09 de julho de 2026
Pesca & Lazer

História de Pescador: A receita


| Tempo de leitura: 2 min

Algumas coisas fazem de mim um homem privilegiado. Uma delas é o gosto pela pescaria, outra é ter grandes amigos, dentre eles três em especial - não que sejam melhores que os demais, mas apenas por morarmos no mesmo condomínio, ou seria pandemônio?

O Gilson de Matos, ou simplesmente “Girsão”, que mais parece um senador, só trabalha de terça a quinta e mesmo assim via celular e Internet. É um caixeiro virtual versão moderna de caixeiro viajante. Outro é o Washington Rodrigues, que é empresário e mantenedor do grupo, e, por último, o André, esse um verdadeiro operário padrão, que seria de nós sem ele?

Mas com essa mania do André de cuidar de tudo e de todos, certo dia, na beira do rio, acabou jogando por água abaixo aquela que seria a maior cartada do ‘Girson’ em termos de culinária.

Como nossa consciência política enquanto trabalhadores anda meio em baixa, resolvemos amassar umas latinhas em pleno dia do trabalhador e lá fomos pescar em Reginópolis, na foz do rio Batalha, no chamado ‘Paradão’.

Sob a restinga que sombreia uma das margens, armamos ali um arremedo de acampamento e, enquanto tentávamos pegar nossos primeiros bagres, o ‘Girso’ foi preparando um fogareiro e tendo a seu lado uma reluzente sacola plástica, de onde sacava os ingredientes e dizia que seria a melhor receita de peixe de nossas vidas.

E começou a montar sua receita especial: em uma assadeira forrada com papel alumínio colocou uma camada de filé de merluza, uma porção generosa de vinagrete, um copo de arroz cru, mais filé de merluza, tudo isso bem regado com azeite de oliva. Cobriu com papel alumínio, botou no fogareiro e foi procurar um bom lugar para jogar o anzol até que a receita ficasse pronta, coisa de 20 minutos.

André, sempre zeloso com as coisas do grupo, percebeu que já fazia uns 10 minutos que não tinha ninguém cuidando do assado, foi dar uma olhada no fogareiro pra ver se tudo estava nos conformes. Como o cheiro estava agradável, André achou que seria conveniente mexer os ingredientes, pois poderia estar queimando por baixo e assim fez misturando tudo, cobriu novamente e voltou para vara de pesca.

Passado os 20 minutos necessários, ‘Girson’ chamou a todos nós para para abrir a assadeira e dizia todo confiante. “- Vocês vão ver que receita bonita e saborosa!”.

Sob o olhar curioso da já faminta torcida, ele rasgou o papel que cobria sua receita caprichosamente montada e se deparou com um verdadeiro mexidão de arroz com peixe.

Decepcionado, queria atirar tudo no rio dizendo-se inconformado, que aquilo só serviria para ceva.

Dado as necessidades do momento, intervimos prontamente, dizendo que estava feio, mas com certeza estaria melhor que dois ou três bagrinhos fritos.

Lázaro Carneiro é pescador e contador de histórias.