08 de julho de 2026
Geral

Jogo do Brasil torna sexta mais apática

Alexandre Padilha
| Tempo de leitura: 7 min

A sexta-feira já é um dia conhecido por sua complexidade de expressões. Geralmente, durante o último dia de labuta (ao desconsiderar o sábado), as pessoas costumam lidar com sentimentos antagônicos que são diretamente refletidos no ritmo da cidade. Ontem, esta realidade tornou-se ainda mais incomum em decorrência do jogo entre Brasil e Portugal, que fez Bauru “acordar” mais tarde e passar o dia em uma marcha mais lenta.

Uma sexta-feira comum. Depois de se deitar para dormir na quinta-feira, normalmente as pessoas acordam cansadas no dia seguinte por terem trabalhado a semana inteira, sem preocuparem-se muito em demonstrar motivação para enfrentar o novo dia. Junto a esta sensação, a animação tende a aumentar com a expectativa para o final de semana, o descanso e a diversão.

Além desses traços antagônicos que definem o ambiente da sexta, ontem o dia adquiriu uma pitada a mais de excentricidade com a transmissão do jogo entre as seleções do Brasil e de Portugal pela Copa do Mundo da África do Sul. Neste dia 25 de junho de 2010, Bauru amanheceu com um ritmo ainda mais lento que o comum, visto que muitos estabelecimentos não abriram suas portas antes da disputa de futebol.

O bauruense Alexandre Modolo, que possui uma padaria na cidade, começou a trabalhar antes da partida. Segundo ele, a movimentação na parte da manhã foi bem abaixo da normal. “Por conta do jogo, muitas pessoas não precisaram trabalhar na parte da manhã e isso diminuiu o fluxo de clientes na padaria. Este era um reflexo que a gente já esperava”, destacou Modolo.

Empreendimentos fechados, poucos carros nas ruas e silêncio. A cidade Sem Limites custou a acordar. Ao contrário do que é registrado no dia a dia bauruense, uma das primeiras movimentações no setor comercial foi relatada em bares, que começaram mais cedo as preparação para receber os fregueses antes da partida final da primeira fase do campeonato mundial de futebol.

Lento despertar

Conforme o horário do início do jogo se aproximava, o fluxo de pessoas aumentava e a cidade parecia despertar. Antes das 10h de ontem já era possível notar um tráfego leve de veículos, a maioria deles enfeitados com bandeiras do Brasil e dirigidos por pessoas com camisas amarelas.

Menos de uma hora antes dos jogadores brasileiros e portugueses entrarem em campo, o ritmo bauruense voltou ao normal e continuou crescente. Muitos carros nas ruas e avenidas, pessoas com pressa, lojas fechadas e bares a cada minuto mais cheios.

Meia hora antes do apito inicial a movimentação na cidade já estava maior que o de costume, os bauruenses já haviam se transformado em torcedores e procuravam um lugar para assistir ao jogo, ou buscavam os últimos ajustes para a reunião entre amigos e familiares.

Entretanto, essa correria momentos antes da partida não foi tão grande quanto a registrada nos demais jogos da Seleção Brasileira, afirmou o empresário Alexandre Modolo. “Provavelmente, em decorrência do horário da partida, os torcedores precisaram se programar melhor para assistir ao jogo. Mesmo assim, minutos antes da partida começar o movimento aqui na padaria aumentou consideravelmente. Não tem jeito, o brasileiro sempre deixa alguma coisa para a última hora”, brinca Modolo.

Durante a partida, a cidade se calou novamente. Ou melhor, a movimentação cessou, visto que os torcedores fizeram barulho nos locais onde se reuniam para assistir ao confronto entre Brasil e Portugal. Apesar do clima de festa que tomou conta dos bauruenses a partir das 11h de ontem, o supervisor do Centro de Operações da Polícia Militar (Copom), sargento Danilo José Moreira, disse que o dia não registrou muitas ocorrências.

“Durante o jogo do Brasil, a Polícia Militar (PM) não precisou ser acionada muitas vezes. Acredito que esta tranquilidade ocorreu em virtude das pessoas precisarem retornar ao trabalho após o termino da partida. Tivemos ainda alguns trotes, mas que também não superaram o volume normal do dia a dia”, afirmou o sargento Danilo.

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Ao final da partida, trânsito lento atrapalhou a volta para o trabalho

Depois de toda a paralisação apresentada nas vias bauruenses durante o jogo do Brasil, as principais ruas e avenidas da cidade foram invadidas, ao mesmo tempo, pelos carros de todos os trabalhadores, que tentavam chegar a seus destinos, mesmo sem muita vontade de voltar à labuta.

Alguns congestionamentos foram registrados na cidade, causando certo desconforto para os torcedores que foram obrigados a se transformar em trabalhadores com o apito final do árbitro responsável pela partida entre Brasil e Portugal.

Gerente de uma loja localizada no Calçadão da Batista, Mab Santos Pereira disse que levou o dobro do tempo que geralmente gasta no percurso entre sua casa e o estacionamento onde guarda seu carro, na área Central de Bauru. “As ruas estavam bem movimentadas. Todo o comércio voltou a funcionar no mesmo horário e isso causou alguns congestionamentos. Eu custei para conseguir atravessar a (avenida) Nações Unidas”, contou Mab, ao revelar que seu marido também reclamou sobre as condições do trânsito para chegar ao trabalho.

Com a abertura dos estabelecimentos ao final da partida entre Brasil e Portugal, o público também começou a marcar presença nas ruas, apresentando uma movimentação “normal para um dia de jogo da Seleção”, segundo Pauline Tobias, proprietária da loja onde Mab trabalha como gerente. “Depois que abrimos as portas, o fluxo de pessoas começou e foi crescendo no decorrer da tarde. Eu acho que registramos uma boa movimentação, apesar do jogo do Brasil. Vi bastante gente passeando e comprando aqui no Centro (da cidade)”, garantiu Pauline.

Por outro lado, o empresário Alexandre Modolo, proprietário de uma padaria, destacou que dia foi bastante atípico por se tratar de uma sexta-feira. “Normalmente, o movimento na padaria é bem grande às sextas. Hoje (ontem), o fluxo atingiu seu pico meia hora antes do jogo. Depois, nós fechamos a porta para assistir ao Brasil e quando reabrimos, ao final da partida, a movimentação foi melhorando aos poucos. Acho que a apresentação da Seleção desmotivou os bauruenses”, conclui Modolo.

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Comemoração combinada

Além da Polícia Militar, o Corpo de Bombeiros também informou que não foram registradas muitas ocorrências durante o dia de ontem. Segundo a assessoria de imprensa da Prefeitura de Bauru, os pronto-socorros da cidade tiveram diminuição no movimento no horário do jogo da Seleção Brasileira, mas o ritmo voltou ao normal assim que a partida foi encerrada.

Entretanto, não foram exatamente todos os bauruenses que voltaram ao trabalho após o final da partida entre Brasil e Portugal. Por volta das 16h, ao passar por um bar localizado na avenida Getúlio Vargas, a reportagem do JC encontrou os engenheiros civis Antônio Martins e Denilson Tamaoki estendendo o clima de comemoração.

Os dois profissionais trabalham na mesma empresa e fizeram um acerto com o chefe para poder aproveitar o embalo do último jogo do Brasil na primeira fase do campeonato mundial. “A gente entrou mais cedo para não precisar voltar para a empresa depois do jogo. A sexta-feira já é um dia mais parado, imagina se precisássemos voltar para trabalhar”, revelou Martins.

Por sua vez, Tamaoki destacou os pontos que o chefe conquistou com seus funcionários, mas ponderou sobre a animação durante e após a partida de ontem. “Assim o chefe conseguiu fazer um ótima média com a gente. Mas a apresentação da Seleção deu uma segurada na animação, não teve como empolgar com este jogo do Brasil”, avaliou o engenheiro.

Que o marasmo exposto em campo pelos jogadores brasileiros e portugueses refletiu na falta de animação dos torcedores, disso ninguém duvida. Por outro lado, os bauruenses que não contam com um chefe tão “bonzinho” quanto os engenheiros Antônio Martins e Denilson Tamaoki tiveram que voltar ao trabalho e enfrentaram algumas emoções no trajeto.

Como não houve motivos para comemorar, considerando-se que o futebol apresentado na África do Sul deixou a desejar, o ponto mais alto de entusiasmo da sexta-feira tornou-se a dificuldade em driblar o trânsito e chegar ao trabalho sem se atrasar.