08 de julho de 2026
Geral

Internação testa ação e nervos de pais

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 4 min

Quando um filho adoece, não importa o tempo despendido em busca de tratamentos e tampouco a distância a se percorrer. Com o único pensamento de cura, muitos pais dedicam horas, dias ou meses a fio em enfermarias ou na agonia das salas de espera durante cirurgias. O objetivo: estar sempre ao lado do filho adoentado.

A angústia aumenta quando o tratamento ou cirurgia necessária ocorre em centros médicos longe da casa da criança, demandando longas viagens. Contudo, a distância é o de menos quando o que está em jogo é a saúde.

É dessa forma que Ivanildo Ferreira da Silva e Cristina Maria Mateus Ferreira da Silva, respectivamente com 62 e 57 anos, vindos de João Pessoa (PB), encararam a missão de estar em Bauru para acompanhar a operação da filha adotiva Daniela, realizada no último dia 11 de junho no Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais, o Centrinho, da Universidade de São Paulo (USP).

Atualmente com 19 anos, Daniela passa por tratamentos e cirurgias de uma grave deformação na face desde os 8 anos, quando foi adotada pelo casal, que a amparou sensibilizado com o problema dela, que, devido à deformação, não enxerga.

“Vimos a mãe biológica dela pedindo ajuda na TV, mas ela pedia auxílio financeiro. A criança precisava de amor, ela é nosso ‘bebezão’”, orgulha-se dona Cristina. “Hoje estamos felizes e confiantes. Ela já evoluiu de maneira assombrosa”, comemora ‘seo’ Ivanildo, acompanhando a atividade de outros pais no serviço de recreação do Centrinho, onde familiares de pacientes realizam diversas atividades, entre elas o artesanato, como forma de relaxamento e socialização.

Com o mesmo otimismo, a pedagoga Domingas Santos, 44, veio do Maranhão, acompanhar a quinta cirurgia do sobrinho Leone, de 17 anos, que entra e sai de hospitais desde os 8 anos.

“A mãe dele tem outros filhos menores, nem tem como acompanhar sempre”, diz a dedicada tia, ao lado da conterrânea Maria de Lourdes, 34, que deixou o Nordeste para acompanhar a primeira internação do pequeno Filipe, de 5 meses.

“É um momento muito complicado, ele está na cirurgia. Estou na expectativa, mas confiante”, afirma a mãe, em poucas palavras, sem disfarçar a tensão.

Brinquedos

Da mesma forma como em longas viagens, levar o brinquedo predileto da criança ao hospital ajuda na ambientação, já que remete ao lar da menina ou menino acamado. “Cartas e bilhetes dos amiguinhos, irmãos, telefonemas, sempre que autorizados pelo médico, e rápidas visitas também ajudam”, exemplifica a psicopedagoga Maria Irene Maluf. “Também vale deixar que escreva um diário sobre seus dias no hospital”, sugere a psicopedagoga.

Outra forma de amenizar a ansiedade do pequeno paciente é familiarizá-lo com alguns instrumentos médicos e até mesmo utilizá-los em algumas brincadeiras, recomendam especialistas.

“O contato com as peças faz com que elas não se assustem e aceitem melhor a situação”, receita a gerente de enfermagem Ediana Preisler Melchiads, do Hospital da Unimed em Bauru. A unidade hospitalar, além de manter uma brinquedoteca, também pretende implantar o “cantinho da criança” em seu setor de Pronto-Atendimento.

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Hospitais entram em cena com

projetos para reduzir ansiedade

É justamente nos momentos de angústia que projetos mantidos pelos hospitais chegam para, ao menos, amenizar a ansiedade dos familiares. No Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais, o Centrinho, além dos pais, os pacientes também participam de atividades recreativas.

“Não é porque está internada que a criança será privada de brincar”, determina a terapeuta ocupacional da instituição, Márcia Cristina Almendros Fernandes Morais.

O hospital também mantém o Projeto Gestante, em que mães diagnosticam antecipadamente eventuais síndromes. “Sabendo que o bebê terá fissura, trabalhamos a questão da aceitação”, frisa a diretora técnica do serviço de enfermagem do hospital, Cassiana Mendes Bertoncello Fontes.

O resgate da auto-estima de pais e pacientes é outro fator incentivado, enfatiza a assistente social da instituição, Regina Célia Arruda de Almeida Prado Valentim, coordenadora do grupo Bem Estar, que prima pelo convívio social entre familiares dos atendidos. “Além da socialização, promovemos trocas de conhecimento entre profissionais de diferentes áreas para deixar os pais, que estão na expectativa, melhor informados”, salienta.

Já o Hospital Estadual de Bauru (HEB) mantém uma casa de apoio para abrigar acompanhantes que vêm de longe. “É um local onde mães ou outros responsáveis de quem está na UTI e unidade de queimados, ficam, em respeito até mesmo ao Estatuto da Criança e Adolescente. Além disso, os pais são informados o tempo todo sobre o estado do filho”, completa Maria Alice Ferraz Troijo, psicóloga do HEB.