Concebida na era tecnológica e longe dos Anos de Chumbo, a chamada Geração Y também vem oxigenando as empresas de Bauru. Nascidos entre 1980 e 1994 e inseridos há pouco tempo no mercado, os novos profissionais têm outra postura frente ao trabalho. Acostumados a conseguir o que querem, fazem o que gostam, lutam por boas perspectivas na área escolhida e por salários no mínimo compensadores.
Qualificados, também são questionadores e lidam com a hierarquia de modo diferente das gerações anteriores. Livres, a atitude deles reflete inclusive a relação aberta estabelecida com os pais. Querem desenvolvimento profissional sem abrir mão da vida pessoal - comportamento contrário ao assistido em casa. Quando contratados, são capazes de, em pouco tempo, provocar uma ‘revolução’ nas empresas que os aceitam, mas em outras mais fechadas são vistos com resistência.
“É equivocado aquele empresário que acha que não vai precisar de novos talentos. Todos vamos envelhecer. Acredito que as empresas estejam preocupadas com isso, embora as familiares tenham mais dificuldade”, avalia o economista Wagner Ismanhoto.
Na opinião dele, apesar da letargia, a contratação da geração Y será inevitável mesmo nas empresas familiares. “Se não for hoje, vai ser na semana que vem ou no próximo mês. Não tem como fugir.”
Na Tilibra, por exemplo, os concebidos entre 1980 e 1994 são bem-vindos. A empresa considera interessante misturar a maturidade dos profissionais mais antigos com a experiência dos mais novos, explica a gerente de recursos humanos Sueli Pires.
Para manter os novos talentos no quadro de funcionários, a dinâmica da Tilibra mudou. A quantidade de processos seletivos internos, por exemplo, aumentou. “Neste ano, movimentamos muita gente mesmo na produção, porque a retenção da Geração Y é complicada. Eles não têm medo de procurar outros empregos. Enquanto os mais velhos casavam mais cedo, constituíam família, não queriam sair da cidade, se aventurar, hoje os jovens são mais livres”, acrescenta Sueli. Segundo ela, dar-lhes perspectivas de ascensão ajuda a mantê-los na empresa.
Representante
Por sempre vislumbrar chances de evolução pessoal e profissional, Rodrigo Zulim, 24 anos, está há cinco anos na Paschoalotto Serviços Financeiros. Atualmente na função de gestor de operações, comanda uma equipe formada por 332 funcionários. Enquanto cursava publicidade e propaganda na Universidade do Sagrado Coração (USC), entrou na empresa como recuperador de crédito. Estava com 19 anos.
Sempre por meio de processo seletivo interno, tornou-se monitor de equipe, depois coordenador, foi transferido para Sorocaba, onde assumiu a função de gerente, em seguida voltou a Bauru no cargo atual. Todas as promoções resultaram em acréscimo salarial. “Meu objetivo agora é a diretoria. Busco a excelência em tudo o que eu faço”, garante Rodrigo ao apontar sua principal virtude.
Após um rápido cálculo, reconhece que sua carreira vai muito bem. Rodrigo diz ter lido em revistas não ser recomendável a um bom profissional permanecer na mesma função por mais de dois anos. Seguiu à risca e saiu-se melhor do que o esperado.
Com as mudanças anuais, adquiriu maturidade e tolerância. Ainda assim, carrega uma típica característica da Geração Y: excessiva ousadia. “Quebro a cara por fazer. Acho melhor do que a omissão. Se não der certo, tem que levantar e seguir, sempre mantendo o foco”, garante.
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Profissionais chegam ao mercado já taxados como insubordinados
Os novos profissionais integrantes da Geração Y entram no mercado com um pesado estereótipo sobre os ombros. São apontados como impacientes, preocupados com o ‘próprio umbigo’, folgados, distraídos, superficiais, insubordinados e até antiéticos. Parte dos clichês procede, outra parece bem distante da realidade deles e das empresas.
“Não são antiéticos de jeito nenhum. Como são abertos, não falam por trás. Chegam e questionam. O que é legal. Acabam mudando a dinâmica da empresa. É muito interessante porque todos os departamentos, mesmo onde os baby boomers prevalecem, evoluem também”, explica a gerente de recursos humanos da Tilibra, Sueli Pires.
Quem ainda não passou pela experiência de conviver com eles, no entanto, espera adiá-la ao máximo. É o que afirma uma empresa de recursos humanos consultada pela reportagem e que aceitou conceder entrevista desde que não fosse identificada - para não ficar estigmatizada pela posição de não recrutá-los.
“A maior parte das empresas de Bauru exclui essa faixa etária. Quem os prefere são aquelas que têm foco tecnológico, mas a maioria dos nossos clientes pede longa experiência e pessoas acostumadas com a subordinação”, diz a fonte.
“Não é fácil trabalhar com eles. Mudam muito de opinião. Hoje querem uma coisa, amanhã é outra. Só as empresas que nasceram recentemente e que precisam da Geração Y é que estão preparadas para contratá-los. As outras não abrem as portas, só com muita luta”, admite a funcionária responsável pela seleção dessa empresa de recursos humanos.
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Integrantes do grupo aprendem
sobre tecnologia desde a infância
Os representantes da Geração Y não necessariamente nasceram em berço de ouro, mas em digital sim. Já na infância, aprenderam a dominar as máquinas. Com naturalidade, incorporaram ferramentas como Twitter, MSN, e-mail e até celular, utilizadas inclusive no campo profissional. Em muitos casos, lançam mão de várias delas ao mesmo tempo.
Considerados multitarefas, os concebidos entre 1980 e 1994 pesquisam o mercado na Internet, leem notícias pela rede enquanto ouvem música e finalizam um relatório, por exemplo. “É um público mais atualizado, principalmente na área tecnológica. No caso de áreas específicas, as empresas verificam muito a formação”, explica, Giuliana Moscatelli Fabiano, 26 anos, gerente da Gelre, empresa de recursos humanos. De acordo com ela, que também integra a Geração Y, essa faixa etária está em alta atualmente.
“Os profissionais com idade entre 22 e 32 anos, no máximo 35 anos, são os mais procurados. São pessoas que finalizaram a graduação e estão propensas ao mercado de trabalho. São ativas, consideradas mais atualizadas e já passaram por alguma experiência”, diz. Ela concorda, porém, que se não estiverem satisfeitos com a oportunidade oferecida, a substituem rapidamente.
“Esses profissionais, normalmente, não passam mais de três anos numa mesma empresa. Chegam à gerência mais rápido. Antigamente, os promovidos eram aqueles com mais tempo de casa. Agora não. Esses novos gerentes tentam dar uma cara nova às empresas, mas não acredito que desprezem hierarquia”, comenta Giuliana.
A gerente ressalta que a nova geração não se intimida em dar sugestões, sendo que qualquer uma delas é sempre bem-vinda desde que tenha embasamento - independentemente de quem parta. Ainda de acordo com Giuliana, 70% dos profissionais recrutados por ela integram a Geração Y.
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Para economista, os jovens estão melhor preparados para o trabalho
A Geração Y chega ao mercado de trabalho melhor preparada que as anteriores, na avaliação do economista Wagner Ismanhoto. Num primeiro momento, tanta qualificação pode, inclusive, chocar as próprias empresas.
“O mercado fez com que esses jovens se preparassem mais. Chegam num grau de profissionalismo muito maior que o nosso há 20, 30 anos. Se apresentam cheios de ideias”, afirma Ismanhoto.
No entanto, na prática, a implementação delas talvez não seja assim tão fácil, como bem sabem os mais experientes. As avaliações diferentes entre pessoas de faixas etárias distintas podem resultar em conflitos de gerações, situação nada inédita no mercado de trabalho. Por isso, resta às empresas saber dosar as opiniões e tirar o melhor proveito delas.
“Hoje o mercado está diferente de alguns anos atrás. Tem prestigiado o pessoal mais rodado, a experiência. Valoriza as duas coisas. O mercado sempre estará disposto a recepcionar quem é bom, quem tem capacidade e vontade”, afirma o economista.
Por mais qualificado que seja, normalmente um jovem não será contratado pela empresa para, imediatamente, assumir sua presidência. Regra geral, o caminho ao topo leva algum tempo, mesmo que não seja muito.
“Mas as oportunidades estão bem melhores para quem está entrando agora. A economia está em expansão”, diz o economista. A maré boa contempla mesmo quem não teve chance para se especializar.
Nesse caso, o profissional pode tentar compensar o tempo perdido, ainda na opinião do economista. “Eu falo por mim. Tive de criar minhas oportunidades, meus espaços, mostrando serviço. Quem não teve a mesma chance vai ter mais dificuldade, nada que com competência e vontade não seja superado”, conclui.
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Bem informada
Integrante da Geração Y, a gerente de assessoria de recursos humanos Giuliana Moscatelli Fabiano, 26 anos, não passa uma semana sequer sem pesquisar o mercado onde atua. Para tanto, criou seus próprios mecanismos, que prefere manter em sigilo.
Quando ainda cursava gestão de recursos humanos trabalhava num hotel como recepcionista. Na época, passou a implementar no ambiente de trabalho o que aprendia na faculdade. “Como o hotel não tinha nada nessa área, adquiri bastante experiência. Me formei e logo consegui emprego na área”, comenta.
Cinco anos após ter recebido o canudo, já ocupa cargo de gerência. “É preciso ser dinâmico. Tem de estar atualizado e atento a tudo ao mesmo tempo”, explica.