08 de julho de 2026
Geral

Mundo virtual abre espaço a coadjuvante

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

Entre os aspectos positivos do mundo virtual está o fato dele dar espaço a protagonistas que seriam vetados até como coadjuvantes nas mídias clássicas. A ponderação é do professor de comunicação Cláudio Coração. Ele cita, por exemplo, movimentos de periferia organizados como a Central Única das Favelas (Cufa) e Cooperativa de Poetas da Periferia (Cooperifa).

“Esses grupos ganham uma visibilidade incrível. Tem também movimento de indígenas organizados, uma série de organização multicultural que não tinha espaço. É um campo de luta. Há também movimento com discursos xenófobos e separatistas”, cita Coração, que é professor de webjornalismo na Universidade Paulista (Unip). Por conta disso, de acordo com ele, a Internet é um cabedal de tensões sociais.

A rede ainda está inserida num contexto paradoxal por exigir uma prática individual, que carrega a ideia de coletividade. “A pessoa tem seu Facebook, seu Orkut, integra comunidades que acha prudente participar, mas cria uma nova forma de coletividade”, reitera.

Trata-se da valorização do privado em detrimento à participação do espaço público, reduzida a partir do final do século 20, explica Coração. “Na época, entrou em voga um discurso que tentou definir uma nova ordem mundial. Foi quando ganharam força denominações como ‘o fim das ideologias’. É nesse período que espaço de organização, de participação, de incorporação do espaço público meio que se esfacelou”, comenta.

Esse período ficou marcado pelo fim da polarização entre capitalismo e socialismo, doutrinas que continuam duelando ainda hoje também na Internet. “São muito comuns sites e blogs engajados com discursos mais à esquerda e outros mais à direita. Esse discurso, calcado no fim das ideologias, não deixa de ser uma ideologia”, ressalta.

Mas mesmo sendo um caldeirão com as mais variadas posições, a Internet ganha força atualmente porque está calcada na experiência de comunidade. “Mas temos que fazer uma enorme ponderação: na maioria das vezes, a Internet é usada de forma infantil, pasteurizada, embora aí também esteja uma ideia de comunidade, de vínculo, de identificação”, informa.

Para posturas fúteis ou bem embasadas, a rede é um campo de ação, como as ruas também são, reitera Coração. “Continuam ocorrendo ideias de resistência nas ruas, mas há uma espécie de falta midiática e elas não são visualizadas”, acrescenta.

Ao citar Jean Baudrillard, o professor acredita que a Internet seja uma simulação do mundo real, mas com oratória própria. “Esse discurso tem uma natureza fragmentada, estilhaçada. Existem muitas informações, mas existe a sensação da desinformação”, conclui.

Eutanásia em cães

Um relatório elaborado no início do ano por assessores do deputado estadual Feliciano Filho (PV) e disponibilizado pela Internet reacendeu as discussões sobre a eutanásia em cães com leishmaniose em Bauru. Assustada com o que leu, uma professora de Guarulhos procurou a fundadora da ONG Naturae Vitae, Fátima Schroeder, para perguntar se procediam as informações postadas sobre o Centro de Controle de Zooneses (CCZ) de Bauru.

Foi quando Fátima se inteirou melhor do assunto e disparou por e-mail as informações levantadas para sua rede com 500 contatos, sem se esquecer da imprensa. Foi o suficiente para a questão voltar à ordem do dia.

“Não fui eu quem denunciei, foram os assessores do deputado. Então, por que não repassar? Vamos discutir o problema, apurar”, comenta. Na opinião dela, a internet tem papel imprescindível para a troca de informações.

“A gente consegue ajudar animais que não estão nem em Bauru. Trocamos informações com o Brasil todo e até de fora. São organizações não governamentais, pessoas protetoras de animais, amantes de bichos, que ajudam pelo menos repassando e-mail”, comenta.

Pessoalmente, ela também dá sua colaboração à causa dos animais. Atualmente, assumiu a missão de encontrar um novo lar para cinco filhotes de cães com cerca de 50 dias, já vermifugados e saudáveis. Mais uma vez, os contatos via web colaboram nesse intento.

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Vereador adverte para

o risco de pasteurização

O vereador Roque Ferreira (PT) alerta para o risco da Internet pasteurizar as manifestações populares. No ano passado, ele foi protagonista de um imbróglio que resultou numa campanha via Twitter. Na ocasião, o petista afirmou na tribuna da Câmara que organizaria uma manifestação na rodovia Comandante João Ribeiro de Barros, que liga Bauru a Jaú, contra a Centrovias.

Seu objetivo era pressionar a concessionária por conta dos prejuízos ambientais causados ao Zoológico Municipal. A declaração resultou numa ação judicial que impediu o tal protesto. A campanha, então, teve sequência na rede. Por conta dessa e de outras iniciativas, avalia, posteriormente, os reparos foram iniciados.

“Algumas manifestações encontram espaço nas ferramentas disponíveis na rede, mesmo que não exista um nível de mobilização mais direto. Pode ser um instrumento para ajudar diversas organizações, uma ferramenta de comunicação, interação, de propaganda. Mesmo assim, fundamentalmente necessitamos da participação ativa das pessoas que se organizam para defender uma causa”, ressalta.

Dentro dessa perspectiva, Roque adverte sobre a impossibilidade em se fazer uma greve via rede. “É necessário que os trabalhadores parem seu trabalho para que a greve tenha frutos”, reforça o vereador, que se define marxista, comunista e militante hoje organizado no PT.

Para evitar a pasteurização, na opinião dele, é preciso estabelecer diferenças entre as reivindicações transitórias da classe trabalhadora e as máximas, assim como haver independência política entre partido e, por exemplo, o movimento sindical.