Mais de 40 anos de dedicação à FOB
Degrau por degrau, até atingir o nível máximo da carreira acadêmica: José Carlos Pereira é professor titular e diretor da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da Universidade de São Paulo (USP). O menino que queria ser engenheiro ou arquiteto, apaixonou-se à primeira vista pela FOB quando visitou as instalações meio ano antes de ingressar na universidade. Estudou sozinho e há 42 anos sua vida se funde com a da faculdade.
A importância da FOB no cenário da odontologia nacional e internacional como escola modelo em graduação, pós-graduação e pesquisa científica são exaltadas com orgulho pelo atual diretor, que tem como meta a consolidação definitiva do papel importante que ela exerce na sociedade. “Junto com o Centrinho e com a área de fonoaudiológica, a FOB é referência para Bauru”.
O cultivo da amizade e os tempos de faculdade, hobbies, os dois anos em que viveu nos Estados Unidos, a carreira como professor e o contato com alunos também fazem parte desta entrevista. Acompanhe a seguir.
Jornal da Cidade - Qual é o seu olhar sobre a Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB-USP)?
José Carlos Pereira - O papel que a faculdade tem, não só no contexto da Universidade de São Paulo (USP), mas no cenário da odontologia brasileira e internacional é muito grande. É uma escola modelo no nível de graduação e de pós-graduação. Sou um admirador incondicional da escola e tenho uma paixão de longa data por ela. Ela exerce um papel na área de fonoaudiologia e odontologia que são referência para Bauru, hoje. Como diretor, minha meta é a consolidação definitiva desse papel importante que ela exerce na nossa sociedade. Oportunizar as atividades docentes dos estudantes, criar novos mecanismos do processo ensino e aprendizagem, viabilizar a participação dos docentes em eventos importantes para o contato com pesquisadores de outras partes do mundo são algumas dos caminhos pretendidos.
JC - Sempre almejou a faculdade de odontologia?
José Carlos - Ingressei na faculdade em 1968. Nem sempre tive vontade de ser dentista. Na verdade, toda minha formação básica foi feita pensando em alguma profissão da área das ciências exatas, como engenharia ou arquitetura. No último ano do científico, como era chamado naquela época, minha turma fez uma vista aos prédios recém-instalados da FOB. Foi amor à primeira.
JC - O que tanto o atraiu?
José Carlos - Foi exatamente a estrutura que encontrei aqui e os professores com os quais tomei contato naquela época. A gente percebia que eram pessoas de alta presença no meio científico da odontologia nacional, e isso me cativou profundamente.
JC - Então precisou se preparar novamente para o vestibular?
José Carlos - Sim. Precisei refazer toda minha formação, reestudar tudo porque o vestibular seria logo no ano seguinte. Isso aconteceu no meio do último ano. Estudei sozinho. Não podia mudar o conteúdo do que eu estava fazendo. Então, assim que terminei o científico, peguei o programa do vestibular e passei as férias estudando. Passei em sexto lugar, logo na primeira vez. Vim para Bauru e aluguei um quarto inesquecível.
JC - Com histórias inesquecíveis?
José Carlos - Ficava em um fundo de quintal da rua Bandeirantes, foi o que pude arranjar. Morava sozinho ali. Era uma espécie de pensão onde uma senhora alugava quartos. Morei lá por seis meses e depois disso, já integrado com os colegas da faculdade, passei a viver em uma república.
JC - Tem boas lembranças da vida em república?
José Carlos - Tenho muitas histórias com diferentes graus de censura (risos). Na verdade, sempre fui um garoto muito tranquilo e de bom humor. Nossa república era um casebre muito simples perto da prefeitura e abrigava de oito a dez garotos. As grandes aventuras do cotidiano, hoje, são engraçadas. Íamos dormir tendo uma empregada para fazer o almoço, íamos para a faculdade e quando chegávamos com fome, ela não tinha ido trabalhar, ou seja, ficávamos sem comida. Isso sempre acontecia. Tínhamos de preparar a comida, limpar e lavar. Foi uma grande aventura para quem não estava acostumado com aquilo.
JC - E as festas universitárias?
José Carlos - Nunca gostei de festas com muita gente. Claro que eu sabia aproveitar bem os meus momentos. Foram quatro anos de faculdade como aluno de graduação. Depois, nos formamos, montamos outra república e passamos a trabalhar e a fazer pós-graduação na própria universidade.
JC - Tornou-se professor logo após a formatura?
José Carlos - Sim. Na época, os recém-formados recebiam o cargo de auxiliar de ensino. Depois do mestrado, passei a ser professor assistente e com o doutorado, professor assistente doutor. Isso aconteceu de 1972, quando entrei na faculdade como docente, até 1978, quando fiz o doutorado. Entrei como aluno na FOB em 1968 e nunca mais sai daqui. São 42 anos.
JC - Durante o período, quais foram as experiências mais notáveis?
José Carlos - Tive a oportunidade de desenvolver dois medicamentos de uso odontológico (um patenteado e outro em processo), utilizados para o controle da sensibilidade dos dentes. Temos uma linha de pesquisa nessa direção e, depois de vários anos de pesquisa, chegamos aos produtos. Um é uma pareceria com um grupo de pesquisa americano e o outro é nosso mesmo. A experiência pessoal também foi uma coisa fantástica. Primeiro o convívio com os professores que já existiam aqui e que fundaram a escola com sua competência, prestígio internacional e com o compromisso de fazer dessa escola um exemplo de ensino. Tudo o que sou e o conhecimento que pude acumular foi devido ao convívio com esses professores. Em segundo lugar está o contato com os alunos.
JC - Teve bom relacionamento com os alunos?
José Carlos - O convívio com eles proporciona uma experiência de vida excepcional. Na primeira fase, lidei com pessoas um pouquinho mais novas que eu e, com o passar do tempo, cada vez mais novas do que eu. Isso me faz ter um retrospecto de participação na vida dessas pessoas, cada ano com uma experiência diferente e mais consolidada, que é de fato uma questão muito interessante. Naturalmente que com as atividades administrativas, não tenho um relacionamento muito próximo dos estudantes, mas sempre me dei muito bem com eles. Eu sempre me lembrava da minha interpretação crítica dos professores e queria me livrar desse tipo de julgamento.
JC - Acredita que se livrou?
José Carlos - Acho que me julgaram positivamente. Fui por duas vezes paraninfo, por outras tive o nome de turma e também por outras tantas fui o professor homenageado. Gosto muito da atividade administrativa que exerço como diretor desde o dia 10 de março de 2010, estava desde 2006 como vice-diretor, mas sinto falta do contato com os estudantes que emprestam a energia especial para todos nós, com sua vibração, inquietude, insegurança, vontade de aprender, falta de vontade, enfim...
JC - Chegou a trabalhar como dentista?
José Carlos - Quando me formei, montei um consultório no Centro da cidade com mais dois amigos. Trabalhei ali por uns dois anos, no máximo. Fui contratado por 40 horas pela USP com dedicação integral.
JC - Vejo que seus amigos estão sempre presentes. Preserva amizades desde a faculdade?
José Carlos - Desde a época de estudantes. No primeiro ano de formados, fizemos uma sociedade e compramos um barco com motor de popa. Pescamos juntos até hoje. Temos uma longa história de pescaria que já chegou ao Pantanal, Amazônia... onde o nosso tempo permite. A partir do momento que você tem seus amigos, você exercita a tolerância. Não se cobra postura ou defeitos. Você aceita ou não. E para sermos amigos a 40 anos, é porque toleramos uns aos outros (risos).
JC - Imagino que deve ter viajado muito em função da carreira universitária.
José Carlos - Um professor universitário só trabalha e só viaja a trabalho. Conheço muitas regiões do Brasil e do mundo porque tive muitas oportunidades pela universidade. Foram eventos científicos, congressos, visitas a centros de pesquisa... A relação com pesquisadores de diferentes partes do mundo faz parte da nossa rotina. Já estive na Europa, Ásia, América do Norte, quase toda a América Latina... Sempre por cursos, participando de seminários, simpósios, discussões científicas, acadêmicas...
JC - Como foi a experiência de morar nos Estados Unidos?
José Carlos - Terminei meu doutorado em 1978 e no mesmo ano fui fazer o pós-doutorado na Flórida. Dizia que preferia me arrepender de ter ido do que de não ter ido. Era recém-casado e ela foi junto. Minha estadia naquele país me permitiu fazer uma série de comparações e julgamentos. A diferença dos costumes, trabalho, relacionamentos, estrutura social e política é interessante. Comparando, você percebe que gostaria que muitas coisas no Brasil permanecessem como são. Somos mais francos, diretos, honestos, nossa comida é maravilhosa e o ambiente de trabalho não é tão canibal quando o que existe lá. Claro que toda a regra tem suas exceções. Por outro lado, um aspecto que causa uma certa inveja é a noção de cidadania, respeito pela coisa pública e a própria estabilidade do mercado financeiro que mesmo com as turbulências, não são abaladas tão facilmente. Eles respeitam o país que têm e cuidam dele.
JC - Então, também é um músico baterista?
José Carlos - (Risos) É algo que gosto desde menino e só pude comprar a minha bateria há uns 20 anos. Toco em casa mesmo, é um hobby apenas. Também gosto muito de gravuras, uma das formas de expressão plástica que mais me atrai. Mas faço quando tenho tempo, dou para amigos, guardo algumas...
JC - Planos?
José Carlos - Para os quatro anos é esgotar minha capacidade de me doar para esta escola. Depois disso, tenho que pensar sobre o que fazer da minha vida pessoal. Se eu não continuar na escola, possibilidade forte, quem sabe sair um pouco mais para pescar, fazer minhas gravuras, tocar minha bateria... Certamente não vou ficar de pijamas (risos).
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Perfil
Nome: José Carlos Pereira
Idade: 64 anos
Local de Nascimento: Agudos
Signo: Gêmeos
Esposa: Eloísa
Hobby: Gravura e música
Livro de cabeceira: “Sagarana”, de João Guimarães Rosa
Filme preferido: Filmes que registram a história
Estilo musical predileto: MPB, blues e jazz
Time: Corinthians
Para quem dá nota 10: A todos os professores que tiveram lucidez e competência de criar uma escola como a FOB
Para quem dá nota 0: Aos políticos que se aproveitam das instituições para ter vantagens pessoais
E-mail: jcper@usp.br