08 de julho de 2026
Geral

Avenida movimentada afugenta moradores

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 6 min

Há muitos bauruenses que, se pudessem, fariam as trouxas e procurariam um canto mais sossegado do que morar ao lado de avenidas movimentadas. A principal reclamação é sobre a perturbação sonora, gerada por tráfego intenso de veículos ou presença de diferentes estabelecimentos. O medo de acidentes de trânsito, principalmente atropelamentos, também é frequente entre os que têm filhos pequenos.

Além do estresse gerado por esse contexto, essa proximidade pode expor os moradores a níveis de ruídos acima da média e a poluentes, potencializando-se em sérios problemas de saúde.

Em pessoas com algum tipo de tendência a problema de saúde, entre eles a hipertensão, por exemplo, a situação pode até mesmo desdobrar em agravamento ou surgimento de doença, como estresse profundo e contínuo.

“Todo ambiente estressante acaba sendo prejudicial à saúde”, alerta o cardiologista Claudie Turra Júnior. “O nível de estresse muito alto pode gerar depressão ou outras doenças psicossomáticas”, diz. São as patologias com sintomas físicos, advindas de problemas emocionais, entre elas a úlcera de estômago.

Apesar disso, pondera o cardiologista, esses problemas ocorrem em maior frequência nas pessoas com propensão ao surgimento de doenças, boa parte delas já com alguma patologia de base. “Se a pessoa fica muito tempo no local é porque também se acostuma”, ressalva. “Claro que viver num lugar tranquilo e depois morar em outra região agitada pode ser prejudicial, mas não chega a ser necessariamente determinante”, esclarece.

Preponderante ou não para problemas de saúde, o fato é que, para a fatia da população que se incomoda em conviver diariamente com o agito das avenidas mais movimentadas nas cidades, o trânsito sobrecarregado na hora do rush não testa os nervos apenas de quem está preso nos engarrafamentos ou leva uma fechada. Quem mora ao lado disso tudo também sofre - e sem poder responder com buzinadas.

“Moto com escapamento aberto incomoda demais”, protesta o comerciante Osmar Cintra, morador da avenida Castelo Branco, uma das mais movimentadas de Bauru. “Sem contar alguns que colocam som sem limites nos carros, para todo mundo que está fora ouvir”, acrescenta.

Recém-chegado às proximidades da mesma avenida, o modelista de joias Evando da Silva Zeferino diz que a principal preocupação é com as crianças. O barulho, diz o morador, que há nove meses morava na tranquila cidade de Gaurama, Interior gaúcho. “Tenho uma menina de 4 meses e um garoto de 9 anos. Para quem tem criança, fica complicado sair para ir ao mercado, pelo medo de atropelamento. O trânsito é perigoso”, comenta.

Outro fator que deixa a população de locais movimentados em alerta, pontua Zeferino, é a combinação fluxo de pessoas/abandono, exemplificada, na região onde vive, pela existência de terrenos baldios. “Incomoda bastante, é uma questão de segurança”, alega.

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Agitação traz sensação de segurança para uma parcela dos moradores

Se por um lado moradores de áreas movimentadas se sentem inseguros com a presença de terrenos abandonados próximos a eles, há quem também viva em locais com grande circulação de veículos ou pessoas e se sinta aconchegado.

Há cinco anos no Jardim América, área tranquila, o corretor imobiliário Robson Mateus Ruggiero diz que, se pudesse, retornaria à agitação central da rua Antônio Alves. “Me arrependi de sair do Centro”, confessa.

“Morar na região central é melhor, porque é mais fácil chegar ao supermercado ou farmácia”, considera Ruggiero, que se mudou de um apartamento para uma casa para dar mais conforto aos filhos pequenos.

“Quem mora nas proximidades de uma avenida movimentada dificilmente vai ser assaltado”, acredita a gerente de imobiliária Lia Pestana. Segundo ela, quem opta pela companhia de estabelecimentos comerciais, como padarias ou farmácias, tem na sensação de segurança propiciada pelo vaivém de pessoas uma compensação pelo barulho ao qual se acostumaram pelo tempo em que convivem com a agitação, mesmo que a uma parede de distância do travesseiro.

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Aumento da frota satura o trânsito e também alimenta estresse

Buzinaço, escapamentos abertos de motocicletas, frenagens bruscas e propaganda volante em demasia são estressantes para o condutor que trafega nas principais avenidas de uma grande cidade. Para quem mora ao lado, então, a situação pode beirar um ataque de nervos, pois o incômodo é constante.

Essas situações, embora inerentes a cidades do porte de Bauru, poderiam, contudo, ser minimizadas se a frota não recebesse uma carga tão grande de veículos ao ano.

Além do aumento constante do contingente automobilístico, propiciado, entre outros fatores, pelas facilidades em aquisição de veículos, a saturação do sistema viário também é ocasionada pela defasagem das ruas e avenidas, que, cada vez mais entupidas, não acompanham a evolução da frota.

O arquiteto Rodrigo Riad Said, titular da Secretaria de Planejamento de Bauru (Seplan), frisa que a prefeitura tem projetos de ampliação de importantes gargalos do trânsito na cidade, além de dar continuidade à avenida Nações Unidas, a Nações Norte, entre o seu atual final, próximo ao Terminal Rodoviário, até a rodovia Bauru-Marília.

Porém, o secretário afirma que tais projetos, entre eles o aumento da rotatória no início da Castelo Branco e final da Duque de Caxias, dependem de verba para saírem do papel. Enquanto isso, seria importante promover a mudança de comportamento por parte da população com maior uso do transporte público. “É preciso investir nesse setor. Com melhor transporte público, mais pessoas deixam o carro em casa e isso facilita o tráfego”, defende.

Entretanto, em alguns casos a solução apontada se torna o problema. Um exemplo é a avenida Rodrigues Alves ou Nações Unidas em horário de pico, quando ônibus e automóveis brigam por espaço, num zigue-zague entre faixas de rolamento. “Na Nações, os ônibus pegam passageiros parando na própria avenida”, admite. “Pretendemos instalar baias para separá-los dos demais veículos”, anuncia.

Para Gustavo Cardoso, gerente técnico da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), autarquia parceira da Seplan nos projetos de melhoria do tráfego na cidade, o aumento da frota é o principal vilão no planejamento do trânsito. “Tentamos amenizar essa saturação. Até o final do ano teremos 200 mil veículos”, alega, calculando que a frota atual é de 180 mil.

Transtorno

Enquanto projetos aguardam execução e novos veículos disputam lugar nas ruas, moradores reclamam de transtornos ocasionados pela grande movimentação. Na região sul, repleta de novas lojas e restaurantes, moradores e comerciantes pedem a implantação de estacionamento rotativo, aponta Gustavo Cardoso, gerente técnico da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), que afirma buscar alternativas.

Na mesma região, moradores também reclamam do barulho, ora pelo tráfego, ou pela movimentação noturna, principalmente no entorno da avenida Getúlio Vargas. Segundo um leitor, que não confirmou autorização para publicação de seu nome, é “impossível manter uma noite de sono” nas proximidades de uma loja de conveniência dessa via.

De acordo com esse mesmo leitor, falta fiscalização sobre abusos sonoros, que tornam o local, nas palavras dele, verdadeiras “casas de shows ao ar livre”, madrugadas adentro.

Embora o problema permaneça, também em diferentes pontos da cidade o abuso sonoro é infração passível de multa, prevista em lei municipal. Sancionada em 2005, a lei, em tese, disciplina a emissão sonora por quantidade de decibéis em atividades comerciais ou industriais e realização de shows ou comemorações populares, independente da localidade em questão.