“Bola na trave não altera o placar / Bola na área sem ninguém pra cabecear / Bola na rede pra fazer um gol / Quem não sonhou em ser um jogador de futebol?”. A música “Partida de Futebol”, que ficou famosa na voz de Samuel Rosa, líder do grupo Skank, traduz regras e situações frequentes do futebol, entre elas o sonho de se tornar um grande craque, acalentado por milhares de meninos de todo o País.
Em busca desses garotos, a reportagem do Jornal da Cidade percorreu a cidade, onde qualquer espaço de terra existente é transformado em um fictício estádio para matar a fome de bola da molecada.
E pode reparar. Em todo bairro tem pelo menos um destes lugares, quando não muitos. E onde eles existem, lá estão os garotos. Os campinhos são, em sua maioria, de terra e sem cerca. Já as traves são o componente mais variado. A maioria, sem rede, é verdade. Mas o tamanho e o material são imprevisíveis, vão desde o tradicional ferro à madeira, perpassando chinelos e tijolos.
Os craques das várzeas jogam descalços e têm tamanha habilidade que, em menos de cinco minutos de partida, conseguem a proeza de encardir as roupas, que substituem os uniformes.
Um campinho no Núcleo Habitacional Pastor Arlindo Lopes Viana é um o reduto dos meninos do bairro. Todos os dias, cerca de dez garotos se reúne no lugar para se divertir. O horário de encontro é às 14h e a pelada segue até que a bola consiga ser vista.
“A gente joga enquanto dá para enxergar a bola. Cada hora chega um e injeta um ânimo no time. É só diversão”, afirma Fábio Augusto Pierinde Souza.
Quando questionados se o sol forte e a canseira não atrapalhavam o bom andamento do jogo, Antônio de Souza Vicente, 13 anos, que também brinca no campinho, defende: “De jeito nenhum. Pra falar a verdade estamos tão acostumados que nem percebemos.”
A mesma animação também reina no Mary Dota. Lá, todos os dias, em média 15 meninos, de 10 a 20 anos, disputam a posse de bola. Durante a partida, não é raro ouvir um ‘Passa a bola, Robinho ou ‘Aqui! Aqui! Imperador’. Não que estes sejam os nomes reais dos participantes da pelada. São apelidos em referência aos ídolos craques: um artifício utilizado para dar um tom de realidade à partida.
O mais novo dos garotos é Vitor Hugo Alves Braz, 10 anos, conhecido pela turma como Ronaldo e o primeiro a se manifestar quando questionados se alguém tinha o sonho de um dia se tornar um jogador famoso. Vitor Hugo faz jus ao apelido, na presença da reportagem demonstra toda sua habilidade com a bola e manda bem nas embaixadinhas.
“Quem não quer ser um jogador famoso? Acho que este é o sonho da maioria das pessoas que está aqui. Mas todos sabemos que é bem difícil conseguir. Tem muita gente pra pouca vaga. Vamos ver... eu ainda sou novo, quem sabe um dia não chego lá? Enquanto isso, vou me divertindo por aqui”, diz Vitor Hugo.
Mas se o mundo futebolístico é exigente, os garotos também são. “O campinho aqui não é dos melhores, pra gente se divertir com segurança era preciso um cercado para a bola não sair. Aqui na vila tem outro campinho, mas a gente abandonou porque está em péssimas condições. Como vamos ser craques se não temos estrutura?”, reclama João Vitor Seabra Porto, 13 anos.
Mesmo com tantos obstáculos para driblar, o que não faltam são garotos dispostos a isso. Um deles é Renan Paula Ramon Moreno, 16 anos. Duas vezes por semana ele e os colegas se reúnem em uma pequena rua na Vila Nova Esperança para a tradicional pelada.
“A gente faz dois gols, um de cada lado da rua e bate bola no asfalto mesmo. Só não fazemos com tanta frequência porque os vizinhos reclamam e o fluxo de carros atrapalha um pouco”, explica.
Renan também faz parte do time de garotos que sonha com a profissionalização. O garoto já fez testes para a Portuguesa quando tinha 13 anos e há alguns meses participou de uma peneira para atuar em um time de Minas Gerais. “Quem sabe se quando esta reportagem for publicada eu já não tenha recebido a resposta”, aguarda, ansioso.
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Malandragem da várzea
Uma placa feita com ripas de caixotes de madeira e escrita a carvão identifica o lugar e sua finalidade: Copa Nicéia. Em campo, oito garotos, sem chuteiras ou uniformes, disputam a posse de uma bola de capotão já gasta e bastante murcha.
O lugar virou o estádio dos garotos desde o início do ano, quando a prefeitura passou uma máquina e aparou a grama alta. De lá para cá, disposição é o que não falta e, mesmo com alguns acidentes, a gana de vencer predomina.
“Ih, aqui já aconteceu de tudo. Já teve gente que machucou o pé em prego e gente que quase perdeu o dedo depois de tropeçar em um tronco que insiste em ficar bem no meio do campinho. Além disso, já perdemos várias bolas atropeladas por carros e até por um ônibus”, resume Gustavo Henrique da Silva, 16 anos.
E já que o assunto caminhou para a precariedade com que a prática do esporte tem de conviver, os garotos são espertos, logo se aproveitam da oportunidade e põem em jogo a malandragem que aprenderam na várzea. “Ô, tia, aproveita e pede no jornal uma rede nova pra gente”. Logo na sequência, outro emenda: “Pede também uma bola nova, que a nossa tá muito gasta. E não esquece de pedir pra tirar o tronco dali!”.