Gaza - Um novo navio humanitário determinado a furar o bloqueio marítimo imposto por Israel e atracar na costa de Gaza ganhou ontem o foco da tensão na região.
Parte original da frota que foi atacada na segunda-feira, a embarcação, que zarpara da Irlanda há três semanas, atrasou-se porque teve que atracar em Malta por causa de problemas técnicos.
Mesmo após ter nove colegas mortos no ataque militar israelense ao Mavi Marmara, os 11 ativistas, inclusive a Nobel da Paz irlandesa Mairead McGuire, 66 anos, decidiram levar a missão adiante. A previsão era a de que o navio, de bandeira cambojana, alcançasse a zona marítima vigiada por Israel hoje.
Diferentemente da primeira missão, porém, eles destacam que não reagirão à provável interceptação de Israel.
“Vamos cooperar e esperamos que eles (os israelenses) cooperem também. Nós sabemos que devemos enfrentar dificuldades. Estamos ansiosos, mas conscientes”, disse à reportagem, do navio, o ex-chefe da ONU Denis Halliday.
Os governos irlandês e israelense propuseram que o navio atracasse no posto de Ashdod, onde seria revistado, sob supervisão da ONU, antes de a carga seguir ao posto fronteiriço de Erez. Mas os ativistas recusaram.
“Não temos intenção de ir a Ashdod, que fica em Israel. Saímos para entregar a carga à população de Gaza, e é isso que queremos fazer’’, disse a Nobel da Paz McGuire.
O navio foi batizado de Rachel Corrie em homenagem à estudante americana esmagada por uma escavadeira durante um ato contra a demolição de casas por Israel em Gaza, em 2003. Nele, de acordo com o Movimento Gaza Livre, há mais de uma tonelada de suprimentos.
Ontem, em Istambul, milhares de pessoas acompanharam o funeral de Cevdet Kiliclar, um jornalista de 38 anos, que trabalhava para uma organização turco islâmico que organizou a flotilha.
Advertências
Em Israel, o premiê Benjamin Netanyahu pediu cautela em reunião de gabinete.
“Nós vamos parar esse navio e qualquer outro que tentar atingir a soberania de Israel”, afirmou o chanceler israelense, Avigdor Liberman. “Não existe a menor chance de o Rachel Corrie chegar à costa de Gaza.”
Prometendo nunca abandonar o povo palestino, o premiê turco comparou os assassinatos de palestinos por israelenses às mortes de civis turcos causadas pelo conflito com militantes separatistas curdos.
“Eles mataram bebês nos braços de suas mães como os terroristas aqui. Eles mataram crianças inocentes em suas bicicletas”, disse. Ele ainda tentou defender a legitimidade do governo do Hamas.
“O Hamas é um grupo de combatentes de resistência lutando por sua terra, eles são palestinos. Eles venceram uma eleição e agora estão nas prisões de Israel. Eu disse isso aos americanos, que não vejo o Hamas como um grupo terrorista.”
Já o vice-premiê, Bulent Arinc, deu uma declaração mais ponderada sobre o estado das relações com Israel, em uma entrevista para o canal NTV.
“Nós podemos planejar reduzir nossas relações com Israel para o mínimo”, disse Arinc. “Mas esperar que tudo envolvendo outro país pare de uma hora para a outra, dizer que riscamos você de nossa agenda, não é o hábito de nosso Estado.”
Em entrevista coletiva, Bulent Yildirim, chefe da Fundação para os Direitos Humanos e Alívio Humanitário e de Liberdades (IHH, na sigla em turco), negou que a instituição tenha ligações diretas com o Hamas ou com militantes.
Ele disse que três pessoas que tinham sido dadas como desaparecidas ontem foram localizadas já, e estão recebendo tratamento por ferimentos em Ancara. Ele disse não saber do paradeiro de um médico do sudeste asiático que disse ter sido baleado quando ajudava um soldado israelense.
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Governo turco sobe o tom das críticas
Istambul - Em hebraico, o premiê da Turquia, Recep Tayyp Erdogan, acusou ontem Israel de ter desobedecido um mandamento bíblico ao matar nove ativistas de origem turca no ataque a uma frota humanitária de segunda-feira.
“Estou falando com eles na sua língua. O sexto mandamento diz: “não matarás’. Não entendeu? Digo de novo. Digo em inglês: “thou shall not kill’. Ainda não? Então eu falo em sua própria língua. Falo em hebraico: “lo tirtzakh’”, afirmou, em discurso a correligionários. Ontem, o embaixador da Turquia em Washington, Namik Tan, disse que os laços poderão ser cortados se Israel não atender a três exigências: pedir desculpas em público, aceitar uma investigação independente e encerrar o seu bloqueio a Gaza.