Nos anos 50 pouquíssimas pessoas tinham em casa um aparelho de TV. Era coisa para gente mais abastada. Pobre ia mesmo com a família a um cinema. Eu ia também sozinho às matinês lá do cine Santo Antônio, na esquina da avenida Pedro Lessa com a avenida Senador Dantas, bairro do Macuco, em Santos, minha cidade natal. Foi num daqueles domingos que assisti a um filme de aventuras que se passava no coração da África colonial. Era um seriado, isto é, cada domingo havia um capítulo novo para incentivar nossa volta ao cinema, no outro fim de semana. Estava eu com tão-somente 12 anos de idade. Aquele filme era sobre aventureiros norte-americanos, em busca de marfim, num procedimento ilegal, já que o contrabando de marfim era proibido.
Descobriram os aventureiros que os elefantes se dirigiam para um local determinado, quando pressentiam que a morte estava próxima. Quem descobrisse tal local ficaria muitíssimo rico, porque haveria muito marfim a ser então obtido junto aos esqueletos de paquidermes. Eles atiram em um animal, sem matá-lo, para que este se dirija ao local do descanso final. Desta maneira os aventureiros localizaram muitos esqueletos de elefantes. Já nos meus 69 anos de idade, sinto-me como um paquiderme que pressente a morte se aproximando.
Desejo, portanto, me dirigir ao meu local de descanso final: a cidade de Santos. Foi lá que nasci, cresci e vivi até meus 18 anos de vida. Bauru tem um lugar especial em meu coração. Aqui vivi a maior parte de minha existência. Completei meus estudos universitários. Exerci cargos no serviço público estadual. Casei-me, tive filhos e netos. Não obstante, lá estão minhas raízes. Santos exerce em mim um irresistível apelo telúrico. Desejo acabar meus dias olhando o imenso mar azul, gravado na minha retina. Aspirar o oxigênio puro, exalado pelo oceano.
Tomar água de coco, sentado num banco à beira-mar, protegido pela sombra amiga de uma árvore. Pegar minha magrela e pedalar uns dez quilômetros pela ciclovia, de Santos a São Vicente, na Biquinha. Lá comer gostosos doces caseiros, na pracinha. Aí atravessar o Mar Pequeno, pela ponte pênsil, pedalar mais três quilômetros em direção à Praia Grande. Ou pegar um ônibus, sem pagar (por causa de minha idade) e ir de Santos até São Vicente, ou até Praia Grande, ou até Monguagá, ou até Peruíbe, ou até Itanhaem. Enfim, viver meu último desejo...
Gilberto Sidney Vieira