Permeado por um clima de perplexidade, consternação e muita tristeza, o sepultamento dos comerciantes Maurício Yamanoi, 41 anos, e José de Nazaré Mendes, 72 anos, reuniu dezenas de amigos e familiares, na tarde de ontem, no Cemitério Jardim do Ypê. Anteontem, ambos foram assassinados por um agente penitenciário no bar Japa Lalá, no Jardim Higienópolis, de propriedade de Yamanoi, conhecido como Japa.
Mendes, que também era comerciante, estava no bar tomando uma cerveja e também foi alvejado, ao que tudo indica depois de tentar apartar uma discussão entre Yamanoi e o autor dos disparos, Alexandre Zambonaro Gonçalves, 36 anos.
O enterro das vítimas ocorreu quase que simultaneamente, entre 15h30 e 16h, e muitos dos amigos que foram prestar a última homenagem a Yamanoi também se solidarizaram com o sofrimento da família de Mendes. Todos estavam inconformados com a forma brutal com que os comerciantes foram mortos e a emoção tomou conta até mesmo da imprensa presente no local.
Ainda durante o velório, nos poucos momentos de lucidez frente a dor da perda, parentes, funcionários e pessoas próximas às vítimas ainda se questionavam sobre os motivos que levaram Gonçalves a provocar tamanha tragédia. De acordo com o sogro de Yamanoi, Antônio Roberto Dimâmpera, embora o assassino já tenha sido localizado, a família ainda espera que sua relação com o proprietário do bar seja esclarecida. “Nada vai trazer o Maurício de volta e nada justifica um crime como este, mas precisamos desta resposta”.
Yamanoi foi morto com três tiros pouco depois de abrir o bar, por volta das 13h30 da última sexta-feira. Mendes foi atingido por dois disparos.
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Japa: homem trabalhador
O bar Japa Lalá, que foi palco da morte de seu proprietário, Maurício Yamanoi, e de José de Nazaré Mendes, foi aberto há cerca de 13 anos, depois que o dono voltou do Japão, na década de 1990. Segundo familiares, alguns anos de trabalho naquele país foram suficientes para que Yamanoi reservasse certa quantia em dinheiro para abrir seu próprio negócio em Bauru, município onde cresceu e constituiu família.
Nascido em Guararapes, Yamanoi foi trazido à cidade pela família ainda pequeno. Ferroviário aposentado, era tido pelos colegas da antiga Fepasa como um homem dedicado ao trabalho. “Trabalhamos juntos durante 10 anos e ele era uma ótima pessoa. Era um excelente profissional, disso ninguém podia reclamar”, afirma o aposentado Jorge Luís Martinelo.
Como patrão, Yamanoi também era querido no ambiente de trabalho. Em seis anos de convivência dentro do bar, o garçom Ércio Donato de Castro, 68 anos, conta que se sentia como um pai para o comerciante. “Ele falava que tinha o pai japonês e tinha eu, que era o segundo pai dele. É uma pessoa que vai fazer falta”, lamenta.
Embora considerado uma boa pessoa, os amigos e parentes lembram que Yamanoi possuía uma personalidade forte e defeitos como todo ser humano. O sogro Antônio Roberto Dimâmpera - que o encaminhou profissionalmente dentro da Fepasa e o apresentou à filha Érika, que viria a se tornar sua esposa – conta que o comerciante geria seus negócios com pulso firme, mas nunca deixou de ser uma pessoa generosa.
“Ele era um ótimo pai, trabalhador, não bebia e não fumava. E ajudava muito os amigos que precisavam, da maneira que fosse. Muita gente veio ao velório para dar conforto para a família e também agradecer pelas coisas boas que ele fez para essas pessoas”, observa.
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José Mendes: simpatia nos mínimos detalhes
Durante o dia de ontem, cerca de 300 bauruenses prestaram as últimas homenagens a José de Nazaré Mendes em um ambiente repleto de emoção e tristeza. Também conhecido como Zé, ele estava com 72 anos e morava em Bauru há quase 54 anos, quando saiu da cidade de Beira Baixa, localizada a 200 quilômetros de Lisboa, em Portugal. Fernando Mendes, um de seus filhos, lamentou não ser possível curtir mais momentos ao lado do pai.
Ele disse que aproveitou a companhia do pai em ótimas ocasiões, com viagens, festas, passeios e muitos outros momentos. Entretanto, Fernando afirmou que gostaria de ter muito mais tempo para desfrutar do pique que José tinha, um entusiasmo que parecia inesgotável.
“Ele estava com 72 anos e vivia muito bem. A gente falava em viajar, ele já estava dentro do carro. Falava em navegar, ele estava dentro do barco. Ele conseguia até cansar a gente com tanta disposição”, revelou Fernando ao lembrar do quanto seu pai aproveitava a vida e era feliz.
Amigo de toda a família Mendes, Antônio Ângelo define o espírito de família como a maior virtude de Zé. “Ele gostava muito da companhia de todos, de ver a casa cheia. Sempre foi uma pessoa agregadora que gostava de ver todos felizes e comemorando ao seu redor”, frisa Antônio.
Além disso, ele falou sobre a formação que Zé passou para toda a família. “Todos são maravilhosos e manter uma família grande como a dele tão unida não é fácil, mas ele tirou isso de letra como um grande patriarca”, definiu.
Profissionalmente, o grande atrativo de Mendes era seu açougue. Com conhecimento ímpar sobre carnes, habilidade sem comparação para criar sabores e atenção redobrada aos mínimos detalhes, o patrício conquistava o paladar de todos os que passavam por seu estabelecimento na rua Luiz Aleixo.
Sempre muito detalhista no trato de seus antigos e novos amigos, Mendes esbanjava simpatia e popularidade onde quer que estivesse, especialmente se o endereço fosse localizado no bairro Higienópolis.
Em relação a esta atenção especial de Zé, o amigo Plínio Ramos do Amaral Filho lembrou de uma ocasião quando os dois foram, junto com Fernando, filho de Zé, para o Náutico de Bauru com a finalidade de limpar um veleiro. Chegando lá, Zé retirou uma sacola do bolso com uma porção de salame e outra de linguiça seca.
“A gente não esperava por isso e ele explicou que precisava deste toque especial para comemorar que estávamos todos juntos ali. Ele era assim, sempre foi muito atencioso e detalhista. Não tinha quem não falasse bem dele”, afirma Plínio.
Entre os moradores do bairro a opinião sobre o patrício era unanimidade: excelente companheiro. Aparecido Ramos e Tadao Yamada, amigos de longa data de Mendes lembraram da simpatia que ele exibia todos os dias.
“A gente mantinha um clima muito gostoso no bairro, sempre realizando visitas uns aos outros para manter o contato”, destaca Aparecido.
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‘Eu vi quando ele atirou’
Uma das testemunhas que deve ajudar a Polícia Civil a esclarecer o que aconteceu no tempo em que Alexandre Zambonaro Gonçalves permaneceu dentro do bar, até atirar contra Yamanoi e José de Nazaré, concedeu entrevista exclusiva ao JC, durante o velório, ontem. Ele pediu para ter sua identidade preservada.
No momento em que os crimes ocorreram, ele estava sentado em uma das mesas do estabelecimento que ficam dispostas na calçada. De acordo com ele, somente Yamanoi e Mendes estavam dentro do bar.
“Eu estava de costas para o bar e vi quando o Alexandre entrou. Ele foi tirar satisfações com o Japa, perguntando ‘o que você falou de mim para tal pessoa?’. O Japa disse que não tinha falado nada, que, se tivesse que falar alguma coisa dele, falaria na cara”, detalha.
Logo em seguida, segundo a testemunha, Gonçalves começou a atirar. Com medo, ele saiu correndo, mas teve tempo de olhar para trás e ver o assassino efetuando os últimos disparos, já na porta do estabelecimento. “Eu vi quando ele atirou“, aponta.
A testemunha, assim como o garçom Ércio Donato de Castro, afirmam que Gonçalves era frequentador assíduo do bar, mas nunca causou problemas dentro do estabelecimento. “Essa história de que ele tinha dívida de bebida não é verdade, porque todas as vezes, mas todas mesmo, ele pagou o que devia sempre antes de ir embora”, revela Castro.
O garçom costuma iniciar o serviço às 17h e não estava no bar no momento do crime. No entanto, logo depois dos assassinatos, ele foi até o local e reconheceu Gonçalves em um documento de identidade que ele deixou caído sobre o chão do estabelecimento.
O assassino costumava escrever para a Tribuna do Leitor do JC. Em diversas oportunidades, ele discorreu sobre a necessidade de se implantar a pena de morte do Brasil em casos de crimes bárbaros, a exemplo do que ocorre em outros países.
Em uma carta publicada em 2007, ele afirmou ser “a favor do extermínio, da crueldade e do sofrimento para esses verdadeiros monstros”, destacando que “o criminoso tem que pagar com a mesma moeda o crime que praticou”. Citando o caso de Suzane von Richtofen e dos irmãos Cravinhos, ele defendia que o correto seria “pegar um cano de ferro e arrebentar os três até sair o miolo da cabeça”.
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Melhora estado de saúde de homicida
O estado de saúde do agente penitenciário Alexandre Zambonaro Gonçalves, 36 anos, evoluiu ontem de um quadro considerado grave para regular. Segundo informações do Hospital de Base (HB), onde ele está internado, sua saúde está estável, mas ainda não há confirmação de que ele não corra mais risco de morte.
Ao tentar se suicidar, na garagem de sua casa, após o crime, Gonçalves acabou sofrendo uma fratura na coluna cervical. A corda se rompeu.
Inconsciente, ele foi levado ao Pronto-Socorro da Bela Vista e depois internado na Unidade de Terapia Intensiva do HB. Lá, ele permanece sob escolta policial em horário integral. Quando receber alta do hospital, deverá ser encaminhado ao Presídio de Tremembé (480 quilômetros de Bauru), localizado na região de São José dos Campos, próximo a Taubaté, onde os agentes penitenciários que cometem crimes costumam cumprir pena.
Antes que a polícia tivesse tempo de procurar o agente penitenciário, no entanto, ele foi localizado rapidamente porque tentou se enforcar em casa, menos de uma hora depois de tirar a vida de duas pessoas.