09 de julho de 2026
Geral

Com cidade parada, trabalhador ‘se vira’ para assistir à Copa

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

Estreia da Seleção na Copa do Mundo da África do Sul, comércio fechado, País praticamente parado esperando o pontapé inicial. Para a maioria da população, a tarde de ontem foi reservada para torcer. Para outros, porém, o dia foi sinônimo de trabalho e foi preciso encontrar um “jeitinho” para ver o Brasil em campo contra a Coreia do Norte.

Em plena terça-feira, as principais vias da cidade, como as avenidas Nações Unidas, Rodrigues Alves e Duque de Caxias, ficaram desertas a partir das 15h30. Mas, apesar da comoção em torno do primeiro jogo no Mundial, que resultou em vitória brasileira, inúmeros serviços não puderam ser interrompidos. Motoristas de ônibus, seguranças, enfermeiros, policiais e prestadores de serviços foram alguns dos profissionais que só acompanharam lances da partida através de TVs improvisadas ou pelo rádio, entre uma brecha e outra no trabalho.

O supervisor de segurança Antônio Carlos Cruz, por exemplo, assistiu apenas a alguns trechos do jogo em televisores instalados dentro do Bauru Shopping, onde trabalha. Ele conta que, por conta do serviço, não vê uma partida completa do Brasil desde a Copa de 1994 e, neste ano, a rotina não poderia ser diferente.

“De vez em quando a gente procura uma TV e dá uma olhada. Mas época de Copa é considerada crítica para a segurança, porque a criminalidade costuma aproveitar esse momento de relaxamento. Então, na maior parte do tempo, temos que ficar atentos”, destaca.

Quando a Seleção faz gol, segundo Cruz, a comemoração tem de ser contida e, na maioria das vezes, solitária, já que o shopping fica fechado em dia de jogo. “Ficaria esquisito sair vibrando pelos corredores, né? Mas já fui mais afoito. Hoje, já estou acostumado e mais tranquilo por não assistir aos jogos”, comenta.

Outro torcedor que precisou se controlar nos lances mais emocionantes foi o motorista de ônibus Edson Del Pupo. Enquanto ainda transcorria o primeiro tempo da partida, ele embarcava alguns poucos passageiros que seguiriam rumo à Vila Lemos, em Bauru. Com um radinho ligado ao seu lado, ele conta que não poder acompanhar todos os jogos faz parte da profissão que escolheu, mas revela que ainda tem esperanças de poder assistir às próximas partidas da Seleção.

“Sou motorista há 19 anos e esta não é a primeira Copa que passo em serviço. Mas, assim como tem colegas meus que não estão trabalhando hoje (ontem), estou torcendo para não estar na escala em pelo menos um dos dois próximos jogos desta fase”, comenta.

Movimento fraco

Para aqueles que trabalham na área de saúde, a dificuldade para assistir ao confronto entre Brasil e Coréia do Norte foi a mesma. Embora o número de pacientes que procuraram o Pronto-Socorro Central durante a partida tenha sido mínimo, o enfermeiro Benedito da Silva explica que não há como abandonar o serviço para torcer pela Seleção.

“No início do jogo, por exemplo, chegaram dois pacientes acidentados. Não era muito grave, mas a gente tem de prestar assistência. Claro que, às vezes, dá para dar uma olhada no jogo, mas não dá para ficar ligado o tempo todo, como quem está em casa, sossegado”, observa.

Ao contrário de Silva, os funcionários do Poupatempo puderam torcer tranquilamente pela Seleção. Ontem, durante a partida, nenhuma pessoa procurou os serviços do posto, que funcionou em horário habitual.

“Como já esperávamos uma redução do movimento, dividimos nossa equipe em dois grupos. Um pôde assistir ao jogo em uma área reservada montada para a Copa, com telão, e o outro ficou a postos, caso houvesse demanda de atendimento”, revela a administradora do Poupatempo, Nádia Bicarato.

Mas, devido ao movimento fraco, os 140 funcionários escalados para o trabalho também tiveram tempo de sobra para aproveitar cada minuto da partida. Eles ficaram ‘de olhos grudados’ na TV que o Poupatempo instalou, logo na entrada, para que os usuários também pudessem acompanhar o campeonato.

Em uma empresa de cobrança, os funcionários também tiveram folga de duas horas para ver o confronto pela televisão. Contratada pelo estabelecimento para servir pipoca aos empregados, a autônoma Maria Inês Faneco, no entanto, não conseguiu assistir a um lance sequer.

“Não vi nesse e não vou ver nos próximos dois jogos também, porque já tenho compromisso agendado com outras empresas que querem fazer esse agrado para os funcionários. Mas não tem problema. O importante é ganhar dinheiro para pagar as contas. O jogo a gente vê amanhã, no replay”, conclui.