09 de julho de 2026
Geral

Homem resiste mais a ir ao consultório

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 6 min

O Ministério da Saúde não lançou por acaso a Política Nacional de Saúde do Homem. A campanha tem por objetivo facilitar e ampliar o acesso da população masculina aos serviços de saúde, porque eles ainda hoje resistem à assistência médica. No caso da realização de exames, muitos se mostram negligentes aos preparos.

“Historicamente, o homem se mantém um tanto quanto mais afastado da medicina do que a mulher, porque tem uma imagem e uma representação do corpo diferente dela. Se autorrepresenta como mais vigoroso, mais resistente às enfermidades”, explica o antropólogo Cláudio Bertolli, especialista em saúde e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.

Bertolli cita vários casos de pacientes que desdenham das exigências dos exames. Comem e fumam mesmo quando não podem. “Alguns não respeitam de maneira integral e se ressentem em aceitar certas regras e certos exames, como o de próstata, por exemplo, por acreditarem ser mais resistentes”, diz.

“O homem acredita que, se tiver uma disfunção, o próprio corpo vai superar. Por assumirem esse corpo incólume, quando realmente percebem que seu corpo não é tão vigoroso como pensavam culturalmente, se chocam muito mais”, diz o estudioso.

Nelson Moreno, médico imaginologista da Associação Hospital de Bauru (AHB), conhece bem a dificuldade, tanto que chegou a fazer programas de televisão específicos para esse público. “Os homens dão mais trabalho. Como não estão acostumados, são extremamente ansiosos, rebeldes, não se adaptam. Já a mulher está acostumada. Na primeira menstruação já costuma frequentar consultórios”, diz.

Consideradas ‘enfermeiras do lar’, as mulheres também são oriundas de um passado de submissão. “Muitos pacientes do sexo masculino, inclusive, vêm acompanhados da mulher”, comenta a hematologista Soraya Farid Hassan, médica responsável pelo laboratório da AHB.

E, mesmo acompanhados, a pressão cai e passam mal, acrescenta Sônia Amaral, técnica de laboratório do Hospital Estadual de Bauru (HEB). Esse comportamento masculino aflige Eurides Menezes dos Santos. Ela acredita que o filho tenha diabetes, mas ele não quer nem ouvir falar em médico. Já ela se sujeita as todas as exigências impostas pelo profissional de saúde. “Sou pau mandado”, brinca.

Helena Divina de Souza também respeita todas as orientações médicas. Ela doou um rim ao filho, que só procurou um especialista quando a sua situação de saúde havia se agravado muito. “Quando é bebê, a gente controla melhor. Depois de adulto é muito mais difícil”, garante. Como habitualmente fazem, Eurides e Helena passaram por exames na semana passada.

Já o paciente Robson José de Souza diz não acreditar que os homens sejam assim tão resistentes. Ele, por exemplo, garante não ter problemas em se submeter aos preparos exigidos pelos testes, mas admite que suas filhas ‘pegam no pé’ para que não se descuide da própria saúde.

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Cera se transforma em um tampão

A cera produzida pelo ouvido ou eventuais infecções podem se transformar em tampões em exames como o de audiometria, que tem o objetivo de avaliar a acuidade auditiva. O alerta parte de Cristina Guedes de Azevedo, responsável pelo setor de fonoaudiologia do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (Centrinho).

“Se tiver cera, tem de passar pelo otorrinolaringologista para tirar e somente depois fazer o exame. A criança ouve o estímulo e responde quando está ouvindo. A cera é como se fosse uma barreira no caminho”, explica.

Já o exame de nasofaringoscopia verifica a função do céu da boca e das paredes da garanta na fala. Neste caso, um endoscópio flexível com uma espécie de câmera é introduzida na narina, que recebe um anestésico no local. O paciente só tem de colaborar. Pode se alimentar normalmente”, diz a especialista.

Porém, quando a deglutição é analisada, como no exame chamado videofluroscopia, a criança tem de ficar três horas sem comer para aceitar o alimento a ser oferecido no momento do exame. A consistência dele depende de avaliação anterior da fonoaudióloga. Mesmo que seja leite, o alimento recebe um corante azul para que seja avaliado durante o exame.

Aos 8 anos, Eduardo do Amaral Bravo dão dá qualquer trabalho quando precisa submeter-se a exames no Centrinho. Já o pai dele não gosta de frequentar médicos, informa a mãe do menino, Giselda Aparecida Bezerra Bravo. Normalmente, é ela quem marca as consultas. Também apresenta resistências o irmão de Tiago Matias, habituado aos exames do hospital. “Mas na hora H ele vai”, garante.

Como o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (Centrinho) atende pacientes com malformação, também realiza estudo dos cromossomos. Neste caso, no entanto, o paciente não precisa se sujeitar a qualquer preparo anterior. O mesmo exame é feito em portadores de síndrome de Down e alguns casos de câncer, explica a bióloga do laboratório de citogenética do hospital, Tânia Yoshico Kamiya.

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Pelo pode ser empecilho para eletro

Realizado há mais de 100 anos, o eletrocardiograma faz um registro gráfico da atividade elétrica do coração. Quando solicitado pelo médico, dá uma série de noções sobre o que aconteceu com o órgão e o que eventualmente pode acontecer. Para fazê-lo, basta instalar eletrodos.

Nos caso do homem, se tiver muito pelo, é recomendável retirá-lo, adverte o cardiologista Christiano Roberto Barros. “Tem que tirar em locais específicos. Isso é feito no consultório”, explica.

Já o ecocardiograma não exige nada. Trata-se de uma espécie de ultrassom do coração, que terá sua força de contração avaliada. “Existem também alguns exames mais específicos como a cintilografia miocárdica”, informa. Neste caso, o contraste com iodo será utilizado. Os cuidados, portanto, são os mesmos de outros exames de imagens que lançam mão do contraste iodado.

“O procedimento é todo orientado. Às vezes o paciente tem de comer um pouco de gordura depois que faz o exame. É para aumentar a absorção do radiofármaco”, informa o cardiologista.

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Hemograma ‘simples’ é livre de regra

O exame de sangue ‘simples’, o chamado hemograma, pode ser feito sem qualquer preparo anterior. Nem jejum é exigido. No entanto, é capaz de detectar problemas complexos, como infecções e até leucemia. Ocorre que dificilmente é solicitado sozinho. Se vier acompanhando com pedido de triglicérides e colesterol, já era. ‘Fechar a boca’ será imprescindível.

Quem lamenta a ausência daquele cafezinho preto antes de sair de casa, talvez sinta saudade de jejum ao ser submetido a algumas dietas ‘chatas’ que autorizam a alimentação, mas com restrições. É o caso da prevista para a realização do exame de sangue oculto nas fezes, por exemplo.

Por três dias, o paciente deve deixar de comer carne, couve, chicória, vagem, aspargo, agrião, alface, almeirão, acelga, alcachofra, espinafre, rabanete, brócolis, ovos, feijão, canjica, tomate, batata, beterraba, elenca Flávia Cristiane de Lima, biomédica e responsável técnica pelo laboratório da Associação Hospitalar de Bauru (AHB).

Segundo ela, também não pode usar medicamentos como anti-inflamatório, corticóides, aspirina, ferro, vitamina C. Até mesmo escova de dente ou palito devem ser temporariamente ‘esquecidos’ para evitar sangramento gengival.