08 de julho de 2026
Articulistas

Perdendo o equilíbrio

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

O ritmo forte de crescimento da economia brasileira que atingiu marcas recordes no primeiro trimestre e continuou acelerando (embora com menor velocidade) nos dois meses seguintes explica o aumento de mais de 40% no volume de importações de janeiro a maio de 2010 em comparação com o mesmo período de 2009. Nunca os brasileiros consumiram tantos produtos estrangeiros como nestes cinco primeiros meses do ano, o que não chega a ser uma notícia má como algumas pessoas pensam.

Significa, na realidade, que o crescimento segue robusto: quando o emprego aumenta, quando o PIB está crescendo, crescem também as importações. Quase todos os países aumentaram suas exportações para o Brasil no primeiro trimestre: os Estados Unidos e a União Européia venderam em quantidades mais 19% e 34% respectivamente, os europeus aproveitando o impulso adicional da desvalorização do Euro. As vendas que mais cresceram, no entanto, foram as de produtos chineses que em volume aumentaram 62%. As importações complementam a oferta doméstica, de forma que são um fator que de um lado ajuda a estabilidade interna.  Em compensação podem desencadear um processo de desequilíbrio externo como o que já começa a acontecer hoje: o déficit em contas-correntes está crescendo, o que é uma coisa que precisa ser olhada com cuidado para ser corrigida, antes que se transforme num real problema.  

Não se deve acreditar que com o sistema de câmbio flutuante há uma correção automática dos desequilíbrios, porque,  se permitir que o déficit vá se acumulando, a correção se dá de  um salto e de repente há uma mudança rápida nas condições do câmbio que destrói as finanças das empresas e perturba as próprias condições do crescimento. Preocupa o fato que o maior crescimento das importações vem da China.

Trata-se de um fenômeno produzido não pela eficiência da indústria chinesa ou  porque ela tenha desenvolvido tecnologias novas, que estejam na ponta de um processo inovador. O de que se trata na verdade é que se estabeleceu um diferencial de câmbio da maior importância. Todos reconhecem que o real está supervalorizado: não se pode saber se está 15% ou 20% mas seguramente não é muito menor do que isso. E todos sabem que o yuan (a moeda chinesa), está supervalorizado entre 30% e 40%, ao redor disso. Pode-se discutir se é um pouco mais, um pouco menos, mas não está longe desse nível. Então, se o Brasil tem uma valorização de mais 15% e a China tem sua moeda desvalorizada em 40%, quando cotejamos os dois o diferencial é da ordem de 65%!

É impossível compensar isso com qualquer medida de aumento de produtividade. Não há nenhuma indicação razoável que a produtividade no chão de fábrica no Brasil seja inferior à produtividade das fábricas chinesas. Há sim, sérias indicações que o governo brasileiro compreende mal o problema e  age com menos inteligência do que o governo chinês. A invasão de produtos chineses vai continuar. Não virão necessariamente direto da China, mas transitando pelo Vietnã ou num futuro próximo de Taiwan, com quem estão formalizando um acordo de grande envergadura para ampliar sua participação no comércio mundial.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento. - e-mail contatodelfimnetto@terra.com.br