09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Bauru é caldo grosso da cultura


| Tempo de leitura: 5 min

Estávamos lá, Bruna Dias e Ricardo Santana, na companhia de milhares no irreverente show de Tom Zé, no sábado de Virada Cultural em Bauru, em 23 de maio. Desarquivamos as tantas vezes que fomos espectadores de Tom Zé. No início dos anos 90, eu, Ricardo, então estudante de jornalismo na Unesp, assisti ao meu primeiro show ao vivo do baiano de Irara. Era um dia de semana, no anfiteatro Guilhermão, com 40 estudantes universitários na plateia amplificando o aumentativo do nome de Guilherme Ferra z. O público poderia ter ladeado o cantor no palco de dimensões para orquestra filarmônica que ainda sobraria espaço para Tom Zé e violão.

Por coincidência, também em maio mas, agora, de 2000, na condição de animador cultural do Sesc, assisti ao artista em uma apresentação no projeto Quilombo Groove, uma parceria do Sesc Bauru com o Núcleo Cultural Quilombo do Interior, ONG de Bauru.

Três dias após abandonar o palco do Sesc, o cantor postou em seu blog, no UOL, desculpas pelo desrespeito com a maioria do público de milhares. No domingo de Virada Cultural, o cancelamento do show de Ná Ozzetti também mereceu reparo da espectadora Alexandra Kesan na polêmica edição de segunda-feira.

As manifestações diretas ao JC propuseram visões de quem é espectador em Bauru. Quando nós abordamos os dois fatos culturais distintos, cumprimos um ritual de recortar um fato e apresentar uma amostra do que é a realidade de um ponto de vista da linguagem jornalística. Não saímos da redação com a verdade pronta e acabada para simplesmente ratificar alguma tese. Bauru não é um quarteirão que se preste a esse tratamento. Entendemos ainda que já se vão anos do estilhaçamento do centro irradiador de tendências e, por consequência, de poder na cidade.

O público de Tom Zé na Virada é espectador acostumado à idiossincrasia do tropicalista baiano de Irara. É gente que transita na seara de qualquer linguagem artística. O observador atento ainda perceberá o encontro do artista de 73 anos com espectadores de várias gerações, inclusive as crianças apresentadas pelos pais ao universo experimentalista de Tom Zé.

Percebemos que o tropicalista deixa um rastro positivo ao dialogar com o público, que em Bauru não é indiferente. Entendemos que o artista vitaminou a discussão do que é cultura no instante em que postou em seu blog, na véspera do show, o texto “Tom Zé procura delegado da polícia federal em Bauru”. Antes do show, ele foi ao espectador concentrado no ginásio para propor muita interação e a recebeu. Há muito que o espectador de Bauru está positivamente contaminado pelo inconformismo. Faz uma leitura própria do que é cultura e saca o viés mercantilista. O espectador de Tom Zé em Bauru é inquieto como ele próprio. É limitadora a busca de entender aquele fiu-fiu, desaprovado por Tom Zé, com o olhar do passado. Interpretar com olhos do passado serve há criação de muitas explicações. No entanto não cabe para o caldo bauruense.

Nos dias que se seguiram à publicação da matéria no JC feita por nós, lemos e ouvimos manifestações sobre a Virada, numa demonstração inequívoca de que Bauru não é impermeabilizada para a cultura. Entre as manifestações, foi contundente a do professor e jornalista Cláudio Coração e do aluno de jornalismo Lauro Martins Neto, publicada na quinta-feira passada. A reflexão proposta questiona nossa apuração dos fatos ocorridos e a postura do público. Entendemos que o espectador bauruense está politizado para entender de cultura, inclusive a provocativa ironia de Tom Zé.

O espectador daqui vem sendo temperado há várias décadas em um contexto de expansão e retração cultural no País e pelas contingências adversas da própria cidade. Nas últimas três décadas, Bauru passou por uma profunda troca de referenciais. Deixou de ser cidade coalhada por repartições públicas - dos governos federal e estadual -, e ampliou seu polo educacional vertiginosamente. Passou a oferecer opções antes só encontradas em centros urbanos ao redor da Capital e nela própria. Atrai gente de todas as partes e se periferiza. O inconformismo é anônimo e vem das franjas da cidade para o centro. Em janeiro de 2004, outro show mirou os holofotes para a cena cultural bauruense.

Era a primeira apresentação dos Racionais MC’s em Bauru, na acanhada danceteria Eclectic Hall, na quadra 9 da rua Azarias Leite. Boataria falava em gangues da periferia se encontrando nas imediações da casa noturna para perturbar a noite de sábado. Realmente houve um encontro de pessoas de todas as partes no centro, contrariando as expectativas.

Se a Eclectic abrigasse 3 mil pessoas, muita gente ainda ficaria de fora. Os bares próximos e as esquinas serviram para as trocas culturais que ocorrem, também, na periferia e durante momentos da Virada Cultural. É exatamente de momentos extremos como shows de Tom Zé e Racionais MC’s que se forja o caldo grosso da cultura daqui. Capaz de em uma mesma noite juntar o rapper brasiliense Gog com o tropicalista Tom Zé, no Quilombo Groove.

Em um questionamento à opinião dos leitores Cláudio Coração e Lauro Martins Neto gostaríamos de frisar que vivenciamos pessoas que estavam culturalmente interessadas em fruir a Virada. A edição do JC do domingo trouxe um pouquinho de cada opção cultural do evento, sempre refletindo o interesse do nosso leitor. Destacou-se uma foto escolhida por mim, Bruna, que mostrava a alegria de Tom Zé no início de sua apresentação no Sesc, com legenda positiva. Na semana que antecedeu a virada houve o cuidado jornalístico com a feitura de infográficos para ressaltar toda a programação cultural. Isso foi descartado por Cláudio e Lauro na crítica publicada. Todo jornalista que trabalha, principalmente, em jornal impresso sabe que fatos inusitados atraem leitura. Prova disso é a polêmica gerada na Tribuna do Leitor nos dias seguintes. Da nossa parte não houve amplificação dos fatos e nem julgamento precipitado. O JC tem tradição como observador arguto da cultura bauruense. Tratamos simplesmente da excentricidade de Tom Zé que, reconhecidamente, é um excêntrico maravilhoso. Por isso, é de se lamentar a referência do jornalista e do estudante de jornalismo supondo que tratamos a notícia como “mito da lógica do chilique”. Nosso jornalismo não se vende, simplesmente faz uma abordagem real dos fatos cotidianos. Outro dia ouvimos a seguinte frase: “O jornalista deve ser um amante das críticas”. Elas fazem com que nosso trabalho torne-se cada vez mais superior.

Ricardo Santana e Bruna Dias