Certa noite, caminhando pela rua, escutei um artista anônimo com seu violão cantando: “(...) a democracia é totalitária, o capitalismo é um ébrio pavão (...)”. Por longas horas refleti acerca das frases do artista que trazem importantes questões a respeito do nosso “estar-no-mundo”, principalmente em um período de processo eleitoral e discussões sobre o voto facultativo. Pesquisa recente feita pelo Datafolha (20 e 21 maio) revelou que o voto obrigatório divide o país, pois 48% dos entrevistados são favoráveis e 48% são contrários. Esse crescimento da contestação do voto obrigatório pode nos revelar a insatisfação da população em exercer tal imposição. Vivemos no capitalismo do “ébrio pavão”, ou seja, em um capitalismo bêbado e multifacetado capaz de sofrer constantes metamorfoses e se adaptar a uma felicidade banguela. Esse capitalismo impõe a ditadura e mascara a democracia utilizando-se do seu grande filão o “voto obrigatório”. Nesse jogo de fantasias apoiamos políticos corruptos que se beneficiam do caixa 2 são “cassados” (pacto entre a imprensa e idéia de punição), se afastam por um tempo e depois voltam a se reeleger. E fazemos isso “felizes” cantando musiquetas que eles fizeram com o nosso dinheiro. Sabemos que as campanhas eleitorais são financiadas principalmente por empresários e que esses doam grandes quantidades de dinheiro para determinado candidato ou partido, mas será que esses empresários (do ébrio capitalismo) doam sem querer nada em troca? Nos encontramos divididos a respeito da necessidade do voto, no entanto, não parece ridícula a idéia da obrigatoriedade de votar em pleno regime democrático? Porque nos obrigam a votar? A quais interesses estamos atendendo? Alguns podem argumentar que a contestação da necessidade de votar pode ser fruto da pós-modernidade, mas será que temos opção de voto? Qual você prefere, Serra ou Michel Temer? Historicamente temos inúmeros casos de corrupção desencadeados durante o processo eleitoral, como o caso mensalão, Camargo Correa, etc. A necessidade de uma reforma política nesse país é gritante, não podemos mais aceitar a imposição do voto feita pelos empresários que financiam as campanhas. Nosso questionamento acerca da obrigatoriedade do voto (o voto facultativo) pode ser uma forma de protestar contra essa dinâmica das eleições que desrespeita o eleitor. Pensar o voto facultativo é tão importante quanto refletirmos acerca do capitalismo que é um ébrio pavão e da democracia autoritária como sugeriu de forma extraordinário o artista anônimo.
O autor, Ciro Monteiro, é professor de história, estudante de biblioteconomia e mestrando em Ciência da Informação da Unesp - Marília