10 de julho de 2026
Regional

Polo da Unesp de Botucatu tem o melhor índice de cura do mundo

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 5 min

Uma receita caseira potencializou o índice de cura de Hepatite C no polo criado no Hospital das Clínicas da Unesp/Botucatu. De cada 100 pessoas que se tratam lá, 52% saem curadas. O percentual colocou o País no top do ranking, segundo o presidente da ONG “C Tem que saber C Tem que Curar”, Francisco Martucci.

“O Brasil se tornou referência no assunto. Nos Estados Unidos as chances de cura estão em torno de 42%, nós estamos com 10% a mais. Na Europa, eles chegaram a 46%.”

Os dados positivos colocaram a equipe do polo em evidência e, atualmente, eles e a ONG viajam o mundo contando qual é o segredo de manter o paciente fiel ao tratamento por até 48 semanas e derrubar o principal obstáculo, a desistência. “O paciente pode optar por levar as injeções para casa ou participar do projeto que é uma forma assistida, desenvolvida no polo. Pela forma domiciliar, o índice de desistência é de 50%, na maneira assistida, apenas 3% desistem do tratamento.

Na opinião de Martucci, o segredo está no tratamento dos efeitos colaterais do medicamento. “O paciente toma a injeção em casa e briga com a mulher, quebra a televisão. Porque o remédio provoca alteração de humor, depressão e anemia. Os efeitos colaterais são fortes e difíceis de vencer. Eu sei porque passei por isso. Eu tive hepatite C e queria morrer. Por isso, fundei a ONG.”

O coordenador do polo, médico Giovanni Faria Filho, explica como conseguiu chegar ao topo da cura, usando o mesmo medicamento. “O medicamento é o mesmo usado nos Estados Unidos e Europa. O principal problema era o grande número de desistências. Montamos uma equipe multidisciplinar para ajudar os pacientes a vencerem os efeitos colaterais.”

A equipe, segundo o especialista, é formada por profissionais de áreas diversas. “O psiquiatra trata a depressão. A nutricionista, a anemia. Tem psicólogos e enfermeiros que apoiam o paciente, dando atenção aos efeitos colaterais. O doente se sente amparado e não desiste do tratamento. Se o portador do vírus C diminuir a medicação, ou seja não completar as 48 semanas, diminui as chances de cura. De cada 100 atendidos, 97 se curam, porque aderem ao tratamento completo no polo.”

Na opinião do médico, se o paciente não estiver amparado tanto do ponto de vista médico como familiar ele não alcança a cura. “Não consegue eliminar o vírus. Uma vez eliminando o vírus vai diminuir a chance desse paciente progredir a doença no fígado ou mesmo que a doença evolua para a cirrose.”

Vírus da Hepatite C foi descoberto em 1989

O vírus C da hepatite foi descoberto em 1989 em New Jersey. A partir de 93 teve início no País os exames para sua detecção. Normalmente, as pessoas que têm contato com o vírus apresentam um quadro de hepatite aguda, no entanto, menos de 20% do pacientes com hepatite aguda pelo vírus C desenvolvem aqueles sintomas clássicos de olhos amarelos ou urina escura, sintomas que chamam a atenção do paciente e médico. A hepatite C é causada por um vírus que tem afinidade pelo fígado.

A particularidade do vírus é que cerca de 80% de pessoas que entram em contato com ele não conseguem eliminá-lo. Essas pessoas tornam-se portadoras crônicas do vírus ao contrário da hepatite B, do qual 95% das pessoas conseguem expulsar espontaneamente o vírus, na fase aguda. Uma vez contraída a infecção crônica pelo vírus C, estudos comprovam que mais ou menos 25% dessas pessoas vão evoluir para a cirrose em 20 anos de infecção.

Segundo o médico, a evolução para cirrose é o substrato. É o resultado de várias doenças no fígado. “A cirrose nada mais é do que uma progressão da fibrose, que é um tecido de cicatrização que aparece no fígado ou em outro órgão. Sendo no fígado, ela desarranja uma arquitetura do órgão e leva as complicações.”

Presidente de ONG diz que orçamento da Saúde é baixo para tratar a doença

No Brasil há 600 mil portadores de Aids e oito milhões de portadores de hepatite C. São sete vezes mais prevalência, Aids não menos grave. No entanto, no orçamento são R$ 3 bilhões para a Aids e apenas 300 milhões para a hepatite C, ou seja, sete vezes mais prevalência e dez vezes menos orçamento, lamenta o presidente da ONG “C Tem que Saber C Tem que Curar”, Francisco Martucci.

Segundo ele, isso quer dizer que um a cada três portadores de Aids tem acesso ao tratamento pelo SUS. “Na hepatite C um a cada 400. É mais fácil você passar no vestibular da Nasa e virar astronauta do que conseguir tratamento para a doença pelo SUS. É uma via crucis. Demora de dois a três anos e muitas pessoas morrem à espera de um tratamento.”

Dados da ONG mostram que só são tratados pelo SUS quatro mil portadores/ano. “A nossa organização juntamente com outras, são 64 no Brasil, oito no Estado de São Paulo e 200 no mundo, estamos lutando para reverter a situação.”

Martucci frisa que a rede particular e os planos de saúde são obrigados a cobrir o tratamento que atualmente custa em torno de R$ 30 mil. “São 48 semanas de tratamento. É caro porque os laboratórios são europeus não há tecnologia brasileira, o laboratório Fiocruz está tentando, com o apoio da Anvisa, fazer um remédio nacional. A tendência é baratear, de R$ 100 mil cair para R$ 30 mil. São 48 injeções, uma por semana. Um tratamento difícil gera fortes efeitos colaterais.”