Se moramos no planeta Terra, então certamente temos aflições, não nos faltarão problemas e é natural que venhamos a colecionar inimizades. Nessa nossa caminhada, cujo roteiro é definido por nosso livre arbítrio, tudo colabora para nos tornarmos mais experientes, ficarmos mais desconfiados e isso acaba criando um mecanismo de defesa que, muitas vezes, nos torna menos afáveis e sorridentes.
Quando chegamos a este mundo, nos é dado o tempo exato para completar nosso trabalho. Cada um de nós tem tarefas específicas a realizar, mas infelizmente a maioria não usa o tempo de forma adequada e acaba por deixar esta vida sem completar a sua necessária missão. A correria diária nos distrai, desviando-nos de nosso objetivo maior.
Se não conseguimos colocar a cabeça no travesseiro e vivenciarmos a oportunidade de termos um sono tranquilo e profundo, o conhecido “sono dos justos”, então é bem possível que não estamos vivendo o que idealizamos, não vivemos o que pregamos e nem vivemos aquilo em que acreditamos.
Duas forças agem sobre nós em igual medida o tempo todo: uma positiva, que permite a transformação de nossa natureza e a negativa, que nos impele para a ação egoísta, a gratificação instantânea e o prazer transitório. A energia negativa nos torna pesados, nos deixa com excesso de bagagem, nos imobiliza. Este excesso de bagagem rouba nossa capacidade de reação; só pensamos naquilo que nos falta e no que não pode ser feito.
O excesso de bagagem é gerado pela preocupação que está sempre atrelada ao futuro. Quanto mais se acumula, quanto mais se aspira, maiores serão as preocupações e a ambição. Quem vive assim imagina que apoderar-se do que está fora de seu alcance e que se tiver o objeto que quer, será a pessoa mais feliz do mundo. Quem é assim vive sofrendo, morre cansado e ainda faminto; quem é movido pela ambição jamais sacia seus desejos: corre atrás de ilusões.
O excesso de bagagem custa dinheiro e se não nos livrarmos dele ficaremos taxiando na pista de decolagem sem condições de vôo. Quem tem excesso de bagagem fica no aeroporto e o aeroporto é interessante porque, na realidade, ele é um “lugar nenhum”. As pessoas que estão ali são desprovidas de nação, não pertencem a nenhum Estado em especial. São cidadãos do aeroporto, representam a temporalidade em um lugar que não é lugar nenhum, mas é um lugar onde se cruzam inúmeras vidas.
O excesso de bagagem nasce da vontade de receber que, por sua vez, está ligada a carência que não tem como ser preenchida. Não importa o quanto recebamos, a euforia se esvai e voltamos ao ponto de partida. Receber é nossa tendência primária, por outro lado, a vontade de esvaziar a bagagem, de compartilhar para transformar nossa natureza, embora inicialmente possa parecer desconfortável, nasce da satisfação e não da carência.
Ao se livrar do excesso de bagagem, pode-se optar por uma porta de embarque e mudar de vida porque não existe uma vida sem tarefa a ser cumprida; porque não há lugar sem ao menos um fragmento de Luz esperando para ser descoberto; porque não há opção que não guarde em si a possibilidade de ser sagrada; porque não há momento sem um chamado. Para se livrar do excesso de bagagem é preciso ter humildade que significa entender que nada do que temos é inerentemente nosso.
O excesso de bagagem é um obstáculo que colocamos em nosso caminho quando não conseguimos manter os olhos fixos em nosso objetivo: a plenitude espiritual. Se livrar do excesso de bagagem é um desafio, mesmo porque a plenitude espiritual não é um presente, temos que merecê-la. O segredo para o sucesso em qualquer jornada é sempre se fixar no destino, continuar viajando com firmeza em sua direção e lembrar que nesta jornada, seu corpo é o veiculo, mas sua alma é a bússola.
Alguém disse para todos os que lutam e estão sobrecarregados: “Venham a mim e eu lhes aliviarei... ...como Sou manso e humilde de coração, o meu jugo é suave e minha carga é leve”.
O autor, Paulo César Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp de Bauru