08 de julho de 2026
Geral

Origem da Internet explica participação

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 5 min

Como explicar a contínua ascensão das manifestações populares na rede? Basta compreender as bases que sustentam a Internet, adverte o professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Ricardo Nicola. “As comunidades virtuais ou fóruns de debate ou redes de relacionamento, expressões variáveis desse fenômeno comunitário, são as formadoras da Internet. Elas já existiam antes da Internet existir. Trata-se de uma estrutura comunitária, onde comunicação e textos são comunitários”, reitera.

Na opinião dele, essa sustentação esclarece por que razão o mundo real ouve cada vez mais o virtual. “São grupos que se articulam dentro da rede de forma interativa, crescente. Várias comunidades virtuais se articulam entre si. No Twitter, com 140 caracteres, é possível conversar com todo mundo. As comunidades virtuais também têm fóruns de debate. Eles constroem e descontroem alguns temas, assim como na vida real”, comenta.

Nicola ressalta, no entanto, que as mídias clássicas (televisão, rádio e jornal) não dão a mesma oportunidade. Não significa, porém, que o internauta deixe de se direcionar apenas para espaços que reforcem seu ponto de vista.

“Isso acontece também no mundo real. Existe um preconceito em relação ao mundo online, mas ele está sempre buscando caminhos contra a censura ou injustiças. A rede permite isso por meio de software e hardware, já as mídias clássicas não”, destaca Nicola.

Mas ele descarta uma migração das manifestações reais para as virtuais. “As ruas do mundo online são outras, mas são tão reais quanto. Não há uma transposição do mundo analógico para o digital. O mundo online é outra coisa, é ele próprio. A ciberdemocracia é um terreno onde direitos e deveres são diferenciados, não dá para estabelecer paralelos. As fronteiras estão sempre sendo renegociadas, não são estanques”, diz o professor.

De acordo com ele, o espaço virtual é uma extensão do real e mais, com língua própria: o googlish. “É o esperanto da rede. São caminhos inicialmente criados pelo mercado e revolucionados pelo cibercidadão”, garante.

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Estudante acredita na interação da ação virtual com as manifestações

O universitário Diego Augusto dos Santos também acredita que as manifestações nas ruas e na Internet se complementam. Porém, na opinião dele, mudanças concretas só acontecem em consequência de pressões no campo real, que contemplem o corpo a corpo. Como explicar, então, o projeto Ficha Limpa?

“Foi apoiado pela grande mídia. Pessoas que estavam alheias ficaram sabendo e entraram em contato por meio da Internet. Mas quando não há essa veiculação, a questão fica comprometida. A rede tem um papel fundamental, mas pressão mesmo para mudar algo tem de partir da rua”, reitera o estudante, que é membro do Diretório Acadêmico Cesar Lattes (Dacel), da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

André Padoveze, colega de universidade, inclusive, debateu online o quanto pode ser questionável e negativo o fato do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinar quem pode ser candidato nas próximas eleições. Via rede, o militante do movimento estudantil também se posicionou contra o ato médico.

Ambos não estão ligados a legendas partidárias e criticam a atual postura da União Nacional dos Estudantes (UNE), consequência de sua proximidade com o PT. “A UNE deixou de fazer oposição em qualquer âmbito. Não se vê mais suas manifestações em grandes discussões políticas, ela tem se omitido”, avalia Diego.

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Para militante, web não substitui a rua

Mesmo quem está acostumado a tomar as ruas para defender bandeiras acredita que a Internet seja mesmo uma nova forma de protesto. É o caso do bauruense Laércio Pereira, assessor sindical da Coordenação Nacional de Lutas (Conlutas).

“A Internet não exclui a rua, não se contrapõe à outra. Mesmo que as reivindicações na rede sejam pontuais, de grupos espontâneos não organizados, é uma nova forma de pressão válida”, avalia.

O Conlutas, por exemplo, se valeu da rede para pressionar o presidente Lula a não vetar o reajuste de 7,7% no provento dos aposentados, percentual aprovado pelo Congresso. Para isso, a entidade disponibilizou um link para que o interessado acessasse texto com informações sobre o assunto.

O material também reivindicava o fim do fator previdenciário, aprovado pelos parlamentares em Brasília, mas vetado pelo presidente. A rede, no entanto, foi apenas um dos instrumentos. Mensalmente, os aposentados organizavam manifestações no Planalto.

“É um setor que tranquilamente poderia ficar só na mídia eletrônica, mas reuniu 10 mil pessoas. Tem que ter corpo a corpo”, frisa Laércio, exemplificando as recentes mobilizações que aglutinaram milhares de pessoas na Grécia e outras realizadas em São Paulo, por exemplo, que chegam a parar a maior cidade brasileira.

“O governo de frente popular de Lula cooptou as lideranças que faziam essas manifestações, como as das centrais sindicais. Obviamente que isso enfraquece as manifestações de rua, mas elas continuam fortes”, afirma.

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‘Toque de recolher’

A psicóloga Liara Rodrigues de Oliveira criou no Orkut a comunidade “Toque de recolher – Tô fora’.

Sua intenção foi a de promover um canal de comunicação entre os jovens, além de divulgar informações sobre o tema.

“Os meninos escreviam nos tópicos, chegaram até a abrir uns por iniciativa própria”, comenta.

Na opinião de Liara, quando a mobilização é promovida por um mediador comprometido, que tenha claro as questões éticas, a Internet é capaz de promover sérias mobilizações. “Se não é dessa forma, acaba-se desvirtuando o objetivo. No meu caso, o cuidado era o de sempre promover uma discussão que fosse saudável entre os adolescentes, já que trabalho especificamente com eles”, ressalta a psicóloga.

Para tanto, Liara disponibilizou na comunidade, inclusive, a matéria do JC referente ao parecer contrário do promotor da Vara da Infância e Juventude, Lucas Pimentel de Oliveira, relativa ao limite de horário para adolescentes permanecerem na rua.