Os jornalistas brasileiros que realizam coberturas de copas do mundo provavelmente nunca haviam sido tratados com tamanha dose de desconfiança, rancor, falta de postura e de educação por um treinador da seleção brasileira como o foram por Dunga durante a nossa participação na Copa do Mundo da África do Sul, encerrada com a derrota para a Holanda nas quartas-de-final. A coisa foi tomando tal magnitude, que a impressão que passava é que na cabeça de Dunga os oponentes a serem batidos na caminhada rumo ao tão desejado hexa eram os profissionais de imprensa, não as equipes que seriam nossas adversárias dentro das quatro linhas.
E num país onde a imprensa, ao contrário do que ocorre na maioria das nações civilizadas do planeta, é vista por uma significativa parcela da sociedade muito mais como inimiga do que co-mo aliada, essa postura do técnico brasileiro acabou recebendo aplausos entre os torcedores canarinhos. A cada nova patada que o treinador desferia em algum jornalista compatriota durante as suas coletivas, com direito a palavrões ao vivo para o mundo todo, o que lhe rendeu até uma advertência da Fifa, mais acumulava simpatizantes por aqui. Era como se esses torcedores quisessem dizer, quando não diziam mesmo: - É isso aí, Dunga, desce a lenha nesses pernas de pau da imprensa, que só sabem pisar na bola e tentar atrapalhar a felicidade da nossa gente.
De minha parte, ficava tentando entender a razão de tanto rancor e antipatia do nosso treinador para com os jornalistas. Qual o brasileiro que, lá atrás, não olhou com desconfiança, para dizer o mínimo, para a escolha de Dunga para o cargo de treinador da seleção brasileira? Ele, que nunca havia comandado sequer uma equipe da terceira divisão do futebol brasileiro, de repente alçado ao comando da seleção mais vitoriosa da história das copas do mundo. As conquistas das copas América e das Confederações e a passagem tranqüila pelas Eliminatórias sul-americanas parecem ter feito o milagre de transformar o sapo em príncipe encantado no imaginário da imensa maioria desses torcedores. E agora, depois da amarga eliminação para a Holanda, quem se lembrará dessas conquistas? E quem, em seu juízo perfeito, vai poder debitar a culpa, ou parte dela que seja, aos profissionais de imprensa?
Vamos aos fatos. Até a derrota para a Holanda, o Brasil havia batido três galinhas mortas em copas do mundo (Coréia do Norte, Costa do Marfim e Chile), tendo apresentado um futebol minimamente convincente apenas contra este último. Quando se viu diante de um adversário um pouco mais qualificado, que foi Portugal, ficou num modorrento 0 a 0, numa das partidas de pior nível técnico não só dessa, mas de todas as copas do mundo. E aí sim, nas quartas-de-final, tivemos um adversário à altura, a Holanda. Resultado: eliminação. Se como dizem, os grandes soldados se fazem conhecer nas grandes batalhas, Dunga e os seus jogadores só venceram batalhas menores, mostrando-se fracos e despreparados para a batalha que realmente poderia consagrá-los definitivamente para a história.
E essa é a história que, goste ou não Dunga e aqueles que aplaudiram as suas patadas em jornalistas durante a Copa, será contada pela imprensa brasileira, que também tem os seus pernas de pau, mas que já prestou e continua prestando um papel imensamente relevante ao país, coisa que o queridinho do presidente da CBF não conseguiu fazer pelo nosso futebol. E agora é a nossa vez: V. S. F...., Dunga! E até nunca mais!
Plínio Teixeira Junior é radialista e jornalista