08 de julho de 2026
Geral

Regras determinam sucesso de exames

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 5 min

Quem já não precisou se submeter a um jejum de algumas horas para fazer exame de sangue? Fácil e corriqueiro para uns, ele representa tormento para outros. Em média, 10% das pessoas que recebem um pedido de exame médico não cumprem os preparos necessários para sua realização. A indolência, porém, pode ter uma explicação. Poucos conhecem os ‘bastidores’ das exigências.

Ao saber das razões técnicas que embasam orientações típicas de folhetos como ‘procedimentos para coleta de urina’, o paciente tem mais chance de respeitar as regras previamente estabelecidas. Atualmente, em alguns casos, ele é a peça fundamental para que o resultado do exame seja fidedigno a seu estado de saúde.

“Sabemos que cerca de 90% dos exames laboratoriais pode apresentar algum problema no seu resultado decorrente da coleta, chamada de fase pré-analítica. Com toda a tecnologia de automação que temos hoje, com a informatização dos processos de análise, com o controle de qualidade interno, essa fase é o nosso ponto crítico”, admite Adriana Feltrin, farmacêutica bioquímica e supervisora do laboratório de análises clínicas do Hospital Estadual de Bauru (HEB).

Se a participação do paciente tornou-se tão relevante para o resultado de alguns tipos de exames, ele deve ter acesso a todas as informações necessárias para que possa compreender as privações pela qual eventualmente vai passar.

Por qual razão uma mísera bolacha de água e sal não pode ser consumida momentos antes de um exame de colesterol? Simples, a resposta esbarra até numa questão comportamental: como a alimentação entre as pessoas é diferente, os parâmetros utilizados levam em conta o estado de privação de alimentos. A restrição é capaz de ‘igualar’ a todos porque os coloca numa mesma situação.

E os que ‘suam frio’ com a bexiga cheia nas antessalas de consultórios especializados em exames de imagem são conscientes das razões que os colocam numa situação tão constrangedora? Mais uma vez, é possível encontrar no vocabulário palavras nada complicadas que possam justificar o incômodo.

É que, dependendo do exame, o órgão precisa estar repleto de líquido para afastar o intestino e, assim, permitir ao médico a visualização de órgãos situados atrás dele, como próstata, ovário e útero, por exemplo.

Medidas

Difícil de entender? E de explicar? Então por qual razão as justificativas normalmente deixam de ser apresentadas? Certamente, cabe aos profissionais de saúde dispensar um pouco mais de tempo com o paciente para que ele entenda cada situação e colabore com a realização do exame.

Outras medidas também podem ser adotadas. “Temos a ideia de disponibilizar uma pequena cartilha, numa linguagem fácil, didática, para passar aos usuários desses serviços”, comenta Adriana Feltrin. O Hospital Estadual já conta com um grupo específico de profissionais para explicar ao paciente como deve ser feito o preparo para cada tipo de exame, que exige procedimentos anteriores.

Assim como em outras instituições, como a Associação Hospitalar de Bauru (AHB), o HEB disponibiliza folhetos com o passo a passo. Mas, de modo geral, resta ainda jogar luz nos ‘bastidores’ de cada procedimento para minimizar eventuais resistências.

A medida seria capaz de quebrar barreiras, na opinião dos pacientes do HE Nelson Padilha e Jandira Barbosa dos Santos. “Ficamos mais reconfortados quando as explicações são maiores”, diz ele.

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Teste do pezinho é a primeira experiência

O Teste do Pezinho, normalmente, inaugura a sucessão de exames de sangue a que o indivíduo será submetido ao longo da vida. Mas por qual razão cabe ao pé dar a largada? Porque a triagem neonatal (nome oficial do exame) depende de uma pequena quantidade de sangue e apenas o furinho é capaz de proporcionar material suficiente.

“A maioria dos testes hoje é feita nos postos de saúde e nem todos postos têm pessoas preparadas para fazer a coleta num bebezinho de 4 dias. Perfurar uma veia no braço é um procedimento invasivo, mais agressivo do que aquele pequeno furo no pé”, explica Karla Panice Pedro, bioquímica responsável pelo laboratório da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), que realiza o exame.

De acordo com ela, por diferir dos exames de sangue tradicionais, em que a veia geralmente é o alvo, a família também encara o Teste do Pezinho de modo diferente. E como tornou-se cultural, recebe atenção especial. Esse é justamente o objetivo. Caso aponte alguma alteração, a coleta deve ser repetida e, em caso de confirmação do problema no resultado, o tratamento deve ser imediatamente iniciado.

“O bebê que faz o primeiro exame com 20 dias começa a tratar com 2 meses. A gente já pode dizer que ele poderá ter alguma alteração em seu desenvolvimento. Por isso é importante a precocidade da coleta”, acrescenta Karla.

Ela explica, no entanto, que o sangue não deve ser colhido imediatamente após o nascimento. “O ideal é do terceiro ao sétimo dia. A fenilcetonúria é um exame que precisa aguardar três dias porque depende da criança ter mamado uma quantidade boa de leite. Se um bebê fizer o exame com menos de 48 horas, o resultado pode dar normal porque ele não mamou o suficiente”, informa a bioquímica.

Segundo Karla, se o teste for feito até o sétimo dia e indicar algum problema, até fazer outra coleta e confirmar o resultado, a criança pode ser submetida ao tratamento ainda com 20 dias de vida. Quanto antes a criança for assistida, mais chance terá de ter uma vida normal, sem comprometimento intelectual.

A triagem neonatal é disponibilizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Trata-se de um direito de todo recém-nascido, conforme preconiza o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) desde 1990. Ela identifica doenças decorrentes de herança genética.