Para quem gosta de teatro, dois grandes espetáculos serão encenados, gratuitamente, neste final de semana em Bauru. Em defesa do direito à tristeza, Mika Lins sobe ao palco do Serviço Social do Comércio (Sesc) hoje à noite, em monólogo “Memórias do Subsolo”. A peça é uma livre adaptação da obra homônima de Fiódor Dostoievsky, autor ainda dos clássicos “Crime e Castigo” e “Irmãos Karamazov”. Amanhã, a unidade recebe ainda a peça “Till, a Saga de um Herói Torto”, com o Grupo Galpão, um dos mais importantes coletivos de teatro do Brasil. Ambas as apresentações estão marcadas para as 20h.
Confinado num subsolo ordinário, sem identificação espaço-temporal, um sujeito vil despeja sua bile contra as convicções inabaláveis dos “homens de ação”, aqueles que escrutinam enciclopédias, manuais e bulas em busca de respostas, soluções e curas para toda dúvida e todo mal. Mika é esse homem, um funcionário público capaz de olhar para dentro de si mesmo e enxergar a sua ignomínia. “Por que a gente precisa se entupir de remédios a cada velório? Nada contra, mas parece que a gente não suporta mais o instável, o difícil”, provoca a atriz. “O personagem defende o direito à tristeza, a ficar quatro dias trancado em casa, “bodeado” numa cama. Gosto desse elogio ao lado feio da vida. Se a gente perder a sombra, não terá luz”, completa.
De acordo com material de divulgação, “Memórias do Subsolo” (1864), a novela que anuncia o Dostoievski (1821-1881) de “Crime e Castigo” (1866) e “Irmãos Karamazov” (1880), é um compêndio dos ataques desse homem ao racionalismo, e o monólogo homônimo amplifica essa crítica. Com adaptação de Mika e Ana Saggese e direção de Cassio Brasil, a peça ganha ainda uma ambientação cenográfica despojada que pode ser descrita como uma diagonal feita de luz, com público em ambos os lados. “É como se fosse uma fresta de porta aberta para deixar ver um pouco de um homem angustiado”, diz ela.
Sóbria, a encenação opta também pela economia de gestos. “Se não tomamos cuidado, todo teatro fica vaudevillesco, com movimentos e ações para entreter o público”, justifica o diretor. Também dispensa a música, segundo Mika, “para evitar que ela ilustre o texto”. O subsolo é austero e silencioso.
Grupo Galpão
Em retomada de suas origens no teatro de rua, o Grupo Galpão apresenta “Till, a Saga do Herói Torto”, que narra a história do Demônio que aposta com Deus que se tirasse do homem algumas qualidades, ele cairia em perdição. Deus, aceitando o desafio, resolve trazer ao mundo a alma de Till. Vivendo em uma Alemanha miserável, povoada de personagens grotescos e espertalhões, logo de início o protagonista é abandonado em meio ao frio e a fome e descobre que a única maneira de sobreviver naquele lugar é se tornar ainda mais esperto e enganador. Assim começa sua saga cheia de presepadas e velhacarias.
Para o Grupo, a rua é um espaço importante para a democratização da arte e do teatro. “Ela nos traz desafios de como apresentar o espetáculo para um público amplo e sem restrições de idade, classe social ou formação intelectual. Isso tem reflexos em todos os elementos de criação, como a dramaturgia, a cenografia, os figurinos e a música”, afirma o integrante Eduardo Moreira.
“Till” já recebeu cinco premiações: duas de melhor espetáculo, duas de melhor atriz e uma de melhor figurino. Estima-se que mais de 100 mil pessoas já assistiram a peça, que percorreu 24 cidades em 2009. Também amanhã, às 15h, será exibido um documentário sobre a história do grupo. No mesmo dia, às 15h, no Auditório, haverá exibição do documentário “A história de um dos mais importantes grupos de teatro” com o Grupo Galpão.
• Serviço
Espetáculo “Memórias do Subsolo” hoje e “Till, a Saga de um Herói Torto” amanhã, ambos às 20h, no Sesc (avenida Aureliano Cardia, 6-71).
Os ingressos serão distribuídos gratuitamente com uma hora de antecedência. Mais informações pelo telefone (14) 3235-1750.