09 de julho de 2026
Geral

Insetos indicam a saúde do cerrado

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 5 min

O levantamento das espécies de insetos que vivem no cerrado e a quantidade de cada uma delas dizem muito sobre o nível de degradação do bioma. Estudo feito com abelhas revela que o fragmento de cerrado que ainda resta em Bauru está relativamente bem preservado. É o que afirma a professora Fátima Knoll, do Departamento de Ciências Biológicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Ela está prestes a publicar o resultado de sua pesquisa que consumiu cinco anos de trabalho e que proporcionou surpresas agradáveis à pesquisadora. A começar pela diversidade de abelhas. Uma das espécies encontradas nas áreas pesquisadas nem sequer era conhecida da comunidade científica, ou seja, não havia registro anterior de sua existência. Foi uma descoberta da pesquisadora.

Trata-se de uma espécie que tem hábitos crepusculares. Seus exemplares voam apenas ao amanhecer e ao anoitecer. Outro registro inédito foi a presença de uma espécie que nunca foi vista no Estado de São Paulo.

Essa diversidade associada à uma quantidade equilibrada de cada uma dessas espécies serve como indicador de que as condições ambientais no cerrado de Bauru ainda são boas.

Segundo a pesquisadora, quando se encontra mais de uma espécie e menos de outras é sintoma de desequilíbrio ambiental. Fátima conta que alguns tipos de insetos não sobrevivem em locais em degradação. Com o tempo vão desaparecendo enquanto outros não são tão afetados e conseguem sobreviver às perturbações. A maior presença desses últimos é indicativo claro de problemas.

As principais causas de degradação estão ligadas à ação do homem, como a derrubada de mata para o avanço da área urbana, de pastos ou da agricultura e em razão da poluição.

Pesquisando

Após cinco anos de pesquisa em áreas de preservação ambiental e estações ecológicas de Bauru e região, Fátima concluiu que ainda há um equilíbrio biológico e que as matas estão conseguindo preservar as espécies nativas.

“Pelo menos com relação aos insetos, a fauna da região está preservada”, afirma a pesquisadora. O que não dá para afirmar é até quando essa preservação será mantida. Quanto mais o homem se aproxima das áreas de mata, mais a perturbação é sentida pelos animais.

Segundo Fátima, poucas espécies se adaptam ao ambiente urbano. E uma parte delas nem sempre são bem-vindas, como os cupins.

A borboleta azul, por exemplo, é uma espécie que sobrevive no meio urbano, especialmente onde há uma vegetação mais intensa, como o Bosque da Comunidade. No entanto, a beleza peculiar da borboleta está levando-a a um risco de extinção. “As pessoas querem capturá-las. Querem aprisionar a beleza delas”, aponta a professora.

Na opinião dela, Bauru precisa cuidar melhor de suas áreas verdes e a população precisa tomar consciência da importância de se preservar a arborização e de se plantar novas árvores.

A preservação dos jardins domésticos também tem sua importância. Mas ao contrário do que se via antigamente, hoje poucas casas ainda cultivam plantas em jardins. Na avaliação da pesquisadora, a vida agitada e a consequente falta de tempo para cuidar do jardim tem feito com que esse espaço seja abolido das residências.

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Luz no campo está ‘matando’ os vagalumes

O avanço da iluminação pública no meio urbano já não foi muito comemorado pela comunidade de vagalumes. Menos ainda quando a luz artificial começou a invadir o campo, o habitat natural desses insetos.

O excesso de luz, entre outras consequências para o reino animal, impede a reprodução dos vaga-lumes.

Isso porque o macho se utiliza da luz emitida pelo seu minúsculo corpo para atrair a fêmea. E não somente a fêmea. A luz é usada para atrair também outros insetos que servem de alimento para os pirilampos. Sem a escuridão, nada disso é possível. Ao diminuir seu poder de reprodução e de alimentação, a tendência natural é que o vagalume seja cada vez mais uma doce lembrança do passado.

Uma prática comum entre as crianças de alguns anos atrás, que era correr atrás dos vagalumes, pode desaparecer em pouco tempo. Até mesmos em cidades menores, onde era mais comum encontrar esses seres voando e enchendo de pontos luminosos as noites quentes, a presença deles é algo raro.

Outro ponto destacado pela professora Sonia Silveira Ruiz, da área de ecologia e zoologia de invertebrados, é o desaparecimento dos cupinzeiros, provocado pela lavoura. O cupinzeiro é fonte de alimento para os vagalumes.

Sonia diz que dia desses encontrou um vagalume no câmpus da Universidade Paulista (Unip), onde trabalha, e o inseto virou atração para os alunos.

A sensação de que os pirilampos estão desaparecendo é reforçada pela constatação do professor Vadim Viviani, coordenador do grupo de bioluminescência e biofotônica da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), no câmpus de Sorocaba, que há mais de 20 anos visita a região do Parque Nacional das Emas, em Goiás, para estudar os pirilampos.

As pesquisas realizadas no entorno de cidades também indicam a redução das populações de vagalumes. De cerca de 20 espécies encontradas há poucos anos nas regiões de Campinas e Sorocaba, os pesquisadores da UFSCar só identificaram duas ultimamente, de acordo com reportagem da Agência Fapesp.

De acordo com Sonia, algumas espécies de vagalumes têm larvas aquáticas que se alimentam do caramujo que serve de hospedeiro do verme parasita que transmite a esquistossomose – doença que pode ser crônica e levar a morte.

Por muitos anos, Sonia estudou as vespas. Ela iniciou os estudos em São Carlos, pela UFSCar, e deu sequência quando veio para a Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru. “Eu queria comparar a fauna das duas cidades. De uma forma geral, os grupos eram os mesmos, mas não a quantidade. Em Bauru era menor, o que indicava que a área de mata da cidade estava caminhando para a perturbação ambiental”, relata. O estudo foi feito entre 1990 e 95.