08 de julho de 2026
Geral

Vida moderna e os ‘viciados’ em celular

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 4 min

Dizer que o advento e popularização da telefonia móvel tornaram o cotidiano muito mais prático é “chover no molhado”. Basta imaginar situações como a quebra do carro numa estrada durante a noite ou ter de recorrer ao telefone público munido de cartão, comum em outros tempos. Mas a praticidade proporcionada pelos aparelhos, que hoje até “falam”, em meio às incontáveis funções também tem seu lado preocupante.

Exemplo é a necessidade que algumas pessoas sentem em contar imediatamente algo, mesmo que seja um assunto trivial, a parentes e amigos por meio do celular. Essa situação, que não existia antes da popularização da telefonia móvel, é reflexo de outra categoria de dependentes: a de viciados em celular.

Torpedos a todo momento e ligações até mesmo sem assunto oneram o tempo e dinheiro de usuários. As operadoras, de certa forma, incentivam o comportamento por meio da proliferação de ofertas de aparelhos e chips, com promoções atrás de promoções, além de lotar as cidades de antenas, garantindo a recepção do sinal até “debaixo d’água”.

A facilidade em comprar um aparelho - alguns são fornecidos até de graça pelas operadoras, dependendo do pacote adquirido pelo cliente - banaliza a importância do telefone. Tanto que alguns usuários não se contentam em ter um e partem para dois ou três celulares.

Tem gente que precisa de mais. “Por falta de um, tenho três e agora vou comprar o meu quarto chip”, planeja a recuperadora de crédito Ângela Carvalho de Araújo, de 27 anos.

Cliente de três operadoras diferentes e caminhando para se cadastrar na quarta, ela diz não conseguir imaginar o mundo sem os seus aparelhos celulares e justifica a variedade de números adquiridos. “Comecei com uma operadora, mas tenho uma amiga que é de outra”, alega a jovem, que vai adquirir um novo chip para falar mais com a mãe, usuária de outra operadora.

Ângela afirma que a dependência pelo celular é tanta que sair de casa sem o telefone torna-se um martírio. “Uma vez fui trabalhar e esqueci de levar. Quase tive um treco”, lembra. “Sou muito curiosa também”, acrescenta, dizendo que, para não onerar tanto as economias, busca as promoções de forma incessante.

“Vivo de bônus, assim não fica tão caro”, diz a jovem consumidora, que dedica R$ 100,00 mensais ao inseparável celular. “Às vezes o vício é tanto que quando não tem ligações ou mensagens, fico apertando o aparelho só para ver se aparece algo”, reconhece. “Não imagino minha vida sem o celular”, afirma.

No bolso

Em boa parte dos casos, manter o celular é muito dispendioso, principalmente para aqueles que não dependem tanto do aparelho. Profissionais que usam o telefone móvel estritamente para contatos de trabalho não têm dor de cabeça na hora de comprar créditos ou pagar a fatura, no caso dos planos pós-pagos, observa o economista Fernando Pinho.

“É diferente daqueles que precisam de celular para entrar com contato com clientes. A pessoa que não precisa do celular para trabalhar paga mais”, aponta. “Em alguns casos, gastam mais do que ganham”, acentua.

“Nos últimos anos, me parece que as pessoas perderam a noção sobre o uso racional”, opina o economista, atribuindo também a voracidade das ações de marketing das operadoras como incentivo à “teledependência”.

“Vira um objeto de desejo. As pessoas usam sem realmente precisar. É como diz a propaganda: ‘Tá barato pra caramba’”, alude o economista, citando um comercial da área de telefonia atualmente no ar.

____________________

Uso em demasia é considerado vício

O termo vício logo remete a atividades ilícitas ou socialmente reprováveis, como o uso de drogas ou em jogos de azar. Mas a necessidade incontrolável em fazer algo que extrapola os limites da ilegalidade ou imoralidade também influi em conduta viciosa.

E com os celulares não é diferente, atesta a psicóloga Olga Aparecida Paulo. “Na realidade, é um mecanismo para substituir as coisas. Hoje o celular é o substituto do lençolzinho que a criança carrega para todos os lados”, exemplifica. “No futuro será outra coisa”, projeta. “Tem mulher que não anda sem o aparelho na bolsa. Os sentimentos são transferidos para o objeto”, explica.

A necessidade de carregar o celular para lá e para cá, na avaliação da psicóloga, é atribuída também como forma de atenuar a sensação de ansiedade, outra bagagem na esteira do mundo moderno.

“A ansiedade é a doença do século”, classifica Olga, advertindo que, assim como em outras dependências, não é o indivíduo compulsivo que admite o problema. “Quem percebe é quem está próximo, que também sofre os prejuízos”, acrescenta a psicóloga, citando como sequela do vício o isolamento social. “A pessoa deixa de dar atenção aos outros, inclusive familiares”, completa.

____________________

Internação

É muito difícil presenciar caso dessa natureza, mas já houve quem fosse internado por não conseguir ficar sem usar o celular. Em 2008, na Espanha, a dependência pelo uso do aparelho fez com que dois adolescentes, de 12 e 13 anos, fossem parar numa clínica psiquiátrica.

De acordo com os pais dos jovens, em entrevista à BBC, eles não conseguiam realizar simples atividades diárias sem o celular, iam mal na escola e até mentiam para obter dinheiro para gastar com créditos. Internados por intermédio dos próprios pais, conforme jornais espanhóis, eles permaneceriam sob tratamento mínimo de um ano, até se livrarem da dependência do aparelho.