É chover no molhado dizer que para os brasileiros, entre todas as emoções coletivas que lhe são permitidas, o futebol é de longe a maior delas. Mas nunca é demais refletir sobre os excessos cometidos quando a extravasamos. Torcer, vibrar, sorrir, chorar... Tudo está presente neste caldeirão de sensações que faz tão bem à já programada, controlada e previsível rotina nossa de cada dia. Não é à toa que o futebol é o esporte mais popular do planeta e, mesmo para quem chegou atrasado na festa, como americanos e japoneses, a guloseima pode logo, logo, virar prato principal.
Mais do que alegrar, o esporte tem a função de integrar. E por paradoxal que seja, essa integração se dá no confronto. Na disputa para saber quem é o melhor, buscamos, naquele sagrado momento, a nossa superação. O uniforme, o hino, o patriotismo, isso tudo nos remete a uma situação análoga aos nossos instintos mais viscerais. Lutar, dominar, vencer! Assusta? Calma, tudo dentro de campo, com regras claras e justas. Findo o jogo, para fazer jus à nossa escalada evolutiva, não há nada que impeça transformar adversários em amigos. É preciso exercitar esta sábia engenharia.
O esporte é um dos mais inteligentes, eficientes e agradáveis códigos sociais criados pela Humanidade. Quantas guerras não poderiam ser trocadas por emocionantes partidas de futebol? É óbvio que uma arma poderosa como essa seja naturalmente complexa, contraditória e, principalmente, muito, mas muito lucrativa. A marca do patrocinador, a camisa do torcedor e o coração do jogador, tudo é comercializado pela indústria do futebol. Do álbum de figurinhas às transmissões exclusivas, do ingresso nas mãos dos cambistas aos resultados dos jogos(?), tudo são possibilidades neste generoso negócio. Quem sabe não encontramos algumas pistas para entender a irracional resistência à utilização de recursos tecnológicos para auxiliar os árbitros, pelo menos em situações letais da partida. A essência do futebol está no talento dos jogadores, não nas injustiças da arbitragem, sejam elas originadas por crassos erros ou nos famigerados tapetões.
Mas se as coisas do futebol precisam, digamos, de um aperfeiçoamento, as lentes de quem as registram, também. A mídia além de informar, tem, sim, o compromisso de formar. Propagandas que perdem o ponto entre o bom humor e a ridicularização do adversário; comentários toscos, para dizer o mínimo, reproduzidos a granel nos programas esportivos e reportagens grosseiras, que beiram a ofensa, mostram que precisamos corrigir muitas rotas, além das que levam ao gol. Um exemplo infeliz foi exibido por um canal esportivo de tv por assinatura sobre o Paraguai. Logo ele que se mostrou mais competente do que a gente no quesito central deste artigo, a emoção. Em 2014, o Brasil será o anfitrião do maior espetáculo da bola, a Copa do Mundo da Fifa. E diante de tamanha responsabilidade, vale um alerta: se já estamos perdendo o encanto dentro dos gramados, temos que tomar muito cuidado para não perder a educação fora deles.
O autor, Luís Victorelli, é jornalista e colaborador de Opinião -lvbauru@gmail.com