09 de julho de 2026
Polícia

Polícia trabalha com duas hipóteses para os 2 crimes

Por Alexandre Padilha | Com Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 6 min

O caso que surpreendeu e abalou os bauruenses no começo da tarde de ontem, envolvendo a morte de dois conhecidos comerciantes e a tentativa de suicídio do indivíduo que efetuou os disparos, teve uma conclusão, mas permaneceu com algumas perguntas sem resposta.

Apesar de o agente penitenciário Alexandre Zambonaro Gonçalves, 36 anos, ter sido preso em flagrante pelo homicídio de Maurício Yamanoi, 41 anos, e José de Nazaré Mendes, 72 anos, as motivações que levaram o indiciado a atirar cinco vezes contra os homens ainda não foram esclarecidas pelas polícias Civil e Militar.

Conforme o JC apurou em contatos feitos ao redor da cena do crime, os canais de investigação sobre os motivos que levaram Alexandre a efetuar os disparos devem abranger duas vertentes, ambas hipóteses relacionadas a discussões movidas por desinteligência (briga).

Durante conversa com populares, foi constatado que uma das possibilidades que poderiam ter gerado o conflito seria uma irregularidade relacionada à conta que o agente penitenciário possuía no bar. Segundo testemunhas, existe a hipótese da suspeita do homicida de que Maurício estaria cobrando mais cervejas do que ele havia consumido teria induzido o agente penitenciário a cometer o crime.

Entretanto, outra linha de investigação apurada pela reportagem do JC indica que esta “dívida de bar” seria um pouco mais valiosa que algumas cervejas. De acordo com informações, Maurício atuava como agiota, além de possuir o bar. Com isso, indícios levantados apontam que o desentendimento entre as parte poderia ter se iniciado a partir da falta de pagamento de uma dívida mais elevada.

Segundo testemunhas, o proprietário do estabelecimento costumava emprestar dinheiro a pessoas, montante que era cobrado com juros, posteriormente. Depois de ter angariado certa quantia com Maurício, Alexandre teria se demonstrado insatisfeito com as cobranças e planejando colocar um fim na história com o crime de ontem.

Os fatos apurados levam à conclusão de que José de Nazaré não possuía qualquer envolvimento com a discussão, sendo alvejado por acidente ou como forma de eliminar qualquer testemunha.

Outra vertente apontada por algumas pessoas ouvidas pela reportagem do JC que vai ser explorada na investigação evidencia que o crime pode ter contado com certa dose de premeditação por parte de Alexandre. Testemunhas disseram ter visto o homem passando com sua motocicleta no mínimo três vezes em frente ao bar antes de entrar para efetuar os disparos.

Além disso, o agente penitenciário acordou na manhã de ontem, pegou sua moto e foi até a Penitenciária 1 de Bauru, onde trabalha. Lá, Alexandre teria arrombado o armário de um companheiro de serviço e subtraído o revólver calibre 38 que foi utilizado no crime.

Logo em seguida, o agente penitenciário teria abandonado o serviço e se dirigido ao bar localizado no bairro Higienópolis. Depois de aguardar até Maurício abrir as portas do estabelecimento, Alexandre teria entrado no local, discutido com ele e disparado os cinco tiros que mataram o dono do estabelecimento e o cliente José de Nazaré.

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Testemunhas

De acordo com testemunhas que presenciaram conversas entre Alexandre Zambonaro Gonçalves e demais pessoas no ambiente do estabelecimento, ele costumava ir a outros bares antes de começar a frequentar o de Maurício Yamanoi, mas decidiu mudar o itinerário porque este último oferecia diversas mesas de bilhar.

Segundo informações, o assassino já havia discutido algumas vezes com o dono do bar por alguns conflitos de opiniões, mas nenhuma briga mais séria tinha sido registrada até então.

Disseram ainda que Alexandre chegava ao bar, pedia sempre uma cerveja e procurava algum parceiro para jogar bilhar. Na tarde de ontem, assim que Maurício ergueu as portas do estabelecimento para iniciar mais um dia de trabalho, Alexandre entrou no estabelecimento e se dirigiu ao proprietário.

Uma informação dá conta de que houve uma rápida discussão entre Alexandre e Maurício antes dos disparos e José de Nazaré estava bem ao lado, junto ao balcão.

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Mãe diz que homicida tinha transtorno

O autor dos disparos que tiraram a vida dos comerciantes Maurício Yamanoi, 41 anos, e José de Nazaré Mendes, 72 anos, sofria de transtorno bipolar e depressão, segundo informou sua mãe, Dalva Marisa Zambonaro, 68 anos. Ainda que a real motivação para o crime precise ser investigada, ela acha possível que os problemas psiquiátricos do agente penitenciário Alexandre Zambonaro Gonçalves, 36 anos, tenham interferido em sua decisão de assassinar as duas vítimas.

Segundo familiares e amigos, Gonçalves tinha em seu armário dezenas de medicamentos controlados receitados por seus médicos, mas resistia a aceitar o tratamento por orgulho e vergonha de se reconhecer doente – e também por não abrir mão de consumir cerveja nos finais de semana. Mesmo assim, tomava os comprimidos “ou os jogava fora”, conforme acredita Dalva.

“Ele só tomava se alguém estivesse controlando. Eu falava que ele precisava se cuidar, mas ele não aceitava conversar sobre isso”, revela. Dalva conta que o primeiro diagnóstico de depressão do filho veio aos 18 anos, associado a um quadro de síndrome do pânico.

O quadro teria evoluído para o transtorno bipolar ao longo dos últimos 12 anos, quando ele passou a trabalhar como agente penitenciário na Penitenciária 1 de Bauru. “É um ambiente muito estressante e hostil. Não era um lugar apropriado para uma pessoa como ele trabalhar”, considera.

Desde então, segundo a mãe, foram pelo menos quatro crises profundas, sendo a última ocorrida há cerca de três meses. “Ele já tinha melhorado, mas ainda não estava bem e não aceitava que não tinha condições de ir trabalhar. Ele sempre foi uma pessoa tranquila, um bom filho, preocupado comigo, mas, quando entra em crise, se fecha e fica irritado quando falamos da doença”, revela.

Apesar dos altos e baixos no comportamento do agente, Dalva conta que ele nunca foi agressivo. Na manhã de ontem, inclusive, ele teria se mostrado cuidadoso com a saúde da mãe, que tossia antes de ele sair de casa. “Eu nem tinha acordado ele, porque achava melhor que ele ficasse em casa. Mas ele acordou, perguntou o que eu tinha e saiu por volta das 7h da manhã”, relembra.

Depois disso, de acordo com ela, Gonçalves saiu com sua moto dizendo que ia para o trabalho. Quando retornou, depois das 14h, teria entrado rapidamente dentro de casa e saído sem que Dalva o visse. “Eu ouvi um barulho na garagem, achei que era o portão batendo, mas o Alexandre não entrava. Esperei e quando fui ver, que cena, meu Pai, ele daquele jeito. Que dor na alma, que dor. Caiu o mundo na minha cabeça. É um pesadelo”, conta. A mãe foi a primeira a ver o filho caído na garagem de casa, depois que a corda com que tentou se enforcar acabou por se romper. Ela retirou a amarração do pescoço do filho e chamou por socorro, mas mal podia imaginar que aquela tragédia pessoal se estendia a mais duas famílias de Bauru. “Eu não conheço essas pessoas, não sei a relação que meu filho tem com elas. Não tenho palavras para explicar tudo isso e só Deus vai poder nos mostrar o que aconteceu. Espero que essas famílias tenham o conforto de Deus e que Ele perdoe o meu filho”, lamenta.

Membro de uma família de classe média, Gonçalves é irmão do professor de jiu-jitsu Renato Zambonaro, 30 anos, que vive nos Estados Unidos. Desde os 14 anos, foi criado apenas pela mãe, que foi abandonada pelo marido e trabalhou por 40 anos no comércio bauruense para sustentar os dois filhos. Por vizinhos, ele é descrito como uma pessoa simples e simpática. Com vocação para a escrita, enviou cartas à Tribuna do Leitor do JC entre 2001 e 2007. Abalados com a tragédia, familiares das duas vítimas afirmaram não ter condiçoes de conceder entrevista.