08 de julho de 2026
Bairros

Jovem é espancado e morto no Jd. Ferraz

Mariana Cerigatto e Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 7 min

Um grupo de pessoas ainda desconhecido pela polícia agrediu até a morte um rapaz de 25 anos, na madrugada de ontem, em mais um ato de violência e barbárie registrado em Bauru. O crime ocorreu na quadra 5 da rua Seijo Ishikawa, no Jardim Ferraz, e deixou os moradores do bairro perplexos. A vítima, Tiago Barbosa de Camargo, conhecido como Tiaguinho, chegou a ser socorrida e levada ao Pronto-Socorro Central por volta das 2h16, mas não resistiu aos ferimentos. Este é o 25º assassinato do ano na cidade e o sexto ocorrido nos últimos 11 dias.

De acordo com relatos de vizinhos do bairro, que preferiram não se identificar, um bando de agressores teria espancado Tiago, que gritava por socorro. Porém, nenhum dos moradores confirmou ter presenciado a ação. Após acionar a Polícia Militar (PM), uma das testemunhas chamou o socorro e se deparou com a vítima, que se encontrava caída no meio da rua, muito machucada e inconsciente.

Quando o serviço de Resgate chegou, Tiago foi amparado apresentando lesões graves no corpo todo. Ele morreu logo depois de ser atendido pela viatura do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). O corpo foi encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML).

A polícia não sabe dizer com exatidão os motivos que teriam provocado o espancamento do rapaz, nem que tipo de objetos teriam sido utilizados para feri-lo de tal maneira. Por enquanto, também não há pistas dos agressores, que teriam fugido logo após a vizinhança chamar a polícia. O crime está sendo investigado pela Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Bauru.

De acordo com o delegado da unidade que cuida do caso, Carlos Alberto Gomes da Rocha Silva, um inquérito policial foi instaurado para tentar identificar os suspeitos de terem assassinado Tiago e os motivos que os levaram a cometer o crime. “A DIG fez um boletim de ocorrência por homicídio doloso e os investigadores estão correndo atrás das pistas. Não temos suspeitos e nem as razões, mas amanhã (hoje) vamos ouvir uma testemunha”, adianta Silva, destacando que a pena para este tipo de crime varia de 15 a 30 anos de detenção.

Marcas de sangue

As quadras 5 e 6 da rua rua Seijo Ishikawa deixaram registrados os rastros da violência praticada. Em um dos quarteirões, havia diversos pingos de sangue pela calçada. Na rua de terra em que estava o corpo, passadas mais de oito horas do crime, as poças de sangue eram visíveis aos moradores. Um deles chegou a ouvir os gritos da vítima enquanto dormia, mas não suspeitou da agressão. “Meus cachorros latiam muito, mas eu nem poderia imaginar que uma pessoa estaria sendo morta”, disse, indignado.

Outra moradora da quadra 8 reivindicou patrulhamento naquela localidade, que frequentemente é alvo de roubos e furtos. “Nunca constatei uma viatura por aqui fazendo vistoria. Eu não ouvi os gritos da vítima porque dormi pesado, mas acordei chocada com a notícia de que um rapaz teria sido espancado até a morte por aqui. Isso provoca mais insegurança no bairro”, comenta.

O corpo de Tiago foi reconhecido na manhã de ontem por seu pai, Genésio Pacífico de Camargo, por conta de uma tatuagem que o rapaz possuía. “Ele tinha um dragão que vinha do peito até a costela. Foi assim que eu soube que era ele, porque, pelo rosto, não tinha como saber”, conta, relatando a intensidade da violência sofrida pelo filho.

A reportagem entrou em contato com o IML, que afirmou não poder dar informações sobre o modo como ocorreu o espancamento por questões de sigilo. O laudo oficial da necrópsia ainda não havia sido emitido pelo órgão até o fechamento dessa edição.

Ontem, o Jornal da Cidade divulgou matéria destacando os casos crescentes de violência na cidade. O 1º semestre deste ano foi considerado o mais violento dos últimos três anos em Bauru. Ao todo, foram contabilizados 25 assassinatos de janeiro até ontem. O número já representa dois terços do limite considerado aceitável pela Organização das Nações Unidas (ONU) para todo o ano, de 10 homicídios para cada 100 mil habitantes. Como Bauru tem aproximadamente 360 mil moradores, o patamar tolerado é de 36 homicídios até o final de 2010.

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Vítima não tinha antecedentes criminais

Ainda que algumas informações extra-oficiais sugiram que Tiago Barbosa de Camargo, 25 anos, tivesse assaltado uma residência antes de ser morto, a Polícia Civil confirmou, ontem, que ele não possuía nenhum antecedente criminal. O pai da vítima, Genésio Pacífico de Camargo, comenta que teve conhecimento de afirmações de que o filho fora assassinado porque teria roubado uma casa horas antes, mas ressalta não acreditar na veracidade desta hipótese.

“Falei com o delegado e nenhum boletim de ocorrência de roubo à residência foi registrado. Ninguém veio reclamar para a polícia que foi roubado. Onde está essa pessoa, essa casa que foi assaltada?”, questiona-se.

O pai revela que Tiago foi detido uma única vez por ter, há cerca de um mês, supostamente participado de um assalto. Mas, na ocasião, ao ser encaminhado ao Plantão Policial, não foi reconhecido pelas testemunhas e foi liberado. “O assalto tinha sido praticado por um homem de terno e, naquele dia, o Tiago estava usando um terno meu. Mas não tinha nada que o incriminasse”, observa.

Genésio conta que Tiago era usuário de crack há cerca de um ano e meio, época em que, por conta do vício, parou de trabalhar. “Antes, ele vivia de fazer bicos como pedreiro, pintor. Ele fazia tudo, mas deu uma parada no serviço depois que começou a usar crack”, comenta. Para o pai, o vício do filho tem relação direta com a sua morte. “Mas não sei dizer porquê e nem quem foi. Minha esperança é que a polícia consiga achar pelo menos um dos agressores, porque aí vai conseguir encontrar os outros.”

Segundo a família, Tiago morava com a mãe no Jardim Vitória, mas mantinha contato com o pai e a madrasta. Ontem pela manhã, a mãe teria sentido falta do filho e entrou em contato com o ex-marido para saber notícias do rapaz. Através de boatos, a família confirmou no IML a causa do desaparecimento de Tiago. “Ele tinha assistido ao jogo da Seleção ontem (anteontem) em nossa casa. Tiago era um rapaz amoroso, estamos desolados com a forma que ele foi assassinado, mas não imaginamos quem pode ter feito isso”, relata a madrasta, Maristela Pinheiro.

O corpo de Tiago está sendo velado no Centro Velatório São Vicente e o enterro será hoje, no Cemitério São Benedito, às 11h.

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Caso de Tiago lembra

espancamento ocorrido no ano passado em Bauru

No final do ano passado, um caso aparentemente semelhante ao da morte de Tiago Barbosa de Camargo, 25 anos, foi registrado em Bauru. À época, um grupo de pessoas do Jardim Tangarás agrediu um usuário de crack até a morte com socos, pontapés e pedaços de pau.

A vítima, Luís Eduardo de Jesus, teria sido ‘julgada’ e ‘condenada’ pelo bando depois de furtar crack de um coordenador do tráfico do Jardim Tangarás. O responsável pela comercialização da droga, André Luiz de Jesus Silva, teria dado prazo para que o rapaz quitasse seu débito.

Na tentativa de resolver a pendência, Jesus teria furtado a casa de uma vizinha, que reclamou com o padrasto dele. Para contornar a situação provocada pelo enteado, o padrasto procurou o coordenador do tráfico num bar, para tentar reaver os objetos levados. Segundo a Polícia Civil, o padrasto não sabia do furto da droga.

Jesus foi encontrado por Silva e seu grupo e levado ao Jardim Manchester para ser julgado. A decisão de matá-lo, porém, não teria sido unânime: três homens teriam sido contrários, mas nada fizeram para impedir o assassinato. Além de Silva, Edelvan José Miguel, Mário Gustavo dos Santos, Geraldo Ferreira Brandão, Michel Augusto Costa, Rubens Benigno Cecílio e Ronaldo Paulino dos Santos tornaram-se réus no processo e seis deles estão presos. A ação tramita no Fórum de Bauru, mas ainda não há previsão de quando o caso irá a júri popular.