09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana: Rodrigo Antônio Rocha

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 9 min

‘A educação é a forma de melhorar a vida dos povos’

Enquanto muitos afirmam que é com educação que se constrói um país, mas ficam apenas no discurso, Rodrigo Antônio Rocha, atual chanceler da Universidade do Sagrado Coração (USC) de Bauru, tem dedicado sua vida ao ensino, em especial a projetos de criação de universidades em países pobres e melhorias nas já existentes. “Acredito que a diferença entre os países pobres e os desenvolvidos está na qualidade do ensino”, afirma.

Desde 2006, por meio de um contrato de parceria com a USC, o sócio e filho da família fundadora da Universidade Santo Tomás do Chile, uma das três mais importantes do país, vive em Bauru e tem administrado e feito mudanças na instituição bauruense. “Gosto de ajudar e construir instituições de ensino superior. Em Moçambique, tive a honra de ser a pessoa que construiu o projeto da Universidade Santo Tomás de Moçambique, que teve seus primeiros formados no início do ano”.

Diferenças e semelhanças entre o Chile e o Brasil, adaptação, vida pessoal e profissional fazem parte da entrevista que Rodrigo concedeu ao Jornal da Cidade. Confira a seguir.

Jornal da Cidade - Há quanto tempo está no Brasil?

Rodrigo Antônio Rocha - Há quatro anos. Vim para ficar em julho de 2006. Já tinha viajado outras vezes a Bauru para prestar ajuda às irmãs da Universidade do Sagrado Coração (USC), foi quando a superiora geral da Congregação das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus, de Roma, instituição que fundou a USC e que tem obras por vários países do mundo, ligou para a Universidade Santo Tomás, em Santiago, e a atendi. Já éramos conhecidos pelas tarefas desenvolvidas e a congregação nos pediu que atendêssemos a USC, que estava com alguns problemas de administração. Já tínhamos um bom relacionamento com a Igreja Católica e dissemos que poderíamos ajudar e sem cobrar. Durante as viagens, fizemos diagnósticos da USC e do Ensino Superior do Brasil. Mudanças internas eram necessárias, então, fui nomeado representante da Universidade Santo Tomás para administrar a USC. Existe um acordo, um contrato de parceria entre as duas instituições.

JC - Fale sobre a Universidade Santo Tomás.

Rocha - Temos escolas de ensino fundamental e médio, centros tecnológicos, faculdades... É um grupo de educação integral, um dos três maiores do Chile. O grupo também tem uma rede internacional de educação com muitas instituições de ensino superior em mais de 30 países do mundo. Santo Tomás do Chile tem aproximadamente 63 mil estudantes, entre todos os níveis. A instituição foi fundada por minha família, especialmente por meu irmão mais velho e já falecido, hoje sou sócio dela e ela está presente em 22 cidades do Chile. Temos um bom relacionamento com a Igreja Católica e com outros países, o que nos proporciona desenvolver trabalhos na educação. Em 2002, tivemos a honra de contribuir com a Igreja da África desenvolvendo um projeto de universidade católica para Moçambique, em Maputo, para formar outra universidade no país que tinha apenas três.

JC - Ajudar na educação é um projeto de vida?

Rocha - Gosto de ajudar a construir instituições de Ensino Superior. Em Moçambique, tive a honra de ser a pessoa que construiu o projeto da Universidade Santo Tomás de Moçambique para a fundação do arcebispo Emérito e cardeal Alexandre dos Santos. No início de 2010, formaram-se os primeiros estudantes. Uma grande alegria. Fizemos tudo de graça pensando na comunidade e na igreja. Também ajudei com a formação de duas universidades na Bolívia, Nicarágua... Acredito que os países pobres e carentes precisam do desenvolvimento do ensino. Sinto-me na obrigação de fazer algo para ajudar. É uma satisfação pessoal. Algo que tem valor e que motiva minha vida. É possível fazer coisas importantes para os outros e as instituições de ensino tem valor em todas as sociedades. Acredito que a diferença entre os países pobres e os desenvolvidos está na qualidade do ensino. A educação é a base para o desenvolvimento e é para isso que trabalho e estou aqui na USC.

JC - Existe um tempo definido para sua permanência na USC?

Rocha - Você vê que já estou aqui há quatro anos. Existe um tempo sim, mas isso é um acordo, então o tempo pode ser alongado ou reduzido.

JC - Você chegou na cidade sozinho ou a família veio também?

Rocha - Cheguei e fiquei sozinho apenas por um mês. Minha mulher e minha filha Francisca vieram logo em seguida. Não muito tempo depois, meu filho Nícolas nasceu, aqui em Bauru. Tem apenas 11 meses. Já fui casado antes, e isso me deu outros três filhos. Os mais velhos ficaram lá com a mãe. Um deles, Macarena, está aqui me visitando.

JC - Já se adaptou ao Brasil?

Rocha - Tenho ficado muito focado ao trabalho. Acho que isso é um dos meus problemas: ficar focado demais ao trabalho. Mas acho que Bauru é uma cidade muito agradável para se viver. Santiago é como São Paulo, conturbada, cheia e grande demais. Aqui tudo é perto, temos sempre vagas para estacionar... Isso não acontece em Santiago ou São Paulo. Já para minha esposa, tem sido ainda mais agradável porque ela está “desbravando” a cidade. Sempre que preciso ir a algum lugar, pergunto a direção a ela, que está gostando muito da região. É psicopedagoga, mas está se dedicando à pintura, coisa que sempre gostou muito e não teve possibilidade de fazer.

JC - O que há no Chile que mais sente falta?

Rocha - Algumas comidas, como os mariscos e os frutos do mar. Os frutos do mar chileno são os melhores. Quando viajo, trago algumas latinhas, mas não é a mesma coisa. A família também faz muita falta, minha mãe, irmãos... Já fizemos muitos amigos aqui, isso supre um pouco essa falta humana. Sempre participamos de atividades sociais. Gosto muito de passear com a família para ir conhecendo a gente, os problemas sociais, a cultura e os objetivos da comunidade.

JC - Preocupa-se com os problemas sociais de Bauru?

Rocha - Estou tentando ajudar um pouco, por meio do meu cargo, em alguns projetos de desenvolvimento que estão sendo apresentados. Isso me interessa muito. Ao dirigir uma universidade, pode-se contribuir com muita coisa. De fato, a USC tem participação em quase todos os conselhos municipais e queremos que isso seja mais efetivo.

JC - No início do ano, um grande terremoto atingiu o Chile. A preocupação com a família deve ter sido imensa.

Rocha - Sim. Quando tudo aconteceu, fazia apenas sete dias que eu tinha voltado de lá. Ficamos muito assustados, principalmente porque não conseguia falar com ninguém. Foi em um sábado e conseguimos falar ao telefone apenas à tarde. Graças a Deus, ninguém da nossa família teve algum problema importante.

JC - Semelhanças e diferenças entre Chile e Brasil?

Rocha - Somos latinos e, portanto, temos certas habilidades para procurar o jeito, como dizem aqui. O famoso “jeitinho” não é só brasileiro, é latino. Já a principal diferença que percebo é que os brasileiros são mais alegres e não sei porque. O trabalho para vocês é mais light, já para os chilenos é mais tenso, competitivo, talvez por isso o brasileiro desfrute mais a vida.

JC - Conhece muitos lugares do Brasil?

Rocha - Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo... Certa vez fiz uma viagem com todos os meus filhos pela costa do Rio de Janeiro até Santos. As praias são maravilhosas, a cor do mar é mais viva e transparente e a areia, branca. Já vi o Carnaval do Rio e São Paulo. Coisa linda o Carnaval do Brasil, fico surpreso quando algum bauruense me diz que nunca foi aos sambódromos do Rio ou São Paulo.

JC - O canto e o violão são paixões que vieram da infância?

Rocha - Sim. Meu pai tocava muito bem e minha mãe cantava lindamente. Quando eles tinham 18 anos de idade, conheceram-se em uma rádio. Eles se conheceram e fizeram uma dupla. A partir daquele momento, apaixonaram-se e se casaram. Eu via como meu pai tocava e pegava outro violão para imitá-lo. Aprendi a tocar sozinho, assim como meus irmãos. Tocava muito em festas com amigos e na época de menino, na universidade.

JC - Sua juventude teve passagens marcantes?

Rocha - Eu fui muito participativo em todos os tipos de atividades. Fui presidente dos estudantes no colégio, organizei um festival de teatro que até hoje existe, praticava atletismo e fui dirigente nacional dos escoteiros do Chile. As lembranças da época de escoteiro eu nunca esqueço: acampamentos, os amigos... Dizem que escoteiro uma vez, escoteiro sempre (risos). Fiz engenharia comercial na Universidade do Chile que é equivalente à engenharia de produção daqui, e mestrado em direção de empresas.

JC - Percebe uma grande discrepância entre o ensino superior dos dois países (Brasil e Chile)?

Rocha - No Chile, todas as universidades são pagas. Lá, cerca de 30% dos formados no ensino médio entram para a faculdade. Aqui, apenas 11%. Uma grande distorção que existe no Brasil é o fato das universidades públicas serem frequentadas, em grande parte, por jovens de alto poder aquisitivo, porque estudam em bons colégios particulares e conseguem uma vaga em universidades gratuitas, o que não acontece com os de baixa renda. A culpa não é dos meninos, é do sistema. Aqui, quem precisa pagar faculdade são os que menos têm dinheiro. No Chile, há bolsas do governo para os alunos que se esforçam e têm boas notas. O estudante decide em que instituição de ensino vai estudar, pública ou privada. É claro que as instituições precisam ter a aprovação do Ministério da Educação, o que muitas têm conseguido.

JC - Tem vontade de voltar a viver no Chile?

Rocha - É uma pergunta bem difícil. Quando aqui cheguei, cheguei sabendo que tinha uma tarefa por uma certa quantidade de anos e que voltaria. Mas vamos estabelecendo relacionamentos de todos os tipos com as pessoas e a cidade. Então, a ideia tão clara inicial vai se quebrando e é difícil saber qual é a decisão maior. Precisamos pensar muito bem sobre o assunto. Pela importância da família e também as responsabilidades nas instituições universitárias no Chile, viajo todo mês e fico uma semana lá.

JC - Você disse que um de seus hobbies é futebol. Então é bom de bola?

Rocha - No Chile eu jogava toda semana, aqui não tenho conseguido por falta de tempo. Mas várias pessoas têm me feito convites.

JC - Na Copa vai dar Chile (risos)?

Rocha - Preciso ser sincero: vai dar Brasil (risos). Gostaria que o Chile ficasse em segundo lugar, mas vai ser difícil, embora a Seleção Chilena esteja indo bem.

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Perfil

Nome: Rodrigo Antônio Rocha

Idade: 47 anos

Local de Nascimento: Santiago/Chile

Signo: Libra

Esposa: Cátia

Filhos: Nícolas, Francisca, Macarena, Pablo e Gonzalo

Hobby: Cantar, tocar violão e jogar futebol

Livro de cabeceira: Livros de história

Filme preferido: Filmes que retratam a existência humana

Estilo musical predileto: Música romântica

Time: Universidad do Chile e Palmeiras

Para quem dá nota 10: A João Paulo II por seu carisma, comunicação e por encantar até mesmo pessoas de outras religiões

Para quem dá nota 0: Aos que têm poder e caem na corrupção

E-mail: chancelaria@usc.br