09 de julho de 2026
Bairros

Festas reacendem caldeirão cultural

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 5 min

Os caipiras de plantão que se preparem: está dada a largada para a temporada de festas juninas. Com o anúncio do mês de junho, as tradições culturais que durante os outros 11 meses do ano ficaram guardadas no baú ganham força e modificam o clima dos bairros de Bauru.

Nesta época, o calor das fogueiras, o colorido das bandeirinhas, a animação das quadrilhas e o cheiro das comidas típicas passam a fazer parte do cotidiano dos moradores da cidade, até mesmo dos menos festeiros. Isto porque, a festa, que a princípio era realizada somente nas igrejas em comemoração aos três santos aniversariantes do mês, Antônio, João e Pedro, se estendeu também para empresas, comunidades, escolas, e contaminou todo o município.

Quem comemora são os amantes da cultura, que enxergam o mês como uma boa oportunidade para reacender o caldeirão cultural criado pela miscigenação. Um dos costumes mais tradicionais é, sem dúvida, a quadrilha, que, mesmo após três séculos de seu surgimento, permanece viva na memória popular.

Na opinião de Neusa Maria Carvalho Barbosa, professora aposentada de ginástica e dança, também conhecida como Neusinha, o segredo da popularidade da dança típica está em sua flexibilidade.

“A quadrilha é uma dança tradicional, mas que permite intervenções de quem a puxa. Claro que não podem faltar os ‘balancês’, o ‘anarriê’, as roupas características, etc. Mas também nada impede de, quando o puxador anunciar ‘olha a cobra’, por exemplo, as damas inovem, pulando no colo dos cavalheiros”, explica.

Para ela, a responsabilidade pela sobrevivência da quadrilha também está associada ao entusiasmo de seu puxador, que deve ser animado, ter dinamismo e vivacidade. “Sempre tem de existir alguém que abrace a causa e se dedique a ensaiar e manter a tradição viva. É o puxador quem tira a vergonha dos integrantes da dança”, completa Neusinha, que já comandou quadrilhas juninas na cidade e região.

Quem, nesta época do ano, segue na mesma toada de Neusinha é o sanfoneiro Décio Pedro Voltolin, 65 anos, que chega a fazer cerca de 20 apresentações no mês de junho. Na opinião dele, quando o assunto é festa junina, a sanfona é tão importante quanto a quadrilha e os quitutes.

“A sanfona dá um ‘sabor especial’ à festa, cria um clima agradável. Este é um caso que a tecnologia não consegue se equiparar ao tradicional, é totalmente diferente uma música caipira tocada ao vivo, por um sanfoneiro, e a mesma música tocada por CD”, compara.

E ao que parece a população bauruense compartilha da mesma opinião de Décio, já que, segundo ele, para conseguir um sanfoneiro para os meses de junho e julho é preciso agendar com até um ano de antecedência. “Existem poucos sanfoneiros no mercado e estes trabalham muito nesta época. Minha agenda, por exemplo, está lotada desde o ano passado”, garante.

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Catira: uma tradição que depende dos jovens

Se por um lado, em Bauru, a quadrilha está longe de ter seu fim decretado, por outro a tradicional dança catira tem seu reinado ameaçado. Isto porque, após 52 anos de atividades, o Grupo Caçula de Catira encerrou suas atividades neste ano e, portanto, não animará mais os arraiás da cidade.

De acordo com Toninho Domingues, um dos criadores do grupo, a dança tradicional de Bauru corre o risco de acabar na cidade. “Todos os integrantes do grupo já estão com bastante idade, meu irmão, por exemplo, que toca e canta comigo, já tem 80 anos, não tem mais o mesmo pique. Além disso, existem poucos jovens interessados em dar continuidade”, explica ele, que acrescenta que não é fácil aprender a dança e a toada, que une voz, viola, palmas e batida de pés.

Ao saber da notícia, os alunos do 4º ano da Escola Viver decidiram que vão fazer sua parte no resgate cultural. “Todos os anos, uma turma dança catira na festa junina da escola e, antes disso, os levamos para conhecer o Grupo Caçula. Quando contei para as crianças do fim do grupo, um dos meninos disse: ‘Mas o João pode aprender, ele toca violão! O grupo pode continuar!’”, conta Marina Canjiani Lopes, professora de dança e euritmia.

Ela acredita que as escolas têm papel fundamental no resgate cultural e que, por meio dele, é possível estimular a população a valorizar a tradição local. “Dançar catira é vivificar a história de Bauru. A princípio os alunos acham o som estranho, pedem que eu dance mais devagar para que eles possam acompanhar. Depois passam a dançar com sentimento, de uma forma menos racional. Eles adoram”, explica Marina, que aponta como fundamental a disposição de pessoas para dar continuidade ao projeto.

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Ecad fiscaliza eventos

Boa música é indispensável em qualquer festa junina. O que pouca gente sabe é que para que a tradicional festança possa ser animada por canções do famoso Mário Zan ou de Nardeli é preciso recolher a taxa de direitos autorais cobrada pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad).

De acordo com José Carlos de Souza, agente credenciado do Ecad, em 2009, 80% dos eventos realizados recolheram a taxa do Ecad, os outros 20% foram multados.

“A música tem um dono e a legislação obriga as pessoas que a usar, independente de arrecadar lucro ou não, a só o fazer se o autor estiver de acordo ou receber por isso. Então, independe se vai cobrar ingresso ou não, se elas aproveitarem uma música que não é delas, têm que retribuir”, afirma José Carlos.

Ele explica que o valor cobrado varia de acordo com o número de pessoas que participará do evento e também com a forma como a música será executada. “Se for ao vivo é um valor, se for eletrônica é outro. Para que o cálculo seja feito, a pessoa deve procurar o Ecad, que emitirá um boleto para ser pago no banco”, alerta.

• Serviço

O Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) fica na rua Rio Branco, 6-155, sala 3. Telefone (14) 3232-5027.