ídolo. Mas a apresentação no Alameda, em Bauru, em julho de 2009, foi a mais especial de todas. Quando eu cheguei lá, tinha uma fila enorme na porta e foi muito mais do que eu esperava. Fora que minha família, meus amigos e todas as pessoas importantes para mim estavam lá me assistindo. Foi mesmo uma experiência emocionante e inesquecível.