10 de julho de 2026
Geral

Diamante vira ‘vedete’ odontológica

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 4 min

Ao invés do temido e agudo barulho do popular motorzinho, um pequeno ruído, quase imperceptível, faz muita diferença para quem morre de medo de sentar na cadeira do dentista. Mas o que parece ser um detalhe – no caso o som -, é um dos grandes aliados nos procedimentos de dentística regenerativa: as pontas de diamante.

Quase despercebidas pelo paciente e, na maioria das vezes, desacompanhadas da aplicação de anestesia, as pontas de ultrassom revestidas por diamantes foram um dos destaques da exposição montada junto à 23ª edição do Congresso Odontológico de Bauru, realizado pela Faculdade de Odontologia (FOB), da Universidade de São Paulo (USP), na última semana.

A tecnologia, que prima pela utilização de material sintético ao mineral, foi desenvolvida inicialmente por técnicos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) no início da década passada. Até 2002 as pontas de diamante eram utilizadas apenas nas tradicionais turbinas de alta rotação, o famigerado motorzinho na linguagem dos pacientes, mas a tecnologia extrapolou o campo das pesquisas espaciais para se tornar importante e eficaz instrumento em intervenções de regeneração em dentes.

Anexado a hastes de aparelhos que funcionam à base de ultrassom (método usado em odontologia desde a metade do século passado), as pontas de diamante primam pelo corte apenas de material duro, razão pelo que começam a ganhar popularidade dentro dos consultórios.

Fruto de um trabalho de pesquisa 100% nacional, o instrumento teve na FOB-USP um dos primeiros polos incentivadores ao seu uso, já que a faculdade foi uma das primeiras do País a oferecer o curso de Odontologia Ultrassônica.

“A FOB foi um dos berços da criação do equipamento, por meio do professor Eduardo (Batista Franco, chefe do departamento de dentística, endodontia e materiais dentários da faculdade)”, credita o universitário Gabriel Barbério, do quarto ano do curso de odontologia, que preside o congresso deste ano.

Pontos positivos

Segundo o professor Eduardo Batista Franco, além de silencioso, o mecanismo também tem muito menos propensão a acidentes do que o tradicional método com turbinas de alta rotação. “As pontas com vibração ultrassônica promovem o desgaste apenas no tecido duro”, conceitua o professor, ao salientar que o equipamento não corta tecido mole, como gengiva ou língua.

“Favorece muito a odontopediatria, a abordagem é mais tranquila, o que torna o atendimento mais tranquilo”, acentua Franco. “A gente faz cócegas na mão da criança antes da utilização, para tranquilizar”, completa a dentista Lilian Alarça, consultora técnica da CVDentus, fabricante do periférico.

As pontas de material sintético de diamante, enfatiza o chefe de departamento da FOB, caem como uma luva para as pequenas intervenções corretivas, como a remoção de cáries ou profilaxia, por exemplo. “O efeito é muito positivo com aquecimento mínimo do dente e em alguns casos dispensa a anestesia”, reforça o especialista

Contudo, em procedimentos mais complexos, o bom e velho motorzinho ainda é o instrumento mais adequado. “Em preparos maiores, o equipamento de alta rotação é ainda a primeira opção preparo cavitário”, pondera. “Não é uma substituição para a turbina de alta rotação”, concorda a consultora técnica da CVDentus. “É uma alternativa para o conforto do paciente”, conceitua Lilian.

Congresso

A 23ª edição do Congresso Odontológico de Bauru, realizado pela Faculdade de Odontologia (FOB), da Universidade de São Paulo (USP), reuniu em torno de 1.500 participantes, segundo organizadores, entre profissionais e comunidade acadêmica.

Além de palestras e apresentações de trabalhos, estão sendo realizados workshops nos laboratórios, onde os materiais expostos, inclusive as pontas ultrassônicas de diamante, são colocados à prova.

O evento, intitulado “Maria Fidela de Lima Navarro”, em referência a ex-diretora da faculdade, também contou com número recorde de apresentações de trabalhos científicos. Ao todo, foram 450. Um dos incentivos foi dado pela própria fabricante das pontas, que premiaria as melhores pesquisas com o periférico.

“O nível das apresentações está altíssimo, com a avaliação de professores renomados na banca examinadora”, enfatiza Camila Silveira Massaro, integrante da comissão científica do congresso.

Ultrassom

Como o próprio nome diz, a tecnologia ultrassônica se baseia, em termos leigos, à ultrapassagem da barreira do som. Com movimentação altíssima, por meio de giros que superam a casa dos 20 mil hertz (ciclos) por segundo, a vibração das pontas ultrassônicas é imperceptível ao cérebro do paciente.

Diferentemente do motorzinho, o equipamento vibra apenas na extremidade, resultando em menor impacto na caixa craniana do paciente. Apesar disso, as pontas ultrassônicas de diamante, ressalta o professor Eduardo Batista Franco não podem ter o poder de corte subestimado, já que rompem a dentina, o tecido mais rígido do corpo humano.

“Por isso que, em acidentes muito graves, os dentes ficam preservados e são usados muitas vezes para identificação”, exemplifica o professor, que é chefe do Departamento de Dentística, Endodontia e Materiais Dentários da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB).